"É um milagre que 'As mil e uma noites' tenham sobrevivido até hoje"

"É um milagre que 'As mil e uma noites' tenham sobrevivido até hoje"

Pela primeira vez, é possível ler uma edição em Portugal do célebre livro "As mil e uma noites" a partir de uma tradição do original em árabe. O JN falou com o tradutor, Hugo Maia.

Clássico da literatura de todos os tempos, "As mil e uma noites" podem ser finalmente lidas em Portugal através de uma tradução feita diretamente a partir do original árabe. As edições mais correntes da milenar obra resumiam-se na maioria dos casos a traduções do francês, que quase sempre exibiam "uma visão moralista e limpa" da obra.

O autor dessa gigantesca empreitada literária é Hugo Maia, um antropólogo de formação que se encantou pela língua e cultura árabes há uma década e meia.

Traduzir "As mil e uma noites" é um projeto de uma vida?

Penso que não, por duas razões. Em primeiro lugar, porque não existe espaço académico em Portugal para tal projeto. Portugal é precisamente um dos raros países europeus que não dispõe de um única licenciatura em filologia árabe, o que não deixa de ser curioso atendendo ao facto da proximidade geográfica, cultural, política e histórica com o Norte de África, onde o árabe é a língua mais falada ao lado do amazighe. Apesar de sermos vizinhos, fazemos questão em ignorar as suas línguas. Em segundo lugar, porque espero ter a oportunidade de realizar outras traduções, tanto de literatura árabe antiga como contemporânea. Tal como a primeira, esta continua muito desconhecida em Portugal, apesar de nos últimos anos, felizmente, terem começado a aparecer as primeiras traduções diretas do árabe, nomeadamente as traduções de Najibe Mahfud, feitas pelo Badr Hassanein, ou a tradução da Época de Migração para Norte do Tayyib Salih, pela Raquel Carapinha, livro este que a meu ver é um dos marcos da literatura árabe contemporânea. É também de salutar o crescente interesse dos editores do mundo árabe pela literatura lusófona, estou a pensar por exemplo nas recentes traduções para árabe feitas diretamente do português por Abdeljelil Larbi de autores tão diversos como Jorge Amado, André Oliveira, José Eduardo Agualusa, Afonso Cruz e José Saramago, sendo que a maioria das traduções em árabe deste autor, apesar de ter sido laureado pelo prémio Nobel, ainda continuam a ser feitas por via indireta através do espanhol.


Tem sido uma missão ainda mais desafiante do que tinha projetado? Quais as principais dificuldades com que se tem deparado?

