"O amor é uma canção que nunca acaba"

"O amor é uma canção que nunca acaba"

"Caderno de encargos sentimentais" é o mais recente livro de Inês Meneses. Uma nova incursão pela temática amorosa depois de "O amor é - Para memória futura", publicado em parceria com Júlio Machado Vaz.

A partir de "pensamentos somados e sentidos no Facebook", a radialista Inês Maria Meneses escreveu "Caderno de encargos sentimentais", um livro de espessura mínima (pouco mais de 60 páginas) onde cabem, todavia, os sentimentos mais profundos. "São observações sobre a minha vida com a dos outros", diz.

O livro chegou à quinta edição em pouco tempo. Como explica essa reação dos leitores?

Creio que os leitores se identificam com a minha visão do quotidiano. As pessoas dizem-me: "sempre senti isto mas nunca tinha conseguido por em palavras o que sentia." São observações sobre o pulsar da cidade, o dia-a-dia, a minha vida com a dos outros.

Que ecos dos leitores lhe têm chegado? Quer destacar algumas dessas reações?

As pessoas são sempre muito generosas. Alguém me escrevia há dias que tinha sido o livro mais bonito que já tinha lido. Lá está, a tal identificação. Há uma linguagem transversal e direta que vai ao encontro das pessoas. Depois há o Caderno como objetto: as pessoas gostam de o ter, de o abrir e folhear. Lembrei-me agora de uma senhora que tinha passado pelo Covid e o Caderno de Encargos Sentimentais foi o primeiro livro que o marido lhe foi comprar. E ela sentia-o como um bálsamo depois de tudo. Fico agradecida por essa generosidade.

Estes textos foram inicialmente publicados nas suas redes sociais. Até que ponto a sua publicação em livro modificou a opinião que tinha acerca deles?

Não modificou. Foram posts do Facebook que depois de somados e relidos continuaram a fazer sentido. Sou sempre eu em cada um deles. O tempo não os alterou e eu sou ainda a mesma.

Agrada-lhe a ideia de este livro não ser lido por ordem sequencial? Que critérios de ordenação dos textos é que adotou?


O livro, na sua edição de autor, foi pensado pelo estúdio da Lavandaria e aí se deu cor e ordem aos pensamentos. O aleatório dá-lhe sentido: abrir uma página ao calhas e perceber que podem ser as palavras de que precisávamos nesse dia. Deixemo-nos ser levados por uma brisa interior na escolha das páginas.

Até enquanto objeto, este é um livro muito apelativo. Participou no seu processo de conceção? Qual o conceito que procurou imprimir?

Queria um objeto bonito. Gosto de perseguir a beleza e gosto de ver nela um motor. Podem ser as árvores que me rodeiam ou um padrão e uma combinação de cores que me fascinam. O livro tinha de ter mais ou menos a minha imagem, os padrões de que gosto.
Acompanhei sempre o processo. Sabia que tinha de ser a vermelho e rosa. No estúdio da Lavandaria fizeram o resto. Somos amigas e cúmplices (Marta Teixeira e Mariana Fernandes da Lavandaria).
É, à partida, um objeto feminino mas que fica muito bem na mão de qualquer um.

As reflexões contidas no livro conseguem ser simultaneamente simples e profundas. Por que é vemos tão poucas vezes estes atributos serem colocados a par?

Temos uma relação muito engraçada com a literatura: pensamos que tem de ser complexa para nos validar. Eu acho que tem de ir direta ao coração das pessoas sem grandes fantasias ou universos por descodificar. Há dias um escritor conceituado perguntava-me se o livro era para um universo juvenil. Eu ri-me. Ele ainda não o tinha lido mas folheava-o e via nele as cores e as letras gordas e mais miúdas. É um livro transversal. A complexidade esconde-se nas palavras mais simples que resumem os sentimentos mais difíceis. Sinto-me muito segura com o que lá está escrito.

Este livro é a prova de que nem tudo o que se passa no Facebook fica no Facebook? Como vê essa resiliência de textos aparentemente efémeros?

Talvez a longevidade se inscreva na verdade do momento. Daquele momento em que se pensou e escreveu. Não procuro palavras vãs mesmo quando escrevo um mero post. Escrevo o que sinto e que acho que vale a pena partilhar. A fotografia da piscina não me chega: gosto de espreitar lá para dentro e relatar o que vejo.

Os encargos sentimentais estão cada vez mais pesados nestes tempos de pandemia ou são o que sempre foram?

Sempre foram pesados. Agora estão ainda mais difíceis de digerir. A vida está indigesta com a pandemia. Temos de dar a volta a tudo isto com coragem. Não podemos enfraquecer nem deixar que os outros à nossa volta percam força. É um momento decisivo de união.

Nestes tempos de distanciamento social, a aproximação pessoal faz mas sentido do que nunca?

Exato, a tal união. O abraço. O toque sem medo. A máscara não nos vai quebrar os laços, o amor. É muito importante que não nos verguemos perante a máscara. Ainda somos estes, ainda precisamos e precisaremos sempre do outro para sermos melhores.

Este é o segundo livro que publica (como autora e co-autora) no último par de anos sobre o amor e as relações sentimentais. Gosta de se ver no papel de conselheira sentimental?

Não, mas gosto de pensar um pouco sobre a forma como nos relacionamos. Não sou uma expert na matéria. Costumo dizer em tom de piada que vivi intensamente enquanto alguns liam. A vida faz-se de uma coisa e de outra, mas, muitas vezes, é preciso tirar o escudo e viver para depois contar. Ou pensar (sobre nós e os outros).

Tal como no livro que publicou há dois anos com o Júlio Machado Vaz, a música volta a ter uma componente importante no livro. Todo o amor precisa de uma banda sonora?

Sim, o amor é uma canção que nunca acaba. São muitas. A vida é uma banda sonora que construímos passo a passo. As canções são rostos, memórias. Uma jukebox de emoções. Não vivo sem música. Coleciono-a em mim.

O coração é o único instrumento que sabe tocar, como escreve no livro. Quão importante tem sido essa dimensão na sua vida profissional: reserva esse lado mais apaixonado para a vida pessoal ou simplesmente não consegue fazer isso?

O que sou profissionalmente transborda precisamente do coração. Sou emotiva, procuro a verdade do momento. Não consigo forjar sentimentos ou elogios. Tenho muita sorte por amar o que faço, por quase não dissociar a vida profissional da vida mais particular. Procuro ser sempre a mesma. E no Caderno está uma pequena parte da minha forma de sentir.

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