O Jogo ao Vivo

09.02.2019

Guimarães

E se Adolfo Luxúria Canibal anunciar o fim do mundo?

E se Adolfo Luxúria Canibal anunciar o fim do mundo?

Música, dança e narrativa são os três ingredientes perfeitos da peça "No fim era o frio", protagonizada pelos Mão Morta com a coreógrafa Inês Jacques, esta sexta-feira à noite em Guimarães. Na black box da fábrica ASA só cabiam 200 pessoas que tiveram o privilégio de testemunhar a enorme, inusitada e pouco terrestre estreia da banda de Braga numa peça de dança contemporânea para o Guidance.

"No fim Era o Frio" é um conto de esperança e medo, de luta e rendição, de amor e saudade, amor e terror, de realidade e ficção. São 70 minutos de um concerto inédito de Mão Morta, com cinco ou seis longos e monstruosos temas a mostrarem que o rock do grupo se agiganta a cada ano que passa. É uma performance de dança irrepreensível e linguagem altamente afinada que simboliza e descreve de forma sublime o conto que ouvimos do narrador e vocalista Adolfo Luxúria Canibal.

O sexteto de rock sujo mais famoso do país surge com trajes negros e capacetes com a cabeça de insetos gigantes, extraterrestres, com saliência notória para os cornos de vaca loura de Adolfo Luxúria Canibal e para o pedipalpo em forma de pinça da baixista Joana Longobardi. De um escorpião, talvez, mas pouco interessa, e já lá vamos à explicação do traje. Cada músico ocupa o seu espaço, alinhados, sem nunca saírem dali, com exceção de um movimento apenas em que o vocalista interage com os bailarinos.

O outro sexteto, o da coreógrafa Inês Jacques, veste licra metalizada e começa o primeiro módulo da peça deitado. Os seis bailarinos são um só ser, até quando se levantam. Aparentemente indivisível, como a estabilidade do planeta, logo se separam para acompanhar o dilúvio que assola a Terra no início da história.

"O Mundo não é mais um lugar seguro, o Mundo deixou de ser um lugar seguro quando os oceanos invadiram a terra com as suas ondas viscosas e empurraram toda a gente para o alto das montanhas", inicia Adolfo Luxúria Canibal, narrador, vocalista e poeta desta história.

Resumidamente conta a história de um personagem que vê a mulher amada ser levada pelo dilúvio antes de se conseguir esconder num bunker. Em solidão e sofrimento tem uma ânsia de salvação e apela a uma intervenção divina, ou extraterrestre, que ponha fim àquela amargura. Esse socorro aparece, só que sob a forma de uma civilização extraterrestre hostil composta por "insetos gigantes de tamanha e medonha cabeça". O que querem eles? "Resta-me sair, render-me, ser feito prisioneiro", relata o narrador, ao som de riffs pós-rock crús, carregados de distorção e alto tempo de reverberação.

Um parêntesis: entra aqui a explicação dos trajes extraterrestres os elementos de Mão Morta. No início achamos-lhe só piada sem os percebermos, mas logo vemos que são a semiótica dos vilões desta trama.

Ao longo da história, Inês Jacques e os cinco bailarinos que a acompanham dão azo a toda a técnica em que descrevem as amarguras do protagonista deste enredo. Sem padrão, como manda a lei, cada corpo une e divide à medida que o estado de espírito do público se imbui na narrativa. O mérito da coreógrafa está em hipnotizar-nos enquanto desejamos que a história se desenvolva. Damos por nós a querer mais, precisamos de saber o que se passa, o que é feito deste protagonista do bunker.

Ele, conta o narrador, inicia o quarto momento da peça a acordar dentro do bunker, e a primeira coisa que vê ao abrir os olhos é o rosto da mulher amada a observá-lo de perto. "Julguei que nunca mais a veria", diz, espantado e em êxtase. O que aconteceu? Era tudo um pesadelo? Uma armadilha? Uma obra-prima, constatamos, sem revelar o final de uma história que se repete no Teatro Avenida de Castelo Branco a 3 de maio, no Teatro Municipal da Guarda a 8 de junho e no Teatro Aveirense a 35 de junho.

O que se pode adiantar do que vem a seguir, na história, é que vemos Mão Morta igual a si próprio. Exageradamente descritivo ao ponto de nos criar uma imagem mental, belissimamente porco e pornográfico, apocalítico quanto baste e, quiçá, mortal. Afinal, depois da literatura e música, a banda bracarense abraçou a dança com Inês Jacques mas manteve o ADN que o trouxe ao Mundo e que sempre lhe conhecemos. Que nunca o percam, esperamos, certos de que há muito de Mão Morta nesta viagem intitulada "No fim era o frio".

Quem esteve ontem em Guimarães saiu de coração quente. Artisticamente quente de tão completo com tamanha obra de arte, ainda que ninguém saiba se aquilo era um concerto irrepreensível, um conto fantástico ou uma peça de dança exímia. É uma revelação, e isso é unânime.