
Já distinguido com os prémios literários Ulysses e César Vallejo, "Beat", o mais recente livro de poesia de Luís Filipe Sarmento, é uma longa jornada autobiográfica que consiste ainda num diálogo intenso com alguns dos grandes vultos da literatura norte-americana
Jack
34
"Nasci sempre em Lisboa. E cada vez que nasço há ma revolução nas convenções que me mataram. E volto a nascer nesta cidade de luz e mitos. Renasço em contradição com o passado e na contradição do presente que já pertence ao mundo transato. Em cada renascimento, a agitação das marés, a superfície do fogo como espelho de ideias, a magia do fumo, a abertura das portas da perceção a um mundo sem nome inscrito no universo poético de constelações desconhecidas. Viagem sem retorno, mas sempre com regresso ao papel. A tinta como sangue negro de diabos construtores. Arquitetos de edifícios literários que o poder dos hipermercados renega. É deste espaço que me orgulho, desta viagem no tempo para a ausência dos calendários que as modas impõem aos suicidas plagiadores de clássicos anacrónicos. Nasço sempre em Lisboa para ver dançar o Tejo o rock"n rol do mar. E anoiteço em ti sob as tuas carícias de um blues opiáceo.
Allen
1
Eu vi, nas horas adultas da infância, condenarem-me ao crime de matar nas terras longínquas de África. Eu vi as tropas do governo fascista a desfilarem por ruas de Lisboa a gritarem com ódio instituído que «Angola é nossa». Eu vi, Allen, a pena que me estava destinada aos sete anos e o medo sussurrado nas bocas das mães que se despediam dos filhos até ao desfalecimento da esperança nos cais de barcos repletos de futuros fantasmas. Eu vi as cabeças decapitadas de negros rolarem como bolas até ao golo do desprezo. Eu vi um país autofágico a deglutir a sua garantia de futuro.
Lawrence
1
Como tu costumavas dizer, Lawrence, o amor é difícil de acontecer nos mais velhos e quando te li no Verão de 1975 não pensei nas mutações do sabor e do beijo que a idade em comboio apressado alquimiza e transmuta por estas planícies que, agora, nos são comuns. Nesta idade, 45 anos depois, os cabelos ainda me descem pelas costas sem obstáculos da moda e do mainstream e sigo no vapor dos dias lunares ou nas cápsulas das noites solares com essas primeiras palavras tão modernas como a liberdade conquistada com a revolução dos cravos. E vieste ver a nossa festa, brindámos com Porto e a luz de Lisboa penetrou-te nas veias a memória da tua própria ascendência. O teu sorriso silencioso aplaudiu os jovens amantes entre as poeiras da revolução e descobriu os velhos amantes saídos da clandestinidade e sem saber o que fazer com a transparência da liberdade. Sentámo-nos à beira do Tejo e contaste-me que em Central Park atiravas moedas para uma fonte onde surgira nu um arlequim. E eu disse-te que dentro do Tejo estavam adormecidas as Tágides, as ninfas do rio, que seriam acordadas com os teus poemas do mar. O que tu riste, Lawrence. Colocaste a tua mão em cima do meu ombro e recitaste um poema sobre a verdade da dança das ondas e um manto mágico trouxe à realidade tritões e sereias e ninfas e arlequins e ficámos sem saber se Lisboa era San Francisco ou se San Francisco era Lisboa com as suas pontes gémeas a cintilarem à entrada da noite. E como tu costumavas dizer que não podias deixar de pensar que a realidade era quase tão real como a recordação que levaste daquele dia. O rio Tejo transformara-se num imenso palco. O reflexo da ponte eram as luzes da ribalta e as ninfas dançaram só para ti a mais íntima coreografia do fado de Lisboa. E disseste-me: não escrevas epitáfios.
"Beat"
Luís Filipe Sarmento
The Poets and Dragons Society
20 euros
