Banda Desenhada

Apropriação fiel e conseguida de "1984"

Apropriação fiel e conseguida de "1984"

Xavier Coste reproduz o tom opressivo do romance de George Orwell. Nas livrarias portuguesas há, atualmente, três versões em BD.

A atual apetência da banda desenhada por adaptações de romances e a entrada em domínio público das obras de Georges Orwell provocaram a convivência nas livrarias portuguesas de nada mais nada menos que três versões do seu "1984", diferentes na forma e no estilo.

Para quem procura uma boa banda desenhada, a escolha deve recair na versão do francês Xavier Coste, editada entre nós pela Relógio D"Água, já distinguida com alguns prémios significativos no seu país de origem.

Adaptar uma obra literária em banda desenhada, para lá da óbvia fidelidade ao original e, mais do que isso, ao seu espírito, implica também gerar uma versão autónoma no novo suporte narrativo, respeitando os seus códigos próprios.

Coste, neste "1984", apostou numa reduzida presença de textos de apoio - fugindo à tentação do texto ilustrado - e numa narrativa que avança com base nos diálogos e, muitas vezes até, apenas através das sequências gráficas, que se revelam francamente legíveis.

Esta opção liberta o desenho, dá-lhe espaço para respirar e, a par do formato generoso, praticamente quadrado, potencia o uso de imagens de grande dimensão. A sua presença, entremeada com uma planificação mais tradicional, faz com que pontuem momentos especiais do relato e condicionem o ritmo de leitura de acordo com o que o autor privilegia.

Apesar da predominância do desenho, o romance original de Orwell, escrito em 1948 mas tão atual, sobre uma sociedade do futuro, situada em 1984, em que a população está dominada por uma ditadura assente na vigilância constante feita através de câmaras e ecrãs de televisão, surge aos olhos do leitor da BD em toda a sua dimensão: a impotência do protagonista na fase inicial, a felicidade que encontra depois nos braços e no corpo de Júlia, a esperança numa mudança que nunca acontecerá e o desespero final.

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Tudo isto nos é é transmitido de forma bastante palpável, com as diferentes emoções expressas pelas cores utilizadas, a pequenez da personagem face ao gigantismo dos edifícios ou os sucessivos silêncios tão eloquentes.

1984
Xavier Coste
Relógio D"Água
248 p., 18,50 €

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