
"A celebração da vida começa na desobediência aos mecanismos da morte"
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Na segunda e última parte da entrevista ao "Jornal de Notícias", o escritor Henrique Manuel Bento Fialho afirma conceber os seus livros como uma "hipótese da liberdade num mundo cheio de regras, normas e leis atrofiantes".
Autor de três livros publicados ao longo de pouco mais de um ano - "Na cama com Ofélia", "Levedura" e "Micróbios" - , Henrique Manuel Bento Fialho defende a insubmissão como um vetor fundamental do que escreve e aponta a crónica falta de leitores como o problema mais evidente da literatura portuguesa.
Dinamizador do Teatro da Rainha, acusa o meio cultural situado nas principais cidades de ignorarem tudo quanto se faz fora do meio a que pertencem.
Ao mesmo tempo que há uma recusa da aceitação das regras vigentes nos textos, também há muita celebração da vida. Ambas as dimensões caminham a par, para si?
Pergunta difícil. Não sei se percebo essa «recusa da aceitação das regras vigentes nos textos», nem como, sendo isso o que for, possa ser incompatível com a celebração da vida. Pergunto-me: poderá a vida ser celebrada sem recusar regras vigentes?
O que me encanta e desafia é a hipótese da liberdade num mundo cheio de regras, normas e leis atrofiantes. Direi que a celebração da vida caminha a par da insubmissão. É para mim muito estranho ver como os maiores energúmenos deste mundo continuam a granjear tantas simpatias. Porque é tão popular o discurso de ódio, seja em França ou no Brasil, na Itália ou nos EUA, na Rússia ou em Portugal? O que vai na cabeça dessas pessoas que fazem do ódio uma bandeira?
A celebração da vida começa, precisamente, na desobediência aos mecanismos da morte, do ódio, da destruição, começa por não embarcar na vozearia das multidões enlevadas pelo líder. Sejamos líderes de nós próprios, isso é suficiente. E acrescentemos a essa liderança a noção do passageiro, do efémero. Em breve deixaremos de respirar, pelo que não será má ideia respirar o mais que pudermos enquanto podemos. O desafio está num projeto coletivo em que a respiração de uns não leve ao sufoco dos outros.
Entre as regras que julgo inteligente recusar está, desde logo, uma regra cedo incutida nas nossas sociedades: a de que a fama e o êxito material são a única medida do sucesso. À partida, nascemos todos derrotados. A morte encarrega-se do assunto. Sucesso é vivermos a vida em liberdade, podendo tomar decisões pelas quais seremos, no limite, os únicos responsáveis.
Os paizinhos que colocam sobre os ombros dos filhos a cruz das suas próprias frustrações, esperando que eles os eximam dos pecados chegando a doutores e engenheiros, têm de perceber quão deformada é a face de tal logro. As expectativas geram muita insegurança e frustração. Talvez fosse preferível alimentar apenas a expectativa da autonomia, da emancipação, da independência.
Uma das traves-mestras da sua escrita é o humor. Por que razão este elemento continua tão subpresentado na nossa literatura?
Não sei se concordo com a noção de uma sub-representação do humor na nossa literatura. Os humores são variados e nem todos me cativam. Muita poesia portuguesa contemporânea é devedora de um tipo de humor que não me atrai minimamente, um humor que resulta em mera piada, coisa gira, engraçada. Mas há um outro tipo de humor, irónico, aqui e acolá cínico, por vezes satírico, que me interessa bastante e tem entre nós dignos representantes.
Passa-se que, geralmente, a crítica presta atenção redobrada ao trágico em detrimento do cómico. E isto até tem a sua graça. A ruína, as emoções obscuras, a crueldade e a violência, zonas da barbárie que a arte aflora, podem tornar-se altamente risíveis quando imersas numa depressão sem fundo ou numa fúria sem consequência ou numa raiva sem dentes. Consentâneo com a ideia que faço da vida, sou do tragicómico. É trágico e cómico que uma pessoa nasça para morrer, o que me obriga a valorizar a vida e, sobretudo, a não me atribuir especial relevância.
Encontro muito humor na nossa literatura, não encontro é muita gente a falar disso. A subvalorização do humor é problema antigo e algo paradoxal, tem na sua origem a percepção nítida do perigo que o humor constitui. O riso é satânico, dizia Baudelaire num excelente ensaio dedicado ao tema. A tragédia apela aos bons sentimentos, reforça valores na medida em que nos fragiliza diante dos acontecimentos retratados. A comédia inspira subversão, mete-nos a rir da lógica com que se tenta organizar o caos.
Verdadeiramente trágico hoje em dia é o discurso da literalidade, a incapacidade de destrinçar num enunciado a ironia e a sátira, o sarcasmo e o humor, o que leva a interpretações literais do que exigiria uma maior abertura ou disponibilidade para a metáfora. As redes sociais estão a matar a metáfora, li isto algures, há anos, suponho que numa entrevista ao Bret Easton Elllis. Concordo.
Falta um lugar para a insubmissão na literatura portuguesa actual?
Faltam leitores para a literatura portuguesa atual, o resto arranja-se.
Acreditando nas estatísticas, 61% dos portugueses não leram um único livro em 2021. Resta saber o que leram os restantes 39%. Leram o que bem entenderam, pois claro. Ou assim devia ser. Muitos terão lido por obrigação. Ora, como diz a canção do Jorge Palma, para haver amor não pode haver obrigação. Talvez não fosse má ideia começar por aqui.
