
Porto, 01/ 10/ 2020 - Entrevista a Manuel Jorge Marmelo. Jornalista. Escritor. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens )
Pedro Granadeiro / Global Imagens
Manuel Jorge Marmelo regressa à ficção com "Tropel", um soco nos dentes sobre o quão maus somos capazes de ser
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Na antecâmara de o mundo saber se os Estados Unidos continuarão entregues a Donald Trump, o homem que mandou construir muros, distribuir armas e que alardeia agarrar as mulheres pelo sexo e fazer com elas o que quiser, o mercado literário português assiste ao portentoso regresso de Manuel Jorge Marmelo à ficção, com uma obra que é um soco nos dentes para acordar quem ainda estiver a dormir.
"Se não quisermos olhar apenas para o nosso umbigo, percebemos que este livro está a acontecer aqui e agora", reconhece, ao JN, o escritor que cumpre 25 anos de carreira literária em 2021.
"Tropel" é viagem sem fôlego, "dura, seca e crua", sobre um Clube de Caçadores que se dedica a matar migrantes. "Não podemos permitir esta invasão de gente que vem para esgotar os nossos recursos e sobrecarregar a nação", acredita Atanas, um adolescente educado no desfalcado quadro de valores de um pai que espanca a mãe, e personagem principal de uma narrativa que suga o sangue - e o remanso dos distraídos.
"É um livro difícil", admite Marmelo, sem rejeitar que é também um manifesto. "Os meus últimos livros têm esse cariz. Refletem as questões que me preocupam, as desigualdades, as iniquidades, o sofrimento dos inocentes, o aproveitamento político e mediático dessas pessoas. E o ódio à diferença, que se extremou mas não começou ontem." O problema, acrescenta, "é que até os nazis cumpriram penas decididas por tribunais independentes. E hoje não há problema em ultrapassar a linha que separa a civilização da barbárie".
Catálogo de maus exemplos
Marmelo, "gajo do Porto" mas escritor sem território, que entra com "Tropel" no catálogo da Porto Editora, não publicava há quatro anos, e tinha assumido que nunca mais o faria.
"Nunca deixarei de escrever. Escrever completa-me." Trava-o a exposição que a publicação implica. "Nunca ganhei carapaça. Expor-me esgota-me fisicamente."
Acresce que o escritor sub-30 - o antigo jornalista do "Público" começou a escrever nos jornais em 1989, estreou-se na literatura em 1996, soma prémios desde 2014 - é muito diferente do autor ´pré-50 e a "bagagem" é um obstáculo. Já não é o homem que escreveu "O amor é para os parvos" e talvez o leitor não o tenha acompanhado no crescimento. "Escrevo hoje de uma forma que dói mais porque o mundo só piorou e o assunto é grave. A minha mundividência cidadã´é mais aguçada. Não consigo não ser pessimista."
Inspirado nas histórias que chegam da Bulgária (onde havia mesmo um grupo que prendia estrangeiros), da Dinamarca (que quis criar uma ilha para imigrantes clandestinos), da Hungria, cujo primeiro ministro é o bastião máximo da xenobofia, "Tropel" é um catálogo cruciante de maus exemplos.
Está lá tudo, chefes de Estado do estilo de Trump e Órban, mas também chefes de família e chefes de fracos aqui da soleira da porta. Naquele lugar que pode ser qualquer lugar, está a América, mas também a Europa, que nos últimos dados do Gallup lidera em todas as listas da intolerância. Estão lá os outros, mas também estamos nós e o quão maus somos capazes de ser. Quanto mais não seja, pela indiferença. "Numa sociedade totalitária, a voz das pessoas está constrangida. Numa democracia, a responsabilidade é individual." Tropel é um grito.