Sem dúvida, muito mais desafiante do que alguma vez houvesse imaginado. São tantas as dificuldades, que é difícil resumi-las. A própria língua usada é muito particular e diferente das obras literárias geralmente escritas em árabe padrão. "As mil e uma noites" pertencem a um registo literário mais informal, e estão escritas na língua coloquial, ou mais exatamente no que chamamos de árabe médio, que é uma mistura entre a língua padrão e as línguas coloquiais árabes, neste caso sobretudo do árabe sírio e do egípcio, como era falado no século XIV. Essa antiguidade levanta logo dificuldades, porque os dicionários árabes clássicos só abrangem praticamente a língua padrão, usada na escrita, e que ninguém fala como língua mãe. A partir do século XV começam a aparecer algumas obras na Europa que incluem vocabulário das línguas coloquiais, como por exemplo o "Vocabulista arávigo en letra castellana", de Pedro de Alcalá, mas só a partir do século XIX aparecem dicionários árabes muito completos registando exaustivamente léxico coloquial, como por exemplo o Muhit al-Muhit do libanês Bustrus Albustani (1870), ou o dicionário bilingue árabe-francês "Supplément aux dictionnaires arabes" (1877-1881), de Reinhart Dozy. Em qualquer caso, não se pode aprender árabe limitando os nossos conhecimentos à língua escrita, é absolutamente necessário saber falar bem pelo menos uma língua coloquial, e ter uma excelente noção das várias línguas árabes e suas diferenças (e note-se que não estou a falar de dialetos mas sim de línguas), não só do léxico, mas sobretudo da morfologia e da sintaxe. Mas "As mil e uma noites" têm o condão de conter vocabulário único, que por vezes não aparece em outras obras da época (exceto em documentos privados), e que deixou de ser usado. A esse nível as maiores dificuldades incidem no nome de roupas e especialidades culinárias, que nem sempre é possível saber com rigor em que consistiam exatamente.
Outra das dificuldades consiste em reproduzir o tom extremamente oral e espontâneo da obra, e que na literatura portuguesa só tem paralelo com a literatura oral e a literatura de cordel, ambas dotadas de uma enorme riqueza ao nível lexical e sintático, tal como "As mil e uma noites". Para além disso, é necessário ainda reproduzir o tom mais antigo do texto, pois, tal como por exemplo, quando lemos a "Peregrinação" sentimos alguma estranheza com aquelas frases e palavras, o mesmo acontece quando lemos o texto árabe das "Noites", e por isso há também essa necessidade de causar a mesma estranheza ao leitor, mesmo que em menor dose para não tornar a sua leitura impossível ou aborrecida (visto que o original não é suposto ser aborrecido, pelo contrário). Tudo isto implica a construção de uma língua muito artificial, mas que tem que soar natural ao leitor. Eu procuro sempre transpor as frases o mais próximo ao original, isto é, sem as correções que geralmente os tradutores são tentados a fazer. Se a frase está mal construída e confusa, tem também de ficar assim no texto de chegada. Mas infelizmente nem sempre o posso fazer de forma total no que diz respeito à morfologia incorreta de alguns vocábulos. Dou um exemplo comparativo, se eu em português escrever «perca», que é um peixe, em vez da palavra considerada correta, que seria «perda», o leitor mais atento iria pensar que o tradutor (ou o revisor) não dominavam o português. No entanto, este tipo de «erros», derivados da forma como realmente falam muitas pessoas no dia a dia, não são raros no texto das "Noites", e não são erros de copista. Estes também abundam, mas não faria sentido serem transpostos para o texto de chegada (exceto se fosse uma edição com várias centenas de notas de rodapé, as quais impediriam o leitor de gozar realmente a leitura, por mais úteis que fossem). Por outro lado, é praticamente impossível transpor os mesmos erros morfológicos, e a única forma de fazê-lo soando natural seria compensar com erros noutras palavras, o que também não me parece uma abordagem muito sensata.
Eu costumo dizer que quem traduz literatura contemporânea árabe comparando com traduções já feitas noutras línguas, se calhar tem alguma falta de imaginação, de conhecimentos básicos, ou de confiança; mas quem traduz literatura antiga sem comparar com o que já foi feito, é no mínimo irresponsável. O problema é que só a partir dos anos 80 do século passado é que realmente começaram a aparecer boas traduções em várias línguas. Todas as que foram feitas antes, ou foram muito deturpadas ou baseadas em manuscritos forjados, ou as duas coisas ao mesmo tempo. As traduções orientalistas são o melhor exemplo do que não deve ser feito, mesmo que eu reconheça várias virtudes em algumas delas.

Qual era a sua relação anterior, enquanto leitor, com esta obra?

Era de um desconhecimento enorme. É que certo que havia lido por completo a versão de Galland há vinte anos, e que foi a primeira a ser traduzida na Europa (1704-1717). Hoje considero que deve ser a pior tradução existente das "Noites", extremamente moralizada e limpa, contendo histórias que nunca fizeram parte da obra, e onde orgias são convertidas em jantares românticos à luz das velas. Como todas as traduções orientalistas, pauta-se também por uma série de preconceitos e ideias feitas sobre as pessoas do Médio-Oriente. Em 2002 comprei a minha primeira edição em árabe, supostamente «original e completa», baseada na edição de Bulaq (1835), que é a edição mais difundida em árabe, e que inclui 1001 noites, e contem histórias como a de Aladino ou de Ali Babá, que sabemos hoje em dia serem traduções para árabe das versões francesas do Galland, pois esses contos nunca fizeram parte do espólio de nenhuma versão árabe das Noites, e hoje sabemos que elas foram fruto da criação de um sírio chamado Hanna Diab. Foi ele quem as inventou e as transmitiu ao Galland. Infelizmente todas as versões destas histórias feitas em cinema e teatro persistem em ignorar o nome do seu autor e em incluí-las injustificadamente no livro d'"As mil e uma noites".
Só em finais de 2014, quando o Hugo Xavier da E-Primatur me fez esta proposta de tradução, e que eu inicialmente estava para recusar, é que me debrucei a sério no estudo desta obra. Antes de começar a tradução propriamente dita, passei um ano a estudar a história do texto em si, como tinha aparecido e evoluído, e das várias versões e traduções. Foi aí que me apercebi que tudo o que eu sabia sobre esta obra estava errado. E que a maioria das traduções que circulavam eram baseadas em manuscritos forjados sobretudo na Europa durante os séculos XVIII e XIX. A única que se baseou num manuscrito autêntico, por sinal o mais antigo que se conhece (século XIV ou XV), foi a de Galland, mas este deturpou de tal forma o texto que ele se tornou irreconhecível comparativamente ao manuscrito que lhe serviu de base.
Relativamente às versões árabes impressas o cenário também não era muito melhor, pois todas as versões que circulavam até aos anos 1980 eram construções recentes e forjadas sob a influência orientalista. E foi só nessa década que surgiu a primeira versão em árabe baseada nos manuscritos mais antigos, feita pelo professor Muhsin Mahdi. Talvez por isso, é que só a partir dessa década surgiram as primeiras traduções realmente credíveis das Noites. Apesar do manuscrito mais antigo e autêntico que se conhece estar desde há muito disponível na Biblioteca nacional de França (e hoje em dia online com excelente resolução de imagem), nunca ninguém se havia lembrado de o traduzir. Ele está incompleto, como todos outros mais antigos, e inclui só 281 noites. Mas como explico no preâmbulo da minha tradução, "As mil e uma noites" muito possivelmente nunca contiveram 1001 noites, o número é simbólico, e todas as versões ditas «completas e originais» que circulam em árabe ou traduzidas são na realidade invenções do século XVIII e XIX, e não reproduzem muitas das características linguísticas e diegéticas que encontramos nos manuscritos mais antigos. Nem sequer a língua é a mesma, pois a maioria destas versões árabes estão redigidas na língua padrão e não na língua coloquial. Os conflitos sociais, políticos e ideológicos que encontramos nos manuscritos foram também diluídos. As emendas e correções feitas às histórias, seja das incoerências patentes nos manuscritos ou de aspetos linguísticos, ou afinações de ordem moral, só serviram para estragar o texto.

