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"As religiões são um instrumento para domesticar as mulheres"

"As religiões são um instrumento para domesticar as mulheres"

Deus, 'himself', é o protagonista do novo romance de Ana Bárbara Pedrosa, "Palavra do Senhor", uma releitura das mensagens bíblicas não isenta de ironia e mordacidade. Em entrevista ao "Jornal de Notícias", a autora, natural de Vizela, defende que a religião é um veículo "para que o poder se perpetue".

Uma das belas surpresas do ano que já vai a mais de meio, o romance "Palavra do Senhor" mostra-nos um Deus tão vingativo e cruel, moldado pelas ações dos seres que supostamente criou.

A ideia de colocar o criador a comentar o mundo e os homens surgiu pela vontade da autora de "Lisboa, chão sagrado" de inverter o conhecido dogma, segundo o qual os homens foram feitos à Sua imagem.

Fortemente crítica do papel desempenhado pela Igreja nas sociedades, a linguista e investigadora, de 31 anos, acredita que os líderes religiosos acicatam o fanatismo para unir as suas hostes.

Este é um romance que só podia ter sido escrito por uma ateia?

Não. Sendo um romance, não tem intenção de ser um documento religioso ou um ensaio. Aqui, quis contar uma história e (re)criar um olhar, não fazer do livro o meu reflexo. Aliás, a minha ideia de literatura é chegar ao outro e ser o outro, não reproduzir-me.

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Partir do princípio de que Deus existe foi o maior desafio ficcional para quem não acredita n'Ele?

Não. Da mesma forma que, ao escrever o "Lisboa, chão sagrado", tive de criar personagens como a Mariana ou a Dulcineia, aqui criei este Deus. A diferença foi que, no primeiro, tive de fazer a ação toda, e no "Palavra do Senhor" parti de uma história que já existia, criando o olhar novo e mexendo onde me conviesse para dar azo à narrativa a que me propunha.

Um Deus humanizado, mesmo que pratique ações desumanas, é sempre melhor do que um Deus que não dá sinal de si?

Nenhum deus pode dar sinal de si, porque nenhum deus existe. Assim, não é possível fazer essa hierarquia. Talvez o problema seja mesmo a prática de ações desumanas em nome de uma ideia - uma identidade divina - instrumentalizada para legitimar ações.

Se Deus existir, acredita que o estado de espírito dominante será em tudo semelhante ao que colocou no livro, ou seja, os humanos "leram tudo e entenderam tudo mal"?

Essa é a premissa do romance, mas acho que não faz sentido eu pôr-me na cabeça de delusões humanas fora do exercício literário. Aqui, a premissa interessou-me pelo potencial que tinha. As histórias da Bíblia são sobejamente conhecidas, os crentes encaram contradições e atropelam-se, os fanáticos tentam impor a sua interpretação de um livro antigo, já de si contraditório, e interessou-me sair desse debate religioso, que parte do pressuposto de que o cânone deve ser lei social e moral, para ir além, criando esta personagem que é o narrador do romance.

É curioso que, no livro, não são os Homens que foram feitos à imagem de Deus, mas é Ele que acaba por ser influenciado pelas suas ações, quase sempre malévolas. A perfeição é uma utopia, até para o Criador de todas as coisas?

Lá está, não me passa pela cabeça que exista um criador de todas as coisas. No romance, não havia sequer a ideia de perfeição, porque esta se torna incompatível com a condição da humanidade. Ou seja, ao partir da ideia de um criador - no exercício ficcional -, tive de justificar a existência da inveja, do medo, dos ciúmes, do assassinato, de forma a poder explorar a condição humana, saindo da parte da ficção científica - ou integrando a condição humana dentro dessa ficção científica. Depois, claro que me interessou inverter o dogma - pôr a personagem Deus a humanizar-se com os humanos, em vez de representar os humanos como feitos à imagem desse Deus. Aliás, esta última ideia não faz sequer sentido, na medida em que uma coisa corpórea não pode ser feita à imagem de um mito. De resto, essa humanização do mito, que, por motivos descritos no romance, fez da espécie humana a predilecta, é que permite o romance, dando o mote para o "Novíssimo Testamento" (segunda parte do romance).

Apesar de toda a manipulação que possa existir, crê que a religião desempenha um papel imprescindível na sociedade?

Não. A religião pode conceder momentos de breve consolo espiritual do ponto de vista individual. Permite, por exemplo, a facilidade de se julgar que a morte é uma etapa. De resto, a religião é dos maiores cancros que as sociedades humanas produziram. Parte sempre da fraqueza de não se poder entender o desconhecido e de não aceitar essa ignorância como uma falha que pode ser colmatada. Assim, põe-se o ónus do entendimento numa só entidade (ou em várias, nos casos das religiões politeístas), chutando-se para aí todas as explicações. E, em última instância, não procurando resposta para nada, num exercício de anti-ciência.
Para além disso, a religião justifica que dogmas se imponham não apenas ao livre arbítrio, mas também a noções mínimas de bom senso. Regra geral, as vítimas são sempre as mulheres, porque as religiões são também um instrumento de as domesticar. Exemplos: nos casamentos pela igreja em Portugal, a esposa jura obediência ao marido. Em El Salvador, meninas violadas por gangues abortam espontaneamente e são presas por não poderem provar que não provocaram o aborto. Na Arábia Saudita, as mulheres não podem entrar com uma ação legal em conta própria. Tanto no catolicismo como no islamismo, a adoração a um nada traduz-se na miséria de muita gente.

