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"Em Cabo Verde rimo-nos de tudo. Até das desgraças"

"Em Cabo Verde rimo-nos de tudo. Até das desgraças"

Germano Almeida é o primeiro escritor caboverdiano homenageado no Escritaria, o festival literário de Penafiel que todos os anos celebra a obra de autores cimeiros da lusofonia. Até domingo, um pedaço de Cabo Verde vai brotar na secular localidade duriense.

"À espera de ser agradavelmente surpreendido", Germano Almeida vai estar ao longo desta semana em Penafiel para participar na 14ª edição do Escritaria, que lhe é dedicada. O longo e variado programa do evento inclui lançamentos, colóquios e sessões de cinema, mas também muitas atividades ao ar livre. Ou não fosse a rua um dos eixos do festival.

O que espera encontrar em Penafiel?
Não sei bem. Recebi o programa definitivo há pouco e estou com grande curiosidade, naturalmente. Quero ver as coisas acontecerem.

O Escritaria assenta muito na proximidade e no contacto com as pessoas. É um festival com a sua cara?
Fico contente que se tenham lembrado de mim. Não conheço Penafiel. O mais próximo que estive foi na Póvoa de Varzim, onde costumo ir com frequência participar nas Correntes D'Escritas. Mas pelo que li e ouvi parece-me uma ideia festiva.

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O lugar da literatura é na rua?
Acredito que sim. Embora escreva em casa, a ação dos meus livros e das minhas personagens desenrola-se quase sempre na rua. Claro que também existe uma literatura mais fechada, que se centra no interior e tem também o seu lugar.

Das iniciativas contempladas no programa, quais as que aguarda com maior ansiedade?
Destaco talvez a conversa de vida e o lançamento do meu novo livro. Mas espero ser agradavelmente surpreendido várias vezes ao longo da semana.

O humor que encontramos nos seus livros é um bom antídoto para enfrentar o estado pandémico do mundo?
É fundamental. A vida é séria, mas não devemos encará-la com excessiva seriedade. O povo caboverdiano ri de tudo, até das suas próprias desgraças. Como tento retratar a minha gente nas histórias que escrevo, é natural que o humor esteja representado.

Escreve quase sempre sobre Cabo Verde. Porquê?
É o espaço que conheço melhor. Mesmo em Cabo Verde, não escrevo sobre todas as ilhas, porque conheço umas melhor do que outras. Apesar de haver uma identidade nacional, Cabo Verde não tem uma cultura perfeitamente homogénea. Há uma especificidade geográfica que molda cada ilha.

Pondera escrever sobre realidades que não conhece em futuros livros?
Não escrevo mediante projetos. Sou um contador de histórias. Não são histórias inventadas, porque a sua base é quase sempre a realidade.

Como é que os políticos reagem à veia satírica dos seus livros?
Não sou político, mas a política diz-me respeito. Preocupo-me com o bem-estar da comunidade de que faço parte e tento estar sempre próximo da realidade. Ainda recentemente fui o mandatário nacional durante a campanha do atual Presidente da República de Cabo Verde.

Os últimos tempos têm sido pródigos em prémios e homenagens. Já se habituou a recebê-los?
Não quero ser presunçoso. Quando me dão um prémio ou me homenageiam, aceito. Mas não me fazem afetar ou embandeirar em arco.

Dois autores africanos venceram a edição deste ano dos prémios Camões e Nobel. A literatura africana começa finalmente a receber a atenção que merece?
Em Portugal conhecemos mal a literatura africana. Só conhecemos a literatura traduzida, que representa uma pequena parte do que existe. Nos últimos tempos tenho descoberto através de editoras brasileiras escritores nigerianos muito interessantes.

Há outros autores caboverdianos que os leitores portugueses deviam conhecer?
Sim, há vários. Infelizmente, essa promoção só se consegue com um esforço governamental muito forte, o que não existe. A Cultura é o parente pobre da política em Cabo Verde.

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