Quais as grandes vantagens que os leitores portugueses extraem do facto de, pela primeira vez, a tradução ser feita a partir do árabe?

É óbvio que um tradução feita diretamente da língua original, sem outras línguas intermediárias, tem todas as vantagens. A única exceção em que pode ser relevante traduzir de uma língua intermédia são alguns casos específicos e mais complexos, em que por vezes as traduções por terem sido feitas há muito tempo preservaram elementos que se terão perdido nas versões que chegaram aos dias de hoje redigidas nas línguas originais (veja-se, por exemplo, a preferência em traduzir a Bíblia do grego, como acontece na recente tradução de Frederico Lourenço, apesar da língua original em que foi redigida grande parte do Antigo Testamento ser o hebraico).
No caso específico das "Noites", era muito importante fazer uma tradução direta do árabe. Em primeiro lugar, as várias traduções de cariz orientalista, onde as portuguesas se baseiam, pautam-se pelo abuso de exageros ou de suavizações, e pela veiculação de ideias feitas e preconcebidas sobre o outro, havendo sido produzidas num contexto político onde o outro era visto como inferior ou decadente. Em segundo lugar, porque a maioria dos tradutores que fazem traduções indiretas, por melhores que sejam as suas metodologias e qualidades, a verdade é que não têm muitas vezes um conhecimento minimamente sólido do contexto cultural, social e literário onde as obras foram produzidas. E em terceiro lugar, esta tradução não se caracteriza só por ser feita diretamente da língua original, o árabe (e não o persa como reza a lenda, um mito que é desconstruído no preâmbulo da minha tradução), mas também pelo facto de ser a primeira em Portugal a ser feita com base no manuscritos mais antigos que se conhecem, e que são aqueles que mantiveram um elo muito mais forte e direto com uma suposta versão original que não chegou aos dias de hoje. Estes manuscritos são bem diferentes das versões e manuscritos forjados durante os séculos XVIII e XIX sob a influência orientalista, geralmente na Europa, mas também no Egito e na Índia Britânica. É por isso que eu costumo dizer que as Noites têm o condão de ser simultaneamente uma das obras mais conhecidas a nível mundial, e uma das mais desconhecidas. Não só muitas das suas histórias mais divulgadas nunca fizeram parte d'"As mil e uma noites", como na realidade o que geralmente lemos com esse título são produções literárias demasiado tardias, que acabaram por perder o nexo com os antigos manuscritos.

Este livro nunca foi benquisto pelas elites literárias, embora isso se tenha vindo a alterar. Em seu entender, porque é que "As mil e uma noites" são muito mais do que a literatura de cordel que muitos, em tempo, insistiram em ver?

