"O romance policial é um plágio da realidade"

"O romance policial é um plágio da realidade"

A descoberta macabra de um corpo pendurado na Ponte D. Luís é um dos pontos de partida do novo romance de Francisco José Viegas, "A luz de Pequim", que assinala o regresso do "seu" Jaime Ramos ao Porto.

Mesmo já tendo viajado por meio mundo, é com uma sensação de regresso a casa que Jaime Ramos volta ao Porto, afirma Francisco José Viegas a propósito da sua criação mais célebre. E apesar de sentir um crescente desconforto pela abertura da cidade a outras culturas, a ligação mantém-se viva, assegura o romancista


Este Porto dos turistas, dos 'hostels' e alojamentos locais, já não é bem a cidade de Jaime Ramos. O seu desencanto também passa por aí?

Quando passeia pela cidade, sim. Pelo centro. Bom, a verdade é que Jaime Ramos tem cerca de 60 anos, mais ou menos, e a cidade que conheceu, onde passou a sua juventude e idade adulta, mudou muito. Algumas coisas do Porto moderninho são ridículas, mas o turismo também veio salvar uma parte da cidade, não é? A recuperação da Baixa e de muitas zonas deprimidas deve-se ao turismo...


Apesar da ligação à sua cidade, ele viaja por muitos outros territórios. Diria que é um bairrista universal?

Quanto mais local, mais universal... Mesmo viajando, ele é sempre uma pessoa do Porto. Quer regressar ao Porto. Mesmo que vá só ao vale do Douro, ou a Viana, quer regressar. No livro há uma passagem em que ele diz isso: estou sempre a regressar ao Porto. É um maníaco da cidade. De Massarelos, da Sé, da Baixa, de São Lázaro, mas também de Leça, já agora, que tem as praias mais bonitas do mundo.

O capítulo ligado ao Porto podia perfeitamente ter sido escrito por um portuense, tal o grau de minúcia. A reconstituição fidedigna, mais do que um propósito, é para ti um dever?

É, bastante. Por vezes, a minha mulher, que é do Porto, corrige-me coisas. Embora a minha pronúncia portuense seja melhor do que a dela. Mas eu não só conheço bem o Porto, como é o meu território imaginário, o meu mapa sentimental. Mas para se ser assim é necessário muito rigor. Gosto de ser fiel aos lugares, à alma dos lugares. Um dos objetivos da ficção é o de usar personagens reais em situações fictícias e personagens fictícias em situações reais, mas a fidelidade aos lugares é ponto assente. Há leitores que me escrevem a corrigir um lugar, e há outros que me dizem que foram a determinado lugar por causa de uma passagem do livro. Há dois dos meus editores estrangeiros que vieram ao Porto para ver os lugares de Jaime Ramos... São nove livros e vinte e oito anos a falar do Porto...


Convoca a dada altura a figura do Germano Silva. Como surgiu essa ideia?

Porque o Germano é uma figura extraordinária, um homem por quem tenho uma grande admiração. Pela sua memória, pela sua generosidade. No livro, imagino o Jaime Ramos a passear na Rua das Flores com o Germano, depois a subirem até São Lázaro, passando pelas ruas da Baixa, e o Germano para mim é isso: um livro. Uma pessoa está com o Germano e apetece folheá-lo...

É durante a escrita dos romances policiais que a sua costela portuense se faz sentir?

Sim. Tenho de me imaginar na pele de Jaime Ramos, tenho de passear à volta da Rua do Barão de Nova Sintra, onde ele vive, passear onde ele passeia, imitá-lo, ir ao Bar Bonaparte na Foz, perder-me nas lojas da Baixa, ir às tabernas e restaurantes populares, beber um fino aqui e ali, e sobretudo observar. Escrever um romance exige uma grande dose de observação, ouvir as conversas dos outros. Às vezes digo "não me contem isso porque que vou pôr isso no livro". O romance policial, como eu o vejo, é uma constante operação de plágio da realidade. Um jogo. E, neste caso, obriga-me a ser portuense e a vestir a pele de um portuense.

Nos prós e os contras entre o Porto novo e o antigo para onde recai a preferência do autor?

O autor, pelo Porto novo. Porque a cidade tem melhorado muito, e muito substancialmente. O Jaime Ramos é que é mais cético, pertence ao velho Porto, aos velhos cheiros e lojas do Porto. Mas eu gosto cada vez mais do Porto. Os meus médicos são do Porto. O meu dentista. Os meus restaurantes preferidos. As minhas lojas. O meu clube de futebol...

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