Falar de livros na terra de Antero e Natália

Falar de livros na terra de Antero e Natália

A primeira edição do encontro "Arquipélago de Escritores" reuniu mais de três dezenas de criadores no final da semana passada em vários locais públicos de Ponta Delgada e da Ribeira Grande. Uma estreia que deixou bons augúrios.

Franz Kafka, George Orwell e Aldous Huxley - três dos autores que melhor conseguiram representar na literatura os riscos do totalitarismo - foram citados, mas a discussão em redor do tema "A multiplicação de distopias é uma forma de distopia?", inserida no encontro "Arquipélago de Escritores", que decorreu entre os dias 15 e 18 de novembro, acabou por centrar-se nos dias de hoje e nos desafios em curso.

No espaço Blackbox do centro de arte contemporânea Arquipélago, na Ribeira Grande, os participantes do debate inserido no encontro (João de Melo, Paula Sousa Lima, David Machado e Sandro William Junqueira) convergiram nos tons sombrios com que descreveram a atualidade.

Mesmo o único otimista assumido do grupo, David Machado, reconheceu que o Mundo em que vivemos se assemelha perigosamente aos cenários traçados há muitas décadas em obras como "1984",

"O Admirável Mundo Novo" ou "O Processo". "Donald Trump só existe como existe por causa da Internet. É por isso que ela me assusta um pouco: deixámos de ter controlo sobre o que se diz e como se diz", acusou.

O risco, segundo o autor de "Índice Médio da Felicidade", atinge também o plano literário, ao colocar em causa a imaginação, afinal, "o que nos distingue dos outros animais".

Ainda mais contundente foi João de Melo. O autor natural dos Açores confessou-se preocupado com a forma como os livros têm vindo a perder leitores, cada vez mais absorvidos pelos tablets e smartphones. "A Internet está a ameaçar a literatura", resumiu.

"Pessimista convicto", Sandro William Junqueira afirmou que, enquanto criador literário, está particularmente interessado em "explorar as contradições da nossa sociedade e testar as situações-limite, para mostrar o material de que somos feitos". "Parar para pensar" é, por isso, mais do que uma opção: é uma "verdadeira necessidade", dada "a velocidade do Mundo".

Já Paula Sousa Lima falou do "arrebanhamento" potenciado pelas redes sociais para concluir que "estamos a caminhar para algo nada bom".

No meio de tanto desencanto coube a outro pessimista assumido, João de Melo, trazer alguma luz, ao destacar "o fim do regime soviético e do Apartheid" como avanços da Humanidade. "Estive na guerra colonial e conheci o inferno. Por vezes parecemos meninos mimados a inventar distopias onde elas não existem", criticou o autor de "Gente Feliz com Lágrimas", romance cujo trigésimo aniversário foi assinalado no quarto e último dia do encontro açoriano.



Os consensos andaram salutarmente arredados do painel de debate com que abriu o encontro "Arquipélago de Escritores". No preenchido auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, a "obsessão da portugalidade", título de um livro recente de Onésimo Teotónio de Almeida, serviu de fio condutor para uma conversa em redor da identidade que deixou bem evidente o diferente grau de ligação ao tema por parte dos intervenientes.

O poeta e critico literário Pedro Mexia, por exemplo, confessou logo à partida a sua aversão pelo tópico, sublinhando não compreender "como um país tão homogéneo como Portugal pode ter problemas identitários". O mesmo distanciamento foi expresso pela escritora Isabel Rio Novo, para quem a questão da obsessão pela portugalidade não se coloca nos seus livros. "Para mim, o espaço não é fundamental. As ações e os dilemas das personagens é que o são, mas estes podiam existir em qualquer lugar". A autora de "O Rio do Esquecimento" reconheceu, todavia, que "a portugalidade pode ser um trampolim para a universalidade".

No plano oposto esteve Onésimo Teotónio de Almeida. A viver nos Estados Unidos da América desde 1972, o professor catedrático defendeu que "os portugueses só se apercebem da importância da identidade quando estão fora do pais". Ao longo desses 45 anos, o investigador diz ter-se apercebido de uma "mudança clara" no modo como os emigrantes se relacionam com o seu país, já que no início tinham "um grande problema em assumir a sua identidade".

Essa relutância também foi assinalada por Mexia, convicto de que os portugueses "não têm o patriotismo exacerbado dos norte-americanos". "A nossa relação é ciclotímica, feita de altos e baixos. Temos o síndroma de quem já foi grande e dividiu o mundo ao meio".

Ficcionista e clínico, João Pedro Porto atribuiu a referida obsessão "a um passado muito rico" e sustentou que a recorrência dessa discussão "define-nos imenso como povo".

Viagens literárias


Os debates não foram o único espaço de discussão neste encontro. Conduzidas de forma simples e informal, as entrevistas permitiram aos presentes conhecer melhor autores que ainda não são muito familiares da maioria dos leitores portugueses. Como Diana Marcum, a jornalista norte-americana que construiu com o arquipélago açoriano uma relação de amor sem fim à vista.

Ainda sem publicação prevista para Portugal (embora já esteja traduzido para coreano...), "A Décima Ilha" relata a sua experiência na região ao longo de um ano em que privou com a comunidade local e procurou apreender o seu modo de vida.

"Escrevi o livro para devolver um pouco de tudo aquilo que os Açores me proporcionaram", afirmou a jornalista do "Los Angeles Times", que travou conhecimento com a comunidade no início do milénio durante uma série de reportagens sobre trabalhadores ilegais no interior da Califórnia.

Apesar de o livro poder ser lido como um cartão de visita dos Açores, Diana Marcum disse esperar que as suas ilhas de eleição "não fiquem contaminadas com os efeitos do turismo". À parte "a beleza natural incrível", a vencedora do Prémio Pulitzer destaca "a energia vital" das ilhas, que a faz sentir "tremendamente criativa" sempre que se encontra na região.

Por lugares bem mais inóspitos esteve o escritor norte-americano Anthony Marra, cujo livro "O Czar do Amor e do Tecno" se desenrola entre São Petersburgo, Sibéria e Tchechénia para nos descrever um conjunto de personagens que tentam sobreviver num contexto de conflito permanente.

"É muito mais interessante para mim escrever sobre gente comum do dia a dia do que um manual histórico de centenas de paginas", confessou o autor de 34 anos durante uma conversa com Hugo Gonçalves.

O humor que atravessa o livro é a prova, segundo Marra, que "se pode ser simultaneamente profundo e divertido", explorando as potencialidades do absurdo que existem no quotidiano.

Dar voz aos locais

Berço de alguns dos mais significativos autores de língua portuguesa, de Antero de Quental a Vitorino Nemésio ou Natália Correia, os Açores só agora acolhem um encontro literário que se quer afirmar como uma referência. Para Nuno Costa Santos, o escritor que gizou este projeto, a "riquíssima tradição literária" local é um fator distintivo. "A maior parte dos eventos não tem uma ligação direta à terra de acolhimento. No nosso, os autores açorianos também são protagonistas", enfatiza.

A homenagem ao poeta local Emanuel Jorge Botelho, de 68 anos, é, para o curador, o exemplo do "sentido de compromisso" para com a comunidade em que está inserido. "Tenho a expectativa de quem semeia e está a tentar criar algo. O encontro é mais uma iniciativa", refere, apontando a revista literária "Grota" como outro exemplo da tentativa de manutenção da herança literária da região.

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