José Mário Branco

"As pessoas já não se questionam nem se sentem responsáveis"

"As pessoas já não se questionam nem se sentem responsáveis"

Em agosto de 2018, o JN publicou a última entrevista que fez a José Mário Branco, pouco depois da edição do duplo CD "Inéditos 1967-1999", que recuperou 26 temas ao vasto espólio do músico. Na altura, o músico que morreu , esta terça-feira, explicou porque se tinha retirado dos palcos, embora continuasse a sua ligação à música


Quando voltou a ouvir tudo isto, como foi olhar para trás?

Foi engraçado. Normalmente, estes aspetos criativos são boas recordações. O mais difícil foi de facto selecionar, porque chegamos a ter três horas de música disponíveis. Foi preciso aplicar determinados critérios, nomeadamente o da qualidade, do interesse e da atualidade da obra. A seleção distraiu- me tanto que nem pensei muito que estava a visitar trabalhos antigos.

É curioso que, numa destas canções, "Alma Herida", que o compôs como sendo um bolero à maneira de António Machin, tenha levado esse modo ao limite interpretando o tema com os dedos a apertar o nariz ...
Comecei a trabalhar na rádio muito novo, com 16 ou 17 anos. Era funcionário dos Emissores do Norte Reunidos. Foi o meu primeiro emprego remunerado. E, a partir dessa altura, conheci muito bem as músicas populares, as canções de várias origens. Um dos meus cantores preferidos era precisamente o Antonio Machin, um bolerista cubano. Ao tapar o nariz para cantar o tal bolero que compus, quis imitar a sua forma de cantar. Estes temas que fiz para filmes, assim como outros que compus para um musical que inventei, nos meus tempos de exílio em França,com o meu amigo Jean-Marie Binoche, representam uma atitude de que eu gosto muito, e que eu chamo de esgrimir com o cliché.

O que pretende dizer com isso?
Agrada-me em certos tipos de música, entrar na sua tipicidade e tentar, respeitando essa tipicidade, puxar o gosto do público para cima. É isso que chamo de esgrimir com o cliché. Infelizmente, quase sempre, a longo prazo estas tentativas representam uma derrota porque o cliché é muito mais forte e tem todo o sistema a sustentá-lo. Veja-se, por exemplo, os meus trabalhos, não são dominantes no gosto do público. O que é dominante nesse gosto são os clichés.

É por isso que não tem editado discos novos desde 2004?
Não. Apenas aconteceu assim. Ultimamente tenho-me fartado de tentar explicar isso. A minha atitude foi sempre muito autobiográfica. A gente fala das coisas que nos estão a acontecer. E, nos últimos tempos não
tenho coisas de que falar.

E também se afastou dos concertos. Porquê?
Deixou de me apetecer cantar em palco. Comecei a sentir-me mal neste aspeto. Não é porque me falte a voz, ou a força, ou o reportório, mas comecei a sentir-me mal. O Mundo mudou tanto que eu não me senti bem a cantar as cantigas do costume. Pese embora elas agradarem ao público, de as pessoas gostarem imenso de as ouvir, de acenderem isqueiros, telemóveis, saberem as letras e cantarem-nas comigo. Tudo bem. Mas não é nesse estado que eu me revia. Comecei a sentir que estava a fazer carreira, a usar o lastro do passado para ganhar dinheiro em concertos. Não tinha nada para dizer às pessoas sobre este mundo diferente em que estamos agora. Portanto, costumo dizer que não parei de cantar, mas que suspendi as minha atuações ao vivo. Quando tiver alguma coisa para dizer, então direi.

Tem uma visão pessimista?
Não. É apenas pessimista no tempo da revolução ser amanhã. É pessimista no sentido de termos aqui um projeto para realizar e de que afinal não há projeto. Estamos confrontados com fenómenos muito novos,
muito diferentes. Fiz uma vez uma canção para a Cristina Branco que se chama "Bichinhos distraídos". É um olhar possível sobre a Humanidade. Vivemos numa espécie de entropia histórica, grandes massas de pessoas que se contentam com o que está, que não se questionam, que não se sentem responsáveis por coisa nenhuma. As duas coisas mais agressivas que há no Mundo não são as bombas atómicas, mas sim a mediocridade e a ignorância. Neste momento, o futuro é o passo seguinte, não é mais que isso. Isto não ter uma visão pessimista é ser realista.