Na Europa, nomeadamente desde os tempos do romantismo, e num contexto ideológico em que tal tarefa era útil para a construção da ideia de nação, houve alguma reabilitação da literatura oral e de cordel, patente por exemplo nas recolhas e antologias de Teófilo Braga, Adolfo Coelho ou Consiglieri Pedroso. A influência de um estilo «popular» passou por escritores diversos, como Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro ou mesmo Herberto Helder.
O género literário mais evidente nas "Noites" é o conto fantástico, mas em termos de contexto social em que foi produzido, tem todas as características tanto da literatura de cordel como da literatura oral ou popular, mesmo tendo em conta algumas diferenças de conteúdo, como por exemplo que nestes géneros literários a tonalidade moralista é mais frequente do que nas Noites, pois os contos destas, com raras exceções, foram concebidos mais para divertir os ouvintes através do elemento fantástico do que para instruir moralmente.
De um certo prisma, de facto "As mil e uma noites" são perfeitamente equiparáveis a literatura de cordel. Este género é que tem sido injustamente posto de parte ou considerado como mera curiosidade sem profundidade literária. Não é por acaso que são raríssimas as referências que os intelectuais árabes da época medieval fazem às "Noites", referências essas que categorizam esta obra como uma expressão literária de qualidade vulgar e inferior. Apesar desses intelectuais terem produzido várias obras em que fazem listagens exaustivas e resumos das produções literárias contemporâneas e anteriores à sua época, é evidente que as "Noites" são postas de parte, é literatura marginal. O uso de expressões mais brejeiras e o próprio estilo geral, muito oral e cheio de erros de morfologia e sintaxe do ponto de vista da língua dita «culta», quiçá também as várias conceções sociais, políticas e religiosas inerentes que chocavam com as várias ortodoxias vigentes, eram elementos que só podiam fazer das "Noites" uma obra incompatível com qualquer grande cânone literário, que não merecia ser lembrada para a posterioridade, visto ser o resultado de divertimentos superficiais da plebe. E continua a ser assim, não sendo por acaso que as versões correntes em árabe desta obra são na generalidade construções do século XIX onde a língua original foi traduzida para o árabe padrão, de forma a que a obra fosse mais «digna» do ponto de vista literário. Um erro, a meu ver.
Quem lê estes manuscritos, percebe perfeitamente que quem os redigiu e os copiou não tinha os mesmos conhecimentos linguísticos das elites, nem a mesma educação. As "Noites" foram produzidas num contexto onde as suas histórias eram contadas oralmente nos mercados e cafés, e passaram acidentalmente à escrita só porque os contadores profissionais de histórias tinham necessidade de terem manuais para treinarem. Estes contadores interrompiam as suas histórias a meio para que as pessoas regressassem no dia seguinte ao mesmo local e ouvissem a continuação. Para os cafés isto era uma excelente forma de manterem uma clientela fiel. Hoje em dia, penso que é a televisão que desempenha esse papel, e se já quase ninguém vai ao café ver a telenovela, continua a ser normal fazê-lo para os jogos de futebol, pelo convívio que tais momentos proporcionam.
Tendo em conta a marginalidade das "Noites" (e de muitas outras obras produzidas neste contexto, sendo raríssimas as que chegaram aos dias de hoje), é um milagre que hajam sobrevivido.

Como tem sido o seu método de trabalho? Impõe-se um mínimo de páginas diárias traduzidas?

Devido à complexidade da tradução desta obra, que exige que várias leituras paralelas tenham de ser feitas, tanto em árabe como em português, nomeadamente contos orais e literatura de cordel, sem contar com diversas monografias em árabe, inglês e francês, é raro conseguir atingir as metas de páginas diárias que me autoproponho fazer. Em termos de metodologia penso ser importante evitar certas tendências, patentes em muitas traduções desta obra, como por exemplo o exagero ou a suavização, a obliteração ou a expansão, a destruição dos ritmos e das rimas, a transposição do nível de língua usado para outro, a correção das incoerências narrativas, entre outras. O Antoine Berman, na sua obra "L'épreuve de l'étranger", aborda muito bem este meu género de preocupações metodológicas, descrevendo exaustivamente doze «tendências deformantes» correntes na tradução em geral. Obviamente, afasto-me completamente das chamadas «versões de autor».

Acha que parte dos estereótipos sobre o orientalismo vêm das traduções redutoras do livro que foram sendo publicadas?

