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Céline Devaux: "A emigração portuguesa sofreu uma grande xenofobia"

Céline Devaux: "A emigração portuguesa sofreu uma grande xenofobia"

Na sua estreia nas longas-metragens, a cineasta francesa Céline Devaux fala ao JN sobre "Toda a gente gosta de Jeanne", filmado em Lisboa.

Coprodução entre França e os portugueses de O Som e a Fúria, "Toda a gente gosta de Jeanne" é a primeira longa-metragem de Céline Devaux, depois de várias curtas bastante bem recebidas. O filme passa-se em Lisboa, onde Jeanne, quase sem dinheiro, vem vender o apartamento da mãe, que faleceu. Mas, no aeroporto, encontra um antigo colega de escola... O filme estreou na Semana da Crítica de Cannes, tem Nuno Lopes como um dos principais atores e chega agora às nossas salas.

Como é que foi a passagem da curta para a longa-metragem?

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Na realidade tive sorte, porque é difícil passar de uma à outra. Mas vi-me rodeada de uma equipa de produtores muito experimentada e que mostrava ter confiança no que eu fazia. Deram-me um grande apoio, o que permitiu dar o salto de uma forma mais fácil.

Porquê Lisboa?

Fui muitas vezes a Lisboa. É uma cidade muito bela, mas sempre que lá estive, estava muito triste. Por razões pessoais. Quando lá estava pensei que era péssimo estar numa cidade tão bonita e estar deprimida. Se ao menos estivesse num local feio, pelo menos havia uma coerência entre o que via e o que sentia. Mas a provocação dessa natureza e dessa arquitetura sublimes era demais, dava-me vontade de voltar para casa.

Há então algo de autobiográfico ou pelo menos de muito pessoal, na personagem de Jeanne?

Sim, vem dessa minha experiência pessoal. E depois, indo a Lisboa todos os anos, vi a evolução da cidade, no que diz respeito a tudo o que passou e sofreu. Tive um ponto de vista exterior muito privilegiado, sobre um país com uma dívida colossal que não conseguia pagar. Descobri uma cidade que se meteu ao serviço de outros, negligenciando os seus próprios habitantes.

Foi esse olhar que lhe deu vontade de escrever esta história?

Não podia ter aquele olhar de apenas 48 horas, tirar umas fotografias e já está. Olha que bonita que é Lisboa. Era preciso pensar de uma forma política. Ter a consciência de que somos todos europeus, mas diferentes.

Do ponto de vista cinematográfico, Lisboa é uma cidade muito procurada, fala-se muito na sua luz muito especial...

Há algo de muito especial em Lisboa, a passagem de um tempo solarengo para uma total obscuridade, em muito pouco tempo. É algo que cria sempre uma grande inquietação. E estamos numa pequena ruela e ao fundo já estamos a ver o rio Tejo. É uma cidade que provoca muitas emoções.

Como é que foi gerindo essas emoções?

A minha grande preocupação era não trair Lisboa. Não queria fazer um filme de turista. Ou como os filmes que Woody Allen fez em várias cidades, mesmo que não tenha nada contra. Não queria chegar a Lisboa e fazer figura de cretina. Os meus produtores portugueses ajudaram-me muito. Havia já alguns locais que tinha descoberto, mas era muito importante alargar esses horizontes.

Como é que foi essa relação com os produtores portugueses?

Na realidade, trabalhei com dois produtores que me intimidavam bastante, porque admirava imenso as suas filmografias. Achava que com o catálogo deles não iriam querer fazer o meu filme. Cheguei de forma muito modesta, mas eles foram extremamente acolhedores e protetores do meu trabalho.

E com os atores e a equipa técnica portuguesa?

Há códigos de trabalho diferentes. As leis não são as mesmas. Os franceses têm uma atitude muito stressada que eu acho desagradável. As equipas portuguesas são muito mais relaxadas. Mas tinha de ter atenção em não chegar com um projeto estrangeiro, quando eram eles que estavam no seu país. Foi um processo de aprendizagem, de trabalho em conjunto de forma inteligente.

O que teve de fazer para se tornar também um pouco portuguesa?

Em primeiro lugar, não filmar Lisboa como um bilhete postal. Não tentar comparar as duas nacionalidades. Trabalhar em conjunto, ultrapassar o facto de que havia pessoas de duas nacionalidades diferentes. E, claro, beber muita cerveja, passar tempo nas esplanadas, ir dançar, viver Lisboa, essa cidade extraordinária.

Pensa que este filme vai contribuir para dar aos franceses uma outra imagem do que nós, portugueses, somos realmente?

Espero que sim, muito fortemente. A emigração portuguesa sofreu de uma grande xenofobia. São vistos como trabalhando apenas neste ou naquele ofício e pertencendo a uma classe social modesta. Os franceses são ótimos a criar lugares-comuns. São tão ignorantes ao ponto de não perceber que país é Portugal. Chegar a Portugal é confrontar-se com mil anos de História.

Neste momento há muitos franceses que se instalam em Portugal ou que compram apartamentos em Lisboa e em outras cidades...

Não sei quantas vezes ouvi franceses dizer que Portugal é um país barato e glorificar a vida que lá podem ter. Tenho vergonha dessa especulação sobre um outro território, que julgam extremamente folclórico e exótico. É uma vergonha.

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