Já teve alguma reação dos meios mais conservadores à proposta ficcional que faz no livro?

Os meios mais conservadores só têm uma preocupação: conservar. Esse conservadorismo é incompatível com o propósito da literatura, que é questionar. Há quem fale de heresia. Para mim, heresia é não pôr o Renato Sanches a titular na selecção.

Concorda que, mais arrojada ainda do que a ideia de dar uma dimensão humana a Deus, é a sexualidade que cola à figura de Maria?

De maneira nenhuma. Maria foi uma mulher, as mulheres são seres sexuais. Não há arrojo nenhum nesta constatação. Insistir na virgindade de Maria - uma ficção que nasceu de um erro de tradução - é insultar todas as mulheres do mundo, negando-lhes o direito ao corpo, ao usufruto da sua sexualidade e à própria individualidade. Se se insiste na virgindade de Maria como uma qualidade, então todas as mulheres que não são virgens são impuras. É, mais uma vez, uma ideia machista que só serve para manipular e condenar mulheres. Em 2021, não nos cabe teorizar sobre a vida sexual de uma mulher que morreu há cerca de 2000 mil anos no Médio Oriente, mas uma coisa parece certa: engravidou e teve um filho. Depois desse, terá tido mais. Não havendo inseminação artificial ou fertilização in vitro na altura, não parecem restar muitas hipóteses. Parece, ainda assim, que é preciso dizer que Maria não foi um útero, mas uma pessoa com um.

Mergulhou intensamente em leituras para escrever o romance. Foram muitas as contradições que encontrou?


Sim, mas essas contradições não fizeram mossa no romance, porque não me interessava encontrar um fio condutor lógico na Bíblia ou uma verdade em que pudesse acreditar. Se fosse esse o intuito, estaria bem arranjada. Pelo contrário, eu tinha uma proposta de romance na cabeça, usei os elementos que pudessem servir para corporizar essa proposta.

É da opinião que, para os crentes, essas pretensas contradições pouco significam quando comparadas com a crença num ideal?

Sim. Se assim não fosse, não havia crentes.

Seria expectável que, com o avanço tecnológico e o progresso humano, a religião fosse perdendo seguidores e influência, o que tem acontecido apenas de forma muito marginal... Surpreende-a?

Depende do país. Em Portugal, por exemplo, a Igreja tem perdido poder, e ainda bem. A maior parte dos casamentos já acontece pelo civil e a Igreja perdeu grandes batalhas, fazendo com que o livre-arbítrio e o respeito ganhassem grandes batalhas, como o direito da mulher à interrupção voluntária da gravidez ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O divórcio, por exemplo, passou a ser possível pela demonstração de vontade de apenas um dos membros de um casal, terminando o jugo de tantas mulheres em contextos de violência doméstica.
Por outro lado, à luz do que temos hoje, as batalhas entre xiitas e sunitas parecem uma coisa digna de Guerra dos Tronos, mas a verdade é que George R. R. Martin apanhou como poucos o cinzentismo das pessoas e o quão macabras podem ser as relações de poder.
Ao mesmo tempo, o crescimento do evangelicalismo no Brasil também lança sinais de alerta, porque impõe conservadorismo e, mais do que isso, ódio.
Em Israel, um Estado que se quer etnicamente limpo também assenta a base numa religião e na ideia de que há um Povo Eleito, menosprezando os outros e literalmente declarando-lhes guerra.
Parece-me que, na maior parte das vezes, a religião é um instrumento para que o poder se perpetue e é fácil, no seu âmbito, acicatar o elemento de fanatismo dentro das pessoas.

Não encontramos muitos pontos de contacto entre "Palavra do Senhor" e o seu primeiro romance, "Lisboa Chão Sagrado". Não quer ater-se a um único estilo?

Não, de todo. Não me interessa nada repetir uma fórmula. Encaro a escrita como um instrumento para um efeito. Primeiro, penso no efeito. Depois, trabalho a estética para lá chegar. Da mesma forma que um futebolista não quer trabalhar só o pé esquerdo, porque o corpo importa todo, a escrita tem de ser um músculo para permitir um movimento, e deve estar sempre ao serviço de algo, em vez de ser um fim per se. Por isso, importa-me ampliar a capacidade estética ao mesmo tempo que amplio a capacidade narrativa. Quero treinar a mão, fazendo coisas diferentes, até porque é essa diferença que implica que cada novo exercício de escrita seja também um desafio intelectual para mim.

Há muito menos revelações literárias do que há uma dúzia de anos ou até menos. A literatura é cada vez menos a prioridade para quem tem menos de 35 anos?

É verdade, mas não sei precisar os motivos. Temos a geração que agora anda nos 40 e pico. Entre essa e dos menos de 35, muita coisa mudou, e acho que nunca se publicou tanto em Portugal como agora. Não falo de literatura, mas de publicações generalistas, que também apanham a concentração das editoras. Surgiram entretanto outros meios de comunicação, que são mais virados para o consumo do que para a análise, que podem ter roubado espaço à literatura. O mundo está mais rápido e a literatura é uma coisa muito lenta. É preciso ter tempo, espaço e apreço pelas perguntas, ao invés das respostas, para se ser consumido por ela.

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