A zombaria também pode ser sagrada

A zombaria também pode ser sagrada

"Zombo" é o título da nova ode à liberdade do inimitável poeta Alberto Pimenta, que aos 82 anos mantém intacto o seu pulsar criativo.

Radical, transformadora, mas sempre plena. Assim é a obra de Alberto Pimenta (AP), há mais de quatro décadas a agitar as consciências coletivas sem que isso signifique uma tentativa deliberada de intromissão na esfera do indivíduo, o único sagrado que reconhece.

Na poesia como na prosa, na teoria como no domínio da performance e do "happening", AP sempre foi um corpo estranho no meio literário português, pouco ou nada habituado a quem escarnece das convenções dominantes.

Essa dissonância pode ter-lhe custado a presença em antologias ou grandes estudos académicos - o ensaísta brasileiro Pádua Fernandes fala mesmo de um "poeta inexistente" -, mas apenas veio acirrar a independência de quem assistiu com uma mistura de espanto e desconforto à sua única obra ("Discurso do filho da puta", de 1977) que logrou chegar ao designado "grande público".

Aos 82 anos, Pimenta prossegue a sua demanda assente na liberdade. Fortemente prolífico, o autor de "Obra quase incompleta" não só mantém o ímpeto criativo como continua a furtar-se aos espartilhos.

Daqui resultam textos de fronteira em que AP subverte e aglutina géneros com manifesto deleite. É por esse prisma que deve ser lido "Zombo", três dezenas de longos poemas em prosa nos quais Alberto Pimenta parte do quotidiano para dialogar com os mestres desde tempos imemoriais.

No seu afã de tudo abarcar, tanto é capaz de citar Periandro de Corinto, filho de Cypsélos ("cala as tuas desgraças, para que os teus inimigos não rejubilem"), como Alberto do Porto, dito Mínimo ("estou-me cagando para isso"). Mas também encontramos engenhosas narrativas sobre os cactos ou réplicas das conversas de circunstância avessas ao pensamento, como no poema "Boa vizinhança", sátira à vacuidade da generalidade das relações do dia a dia.

A fluidez destes poemas é ininterrupta. O fio caudaloso de palavras faz-nos ir no seu encalço, por caminhos fugidios que mais parecem jornadas sensoriais em que assistimos, ora com deslumbramento ora com repulsa, às continuadas deformações da condição humana: "Eu, como de costume abaixo assinado (...), desconheço em absoluto que é que o ser humano anda a fazer na terra, além de nas ditas quadrilhas todas mais ou menos armadas lutar e enlutar os outros como a si mesmo".