Onde estão os novos ficcionistas portugueses?

Onde estão os novos ficcionistas portugueses?

Os escritores com menos de 35 anos são cada vez mais uma raridade no panorama literário português. A maturidade tardia e a má qualidade do ensino são algumas das razões que justificam o fenómeno. Estará a renovação literária em risco?

Judite Canha Fernandes e Rui Lage, os mais recentes vencedores do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, foram distinguidos, respetivamente, com a idade de 47 e 42 anos. Há poucas semanas, a Fundação Círculo de Leitores anunciou a intenção de aumentar a idade limite de participação dos atuais 35 para os 40 anos. O prémio literário da Associação Portuguesa de Escritores destinado a novos valores não é atribuído há mais de uma década.

Estes três factos, à primeira vista sem relação aparente, estão, afinal, intimamente ligados e traduzem uma realidade que tem vindo a inquietar o meio editorial: excetuando casos muito especiais, não têm surgido jovens escritores portugueses na área da ficção.

Depois de, na primeira década deste século, se terem afirmado nomes como os de Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto , Afonso Cruz, Filipa Martins ou Sandro William Junqueira, a década que agora termina tem sido muito mais modesta.

Se, até 2015, ainda se assinalou a estreia de Bruno Vieira Amaral, Afonso Reis Cabral, Pedro Vieira ou João Reis, nos anos mais recentes o panorama tem sido desolador no que concerne ao aparecimento de talentos com menos de 35 anos.

As principais revelações (Ana Margarida de Carvalho, Isabel Rio Novo ou Valério Romão) já ultrapassaram os 40 anos, o que reforça a crença da editora Maria do Rosário Pedreira de que "a idade da maturidade literária subiu muito". O prolongamento dos estudos até uma idade mais tardia é o principal motivo que encontra para explicar a tendência evidente.

"Geração do ecrã"

A atual editora da Leya - que ganhou o rótulo de caça-talentos por ter estado ligada ao aparecimento de autores que hoje marcam o panorama literário - destaca a "grande pobreza" dos textos que recebe de jovens autores, a maior parte dos quais "assemelham-se a simples guiões de filmes".

"Cada vez menos me chegam livros bons de pessoas novas. Recebo, sim, coisas muito más. Como dizem que os 60 anos são os novos 40, é possível que os 40 sejam os novos 20 ou 30", aponta.

Para explicar a atual crise de novos valores, não é despiciendo recordar a perda de leitores da ficção. Em Portugal e não só. Nos maiores países, a tendência repete-se. Na Alemanha, principal mercado europeu, os romances perderam seis milhões de leitores desde o início da década, números que têm gerado forte preocupação nos editores, incapazes de suster a perda contínua de leitores. Já nos Estados Unidos da América, a percentagem de leitores de ficção baixou 8% em cinco anos.

Para Maria do Rosário Pedreira, há um "culpado" óbvio. "A televisão de grande qualidade em 'streaming' tem retirado leitores à ficção literária. As grandes séries deram-lhes ficção sem o trabalho da leitura", concretiza.

A influência crescente do audiovisual é um dos fatores que, para o escritor e editor Francisco José Viegas, mais contribuiu para que chegássemos à presente situação. "A necessidade de ficção foi desviada para outros meios, como as séries de ficção ou a vida irreal da Internet", assinala o diretor editorial da Quetzal, que admite receber "menos qualidade" nas propostas dos jovens. Nos manuscritos a que tem acesso deteta "menos abertura aos outros, menos histórias sobre os outros, mais ensimesmamento, tendência um bocado irritante para a chamada 'auto-ficção', repetição de estereótipos, medo de arriscar, preguiça em ir procurar histórias, em investigar, em escrever bem..."

Na verdade, esta "geração do ecrã" de que fala o crítico literário e ensaísta Manuel Frias Martins pouco tem que ver com as anteriores. "Não lê livros e não sabe ler em profundidade. Com este condicionamento da prática da leitura, falta conhecimento para que apareçam bons romances", sintetiza.

A razia de novos valores não pode também ser dissociada da "desvalorização do ensino da literatura no contexto do ensino da língua materna", reforça Viegas. "As chamadas "novas gerações" foram educadas por gente que não gosta de literatura, mas de grandes frases, tópicos de autoajuda, emblemas sentimentais".

Um país "a falecer"

Com os seus 29 anos, Afonso Reis Cabral é, de longe, o nome mais referido quando se pedem exemplos de valores literários sub-35. Galardoado com o Prémio Leya aos 24 anos e agora contemplado com o Prémio Saramago, o autor de "Pão de açúcar" parece ser a exceção que confirma a regra.

"É o fruto de uma geração espontânea e não o resultado de uma política cultural global, como vemos em Espanha. Temos que estar preocupados. Quando uma literatura está num estado desfalecido como a nossa, isso significa que é a própria sociedade que está a desfragmentar-se. A falecer", critica Frias Martins.

Ainda segundo o ensaísta, as editoras não podem ser ilibadas, porque "arriscam menos na publicação" e preferem concentrar os esforços "em obras mais superficiais mas de êxito garantido".

João Reis, um dos raros autores jovens surgidos nos últimos anos, também é muito crítico em relação ao papel das editoras, que acusa de pouco fazerem pela promoção dos novos talentos. "É mais fácil vender um autor que já tem currículo no estrangeiro do que promover um jovem autor nacional", constata, observando ainda que os leitores também contribuem para a atual situação, pois "tendem a comprar ou ler apenas autores que já conhecem ou estejam referenciados". E mesmo que o livro de um novo autor chegue às mãos dos leitores, tal não é garantia de missão cumprida. Sobretudo quando o estilo tenta fugir ao simplismo e à linearidade. "Grande parte dos leitores e a maioria dos jovens, inclusive universitários, não entende a ironia ou sarcasmo", lamenta o autor de "A avó e a neve russa".

É também pelo lado dos leitores que Francisco José Viegas explica as dificuldades do mercado. "Os editores procuram novos autores, porque essa é a sua tarefa. O problema é que há menos leitores, o que parece não incomodar as pessoas responsáveis pelas chamadas 'políticas públicas' de leitura e educação, que continuam embevecidas a repetir um otimismo com mais de vinte anos... Ainda continuam a repetir aquela inanidade de 'o que é preciso é que as pessoas leiam...' Se não houver cuidado, preocupação e incentivo à leitura de qualidade nas escolas, contacto com os clássicos, com a qualidade literária, com os grandes autores, daqui a dez anos poderemos estar todos a publicar merda para gente de merda. Não me parece muito animador".

Se os futuros Saramagos (ele próprio um autor cuja produção plena foi muito tardia) só aparecerão mais do que aquilo a que nos habituámos, é uma questão que não preocupa Viegas. "Se calhar, aparecem depois, com mais maturidade, redescobrindo a elegância, a boa escrita. Quem sabe?" Entendimento diferente tem Frias Martins, para quem não convence o argumento de que os romancistas de amanhã estão demasiado preocupados a viver o presente para escreverem sobre ele. "Se se está à espera de acabar o mestrado ou doutoramento para escrever, é porque não existe verdadeira pulsão literária", critica.

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