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Falta acrescentar humanidade à Humanidade

Falta acrescentar humanidade à Humanidade

Verdadeiros apelo à ação, os ensaios do ativista brasileiro Ailton Krenak sobre o estado de emergência do planeta foram reunidos em "A vida não é útil", o seu primeiro livro a ser publicado em Portugal.

Parafraseando Sophia de Mello Breyner, já todos vimos, ouvimos e lemos - mas não podemos continuar a ignorar: a defesa ambiental deixou de ser uma mera causa para assumir-se como uma necessidade absoluta. De sobrevivência, antes de tudo o resto.

É precisamente essa certeza que sai ainda mais reforçada do breve ensaio "A vida não é útil", de Ailton Krenak.

Valha a verdade que nada do que este pensador brasileiro nos transmite é verdadeiramente novo. Lemo-lo, sob as mais variadas formas, ao longo dos anos e raras vezes lhe atribuindo a atenção que decerto merece.

Com duas importantes nuances, todavia. Nunca esses alertas pareceram tão verosímeis, agora que o mundo enfrenta a maior crise das últimas décadas, em grande parte provocada pela exploração absurda dos recursos e dos seres vivos. E também (ou sobretudo) porque Ailton Krenak não é (mais) um candidato a guru que empunha a bandeira do ambiente enquanto faz em privado exatamente o contrário do que professa em público.

Toda a vida de Ailton tem sido dedicada à defesa da sua tribo indígena, os Krenak, assim designada em homenagem ao nome do líder que a comandou no início do século XX. Mas não só. Por sua iniciativa, as comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazónia organizaram-se, criando a Aliança dos Povos da Floresta.

Não menos importante, é um porta voz não oficial dos que veem os seus direitos subtraídos em nome de uma ganância que parece conhecer cada vez menos limites.

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Nos cinco capítulos que fazem parte do livro, cada qual correspondendo a uma palestra ou intervenção pública, Krenak denuncia os atropelos ferozes à Natureza, cometidos em nome de uma conceção de desenvolvimento, no mínimo, discutível. Fá-lo, porque rejeita com vigor a visão utilitarista do planeta, antes considerando-o um ser vivo que, através do seu âmago (ou seja, os rios, as árvores, as plantas ou o mar), é capaz de rir, chorar, amar e até sangrar.

Por muito centrais que sejam os alertas no que diz e escreve, o essencial a reter no discurso deste filósofo e ativista é o seu apelo à ação. "Cada um de nós - não a economia, não o sistema todo - pode ter uma ação positiva neste caos e trabalhar, digamos assim, para uma auto-harmonização", escreve.

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