Património

Desmantelamento de ruínas de mesquita gera polémica em Lisboa

Desmantelamento de ruínas de mesquita gera polémica em Lisboa

Achado arqueológico do séc. XII é único na Península Ibérica e está debaixo no Claustro da Sé de Lisboa.

A Direção-geral do Património Cultural (DGPC) está a ser acusada de mandar desmantelar parte das ruínas do complexo da mesquita principal da Lisboa muçulmana, património arqueológico do século XII, único na Península Ibérica, identificado a mais de 20 metros de profundidade no Claustro da Sé Patriarcal de Lisboa.

Essa parte das ruínas - que são "estruturas de extraordinário valor patrimonial, histórico e arqueológico", segundo o Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia (STARQ) - foram encontradas durante a segunda fase das obras de recuperação e valorização patrimonial da Sé lisboeta, que estão a decorrer há dois anos. A decisão está a gerar forte polémica entre os especialistas e arqueólogos.

Ao JN, a DGPC reconheceu que "foram produzidas diversas notas técnicas pela Direção Científica da intervenção arqueológica propondo a compatibilização da execução do projeto, bem como apontando medidas de minimização e salvaguarda" e que "já foram, no estritamente necessário, pontualmente desmontadas algumas estruturas arqueológicas". Nomeadamente, " um pequeno troço de parede à qual se encontra adoçado um banco construído em alvenaria de tijolo com dois pequenos arcos", que poderá associar-se a uma área de vestiário relacionado com os banhos da mesquita e uma área associada à base do minarete que terá existido naquele local."

A entidade salvaguarda ainda que "foi aplicado o princípio da conservação pelo registo científico" e que que se verificou que a preservação "in situ" de algumas das estruturas coloca "em risco a estabilidade estrutural de parte substancial da ala sul do claustro da sé patriarcal."

Mas a ação da DGPC está longe de ser consensual. Ontem, o STARQ, que reagiu após uma denúncia, afirmou que "se trata de um enorme atentado ao património cultural de Lisboa e de todo o país". Cláudia Costa, arqueóloga e investigadora da Universidade do Algarve, lançou ontem uma petição pública para sublinhar o caráter único dos vestígios e fazer chegar o caso à Assembleia da República. "Não estamos a falar de um muro de 20 cm que pedimos aos visitantes para imaginar. É um complexo de três pisos, com escadaria, hammam, minarete, arcos e bancos intactos, porque estavam aterrados", explicou, ao JN.

Jacinta Bugalhão, sindicalista e investigadora, disse também ao JN que "é um elemento patrimonial absolutamente único e singular, bem conservado, monumental e que tem todos os princípios legais para não ser desmantelado", diz.

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Um dos elementos da equipa de trabalho, que pediu anonimato, por medo de represálias, disse ao JN que a decisão "é um atentado ao património".

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