1923-2020

"Fernando Pessoa foi o guia de Eduardo Lourenço"

"Fernando Pessoa foi o guia de Eduardo Lourenço"

Um dia, Sophia escreveu a Eduardo Lourenço, agradecendo o que o ensaísta escrevera sobre a sua poesia. "Poesia de precoce e hoje de matura sabedoria." Ele não era poeta mas escrevia como se fosse.

O episódio é recordado ao JN pelo professor e ensaísta português Carlos Mendes de Sousa, que coordenou o Projeto da Edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Em concreto, organizou o volume sobre a releitura de "Tempo e Poesia", editado pela primeira vez em 1974, e que então teve discreta visibilidade. O volume original, com mais de 700 páginas, ultrapassa agora as 800. "O próprio Eduardo Lourenço entendeu que este livro não deveria ser desmembrado."

A obra contempla os textos originais, mas também textos dispersos, alguns inéditos, que estavam manuscritos, e ainda textos incompletos aos quais Eduardo Lourenço "deu um desfecho muito interessante".

A imersão nestes ensaios a partir da poesia, sendo a poesia uma "matriz essencial do pensamento" de Eduardo Lourenço, desde logo pela sua formação, "foi um privilégio" para Carlos Mendes de Sousa. "Não é comum trabalhar com um autor vivo sobre o seu arquivo", explica. "Sobretudo um autor que dá uma atenção muito particular ao outro."

Com exceção de "Pessoa Revisitado", que lhe "saiu de impulso, por necessidade" - "ele costumava dizer que "Pessoa Revisitado" é o seu romance" -, a obra ensaística do professor, filósofo e escritor "não foi programada de raiz, decorrendo predominantemente de solicitações".

Nesse percurso, a poesia será uma espécie de ilha. Desde Coimbra, onde foi professor assistente da Faculdade de Letras, manteve "um grande fascínio pelos poetas contemporâneos, neo-realistas, com intervenção social". Em particular, frisa Carlos Mendes de Sousa, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, "um encontro que vai acompanhá-lo sempre".

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"Pessoa é a chave, é o guia que ajuda Eduardo Lourenço a interpretar o mundo. Em Pessoa, ele encontra o poeta que vai, mais do que qualquer outro, ao encontro daquilo que são as suas inquietações, a ausência de Deus e de saída, a ironia, questões relacionadas com o pessimismo e a melancolia."

A poesia torna-se, assim, fundamental no pensamento de Eduardo Lourenço. "Há um encontro com o texto poético, que vem muito de dentro", diz. Isso mesmo enfatizou Sophia de Mello Breyner na carta que lhe endereçou.

Eduardo Lourenço escreveu que "Sophia encarnou essa vocação da simplicidade original recusada aos que se debruçam sem fim sobre o poço íntimo, onde se a verdade se esconde nunca volve à superfície senão envolta na túnica mortal de Narciso".

Sophia respondeu que Lourenço "escrevia de dentro da poesia, não lhe era exterior". De alguma forma, nota Carlos Mendes de Sousa, "Eduardo Lourenço sempre quis ser poeta. E de alguma forma, ele foi."

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