Sem dúvida, na realidade "As mil e uma noites" foi precisamente o livro que mais contribuiu para a circulação de muitas ideias feitas sobre o Oriente, que por sua vez é um rótulo um tanto nebuloso que aglomera povos muitíssimo diferentes. Os vários tradutores de tradição orientalista usaram esta obra para incluir uma série de explicações, sob a forma de acrescentos diretos à própria tradução ou de notas de rodapé, sobre os usos e costumes do que chamavam «o oriental» ou «o árabe», entre outros rótulos aglutinantes. Faziam-no com o intuito de explicar aos leitores culturas que estes não conheciam, mas o resultado foi o oposto, contribuindo ainda mais para o desconhecimentos destas.
É curioso observar em várias traduções a inclusão de explicações que visam dar a conhecer ao leitor as características tidas por «naturais» dos «indígenas». Por exemplo, se um vizir grita com um criado, o tradutor aproveita logo para acrescentar no próprio texto que ele assim gritou porque era muito dado a berrar com os criados como é «natural entre os árabes». De maneira que um livro que originalmente espelhava de certa forma a insatisfação popular perante o despotismo, o abuso de poder, as injustiças sociais, e o açambarcamento de riquezas pelos mais poderosos, torna-se nas suas traduções orientalistas um manual etnográfico para transmitir uma imagem do outro como sendo por natureza despótico. Um livro que poderia ser visto como um exemplo literário de resistência popular torna-se quase um tratado de inferiorização do outro. O facto de vários tradutores portugueses, que traduziram sobretudo das versões de Galland e de Mardrus, obliterarem partes do texto, ou pelo contrário, incluírem os seus próprios acrescentos e exageros, contribuiu para um desconhecimento ainda maior desta obra em Portugal.
Tal como demonstrado por Edward Said em "Orientalism" (1979), o orientalismo não pode ser separado do contexto político em que se gerou, que é o colonialismo e o ideário por este proporcionado, em que o outro era visto como sendo «naturalmente» inferior, decadente e déspota. É também curioso observar que nas invasões coloniais do Norte de África e do Médio Oriente havia um objetivo civilizacional, de educar e mesmo de salvar esses povos. Era assim há mais tempo quando os cruzados se propunham a dilatar a fé para salvar os infiéis e a terra santa, e ainda é assim hoje em dia, quando os EUA justificam as suas invasões do Afeganistão e do Iraque supostamente com belos e pertinentes objetivos como a «democratização» ou a «libertação das mulheres». Mas será que as guerras salvam?

Num período, como este, de clivagem de culturas entre ocidente e oriente, acha que uma leitura de "As mil e uma noites" contribui para atenuar esse fosso?

A meu ver não se trata tanto de clivagem de culturas, sempre desconfiei das teses que reduzem tudo a uma análise cultural, estamos é perante conflitos económico políticos, e uma indústria de armamento gigantesca que se alimenta de guerras. No caso mais específico dos discursos xenófobos, há também um desconhecimento enorme sobre o outro por parte de quem os produz, mas isso não explica tudo.
No caso mais específico dos discursos xenófobos, há também um desconhecimento enorme sobre o outro por parte de quem os produz, mas isso não explica tudo.
Em qualquer caso, o uso d'"As mil e uma noites" como manual de etnografia é despropositado e pode produzir o efeito contrário de contribuir ainda mais para o desconhecimento do outro, independentemente da qualidade da tradução, basicamente por duas razões.
Em primeiro lugar, trata-se de uma obra que pertence ao género do conto fantástico, tal como por exemplo as obras de Poe ou Lovecraft. Usá-la para conhecer usos e costumes é tão arriscado quanto usar as obras destes autores para a mesma finalidade. Será que daqui a quinhentos anos os historiados irão pegar nas obras de Lovecraft para provar que os americanos de então acreditavam todos na existência de Cthulhu e do Necronomicon?
Em segundo lugar, mesmo que separemos o elemento fantástico do elemento realista, uma tarefa que nem sequer é possível sem a devida comparação exaustiva com outras fontes da época mais realistas, estaríamos a isolar características específicas da região da Síria e do Egito durante os inícios da época mameluca, digamos séculos XIII e XIV. Seria tão válido quanto pegar exclusivamente em Gil Vicente para conhecer os portugueses de hoje em dia.
Apesar de acreditar que a leitura de obras de diversas proveniências cronológicas e geográficas é extremamente útil para a formação de qualquer pessoa e pode de facto contribuir para atenuar fossos, pondo o leitor em contacto com realidades muito diferentes das que habitualmente conhece, isso por si só não basta. É preciso também saber ler de forma despreconceituosa. Se o leitor procura um manual de etnografia que corrobore todas as suas ideias já feitas, é bem possível que esta obra corra o risco de não atenuar qualquer fosso, ou mesmo de desiludir o leitor. Se não for esse o caso, é bem possível que o leitor fique enormemente espantado pela riquíssima imaginação e surpreendentes fantasias nela patentes. Talvez assim ganhe mais consideração por quem a concebeu, e consequentemente pelos descendentes dos povos que a produziram. Afinal, é precisamente pelo seu imaginário maravilhoso que estes contos se tornaram tão conhecidos universalmente.

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