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Arquipélago de Escritores: partidas e chegadas no meio do Atlântico

Arquipélago de Escritores: partidas e chegadas no meio do Atlântico

Festival literário dos Açores termina este domingo em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, após três dias de debates sobre tudo o que se move em torno da literatura.

Algo que se nota imediatamente quando se chega aos Açores, neste caso, à Ilha de São Miguel, é o orgulho que os habitantes têm pelas suas coisas. Pelas suas lagoas e caldeiras, pelos seus produtos (muitas vezes publicitados apenas como sendo "dos Açores", o que parece bastar como valor), pelos seus clubes desportivos, pela sua companhia aérea, pelo Açoriano Oriental (o mais antigo diário português) e, naturalmente, pela sua literatura, sendo frequente encontrar-se placas que informam que determinado autor viveu naquela casa.

E não é preciso serem os autores que todos conhecem, como Antero de Quental, Natália Correia ou Vitorino Nemésio - esses dão nome a jardins e escolas -, mas sim terem sido poetas, romancistas ou dramaturgos nascidos no arquipélago: "as várias gerações que constituíram um corpo literário plural e diverso", como dizia Nuno Costa Santos, escritor açoriano, durante o lançamento do festival que dirige, o Arquipélago de Escritores, justamente um momento em que se celebra a riqueza literária dos Açores.

Na sua segunda edição, que termina este domingo em Ponta Delgada com uma entrevista a Vamberto Freitas, professor e crítico, incansável divulgador dos autores insulares, o festival arrancou logo, na passada quinta-feira, com um cruzamento de gerações açorianas: numa mesa subordinada ao tema "A poesia serve para quê?", dois jovens poetas, Daniel Gonçalves e Leonardo Sousa, procuraram dar resposta à questão, num debate bastante participado e onde a poesia encontrou utilidades múltiplas. Mas ainda as últimas intervenções ecoavam e já se mudava de época e de autor, com o lançamento de "Fui ao mar buscar laranjas - Poesia reunida", de Pedro da Silveira (1922-2003), autor natural da Ilha das Flores, que nas palavras de Nuno Costa Santos "tentou compreender que lugar é este, os Açores, que não é americano nem europeu."

Lugar de partidas e chegadas, como reconhecem com alguma melancolia os açorianos, o arquipélago, e as suas letras, continuou a ser celebrado nos dias seguintes. Sexta-feira, os alunos do magnífico Liceu Antero de Quental ouviram atentamente, e quase sem mexerem nos telemóveis, mais três autores de várias gerações e ilhas: Eduíno de Jesus, Madalena São-Bento e Norberto Ávila reuniram-se para tratar o apropriado tema "A literatura é uma ilha?", sendo que uma das respostas mais lapidares veio da escritora: "o ato de escrever é uma ilha, mas contém a aspiração de se tornar arquipélago ou continente, ao comunicar com os outros."

Já no sábado, chegou o momento da principal homenagem desta edição: exibido simultaneamente nas ilhas de São Miguel, Terceira e Faial, o documentário "Fazer versos dói", de Sara Leal, iluminou a vida e obra do poeta J.H. Santos Barros (1946-1983), natural de Angra do Heroísmo, cuja obra poética foi reunida recentemente no volume "Alexandria, como era". Cruzando depoimentos de críticos, escritores e familiares, e dando a conhecer os seus versos através de várias linguagens, do punk rock à "poetry slam", o filme acompanha uma história com episódios em Angola, Lisboa, Melides e Terceira - e um desfecho fatal em Espanha.

Redes sociais e "identidades"

Mas tratou-se de um evento em que os Açores apenas olharam para dentro, regozijando-se com as suas façanhas literárias? Por toda a natureza de um "lugar de partidas e chegadas", obviamente que não. Com convidados de Portugal continental como Dulce Maria Cardoso, Alexandre Quintanilha, Richard Zimmler, Pedro Vieira ou Domingos Amaral, e internacionais como o norte-americano Teju Cole, o Arquipélago de Escritores espraiou-se por diversas geografias e temáticas, destacando-se, entre muitas outras, as conversas em torno da relação entre literatura e redes sociais, e essa matéria que é hoje inescapável: as "identidades".

"Tempo da literatura versus tempo das redes sociais" foi mesmo o nome de uma mesa onde se sentaram, no sábado, os escritores João de Melo, João Pedro Porto, Joel Neto e Leonor Sampaio da Silva, mas o tópico andou em bolandas ao longo de todo o evento, sobretudo nas intervenções de Dulce Maria Cardoso (que considera que a literatura está a passar ao lado do fenómeno) e de Teju Cole (que confia no tempo próprio da literatura para tratar de todas as mudanças que as redes sociais trouxeram).

Também sobre as "identidades" emergiram posições diversas em diferentes momentos. Teju Cole, escritor, fotógrafo, professor de escrita criativa e homem com pouca habilidade para escolher bebidas açorianas, acredita num mundo sem países e fronteiras e até apenas com uma língua, "um inglês falado com milhões de sotaques". Num outro momento, Vamberto Feitas defendeu com eloquência que o valor universal de uma escrita depende justamente da sua relação com um lugar específico e uma identidade. E num outro debate, sobre "O grande século XX", o físico Alexandre Quintanilha confessou ansiar por uma "sociedade pós-género", onde as "questões de igualdade estivessem resolvidas e se acabassem de vez com os rótulos."

Talvez se possam poupar os rótulos que anunciam que o produto é "dos Açores". Porque uma visita ao arquipélago é suficiente para perceber que isso é sinónimo de qualidade.