Afirmei anteriormente que a celebração da vida caminha a par da insubmissão, repito-o agora para sublinhar que a insubmissão não carece de lugar, afirma-se por si mesma. Felizmente, há inúmeros editores empenhados em fazer diferente, em celebrar a vida caminhando a par da insubmissão, cada qual com o seu feitio e as suas ideias e a sua vontade de poder. O trabalho deles (chamam-lhes pequenos), num país como o nosso, é já um gesto de insubmissão considerável. Infelizmente dão-se geralmente muito mal, mais facilmente se engalfinham uns com os outros do que se organizam enquanto alternativa aos grupos monopolistas.
Ter trabalhado 11 anos numa livraria deu-me uma ideia da trapalhada que para aí vai. Os escaparates estão ocupados por quem paga, o livro foi transformado em produto meramente comercial, pelo que se o interesse do escritor for a literatura, não o dinheiro, não o sucesso de vendas, não a fama, não a vaidade, preferível será que faça o seu caminho sem andar minimamente preocupado com tais coisas. Insisto neste princípio de insubmissão, não ceder à chantagem do sucesso e resistir à tentação de fazer como os outros esperando ser acolhido. O desterro pode ser uma condição deveras apreciável. E, diga-se de passagem, tendo em conta a mesquinhice, a cagança e a sobranceria, preferível mesmo é certo distanciamento profilático.
É muito crítico em relação ao meio literário português. Quais as fraquezas que permanecem imunes à passagem dos anos?
Não diria que sou muito crítico, direi antes que sou indiferente. Isso a que chamam meio literário não me interessa de todo. Neste sentido, tenho até uma ótima relação com o meio. Ele não se interessa por mim, eu não me interesso por ele. Não faço parte de nenhuma associação ou clube de escritores. Prefiro outras companhias, não levem a mal, cada qual é para o que nasce.
Há aqui, no entanto, uma questão algo sensível. Muito honestamente, sinto grande dificuldade em ver-me como escritor. Agasta-me até a liturgia que fazem dessas coisas. Já lixei a entrevista, peço desculpa. Vivemos num período de fetichização da figura do escritor que me é repugnante.
Depois aquelas coisas com políticos à mistura, o ter de fazer sala, a fotografia. Gente com responsabilidades que não tem um pingo de vergonha na cara e faz da cultura epígrafe, citação ocasional, atirando criadores e técnicos para situações de indigência, deixando o país à mercê de voluntarismos sem o mínimo de articulação ou consistência, uma precariedade crónica e insultuosa, tudo isso é bastante repulsivo. Têm o Berardo que merecem.
Gosto de falar e conviver com outros escritores, claro. E tenho amigos que o são, embora não os considere meus amigos por serem escritores. Talvez nos tenha aproximado o interesse comum pela leitura e pela escrita. Agora meio literário português... O que é isso? Quem souber, que lhe denuncie as fraquezas e mostre as forças. Presumindo que tenha algumas.
A independência ainda se paga caro no meio?
A independência não é transaccionável, não se paga nem se compra. É um bem inestimável que se conquista e se preserva.
Não quero problematizar aqui o conceito de independência, pois na verdade é sabido que somos todos dependentes uns dos outros. Mas julgo perceber o contexto em que a questão foi colocada.
Senti pela primeira vez o valor da independência quando era estudante de filosofia. Fui um aluno faltoso, alguns colegas brincavam com isso, ficavam surpreendidos com as notas que eu conseguia. Eu preferia ler as obras, outros preferiam reproduzir os professores. Por regra, a segunda opção era mais valorizada. Acho que vem daí a desconfiança que tenho relativamente à academia, mas essa seria outra história.
Prefiro sublinhar que não há nada que me faça pensar na independência como um custo. É uma bênção. Digo eu que sou ateu.
É muito activo nas redes sociais. A transferência do domínio da conversa e do debate público para a esfera virtual não é assim tão negativa?
A notícia da minha actividade nas redes sociais é manifestamente exagerada.
Indo directo ao assunto: não há debate público na esfera virtual. Há exibicionismo. Debater é outra coisa, exige um tempo que não é compatível com o imediatismo das redes.
Conversar não se faz sem ouvir, é a capacidade de ouvir que legitima o dizer. Sempre foi assim. Nas redes ninguém ouve ninguém, é tudo tagarelice. Isto porque pouco se lê. Treslê-se mais. As pessoas deixam de ser pessoas nas redes, transforma-se em utilizadores. E os utilizadores são incapazes de ler textos longos, fundamentados, parando para reflecti-los. Preferem a arte da boca, da piadola, da charge cínica de pacotilha, assente em princípios de popularidade imediata que se nutre de deturpações. O like oferece-lhes a excitação de que carecem. É um entretenimento que tem a sua piada, até pelos perigos que acarreta. Mas é nulo como proveito mental.
As redes possibilitam e facilitam encontros, contactos, mas em matéria de debate público são um esgoto a céu aberto. O maior problema, lá está, é a incapacidade de destrinçar num texto o que nele há ou deixa de haver de irónico. Tal como acima referi. Num processo de comunicação presencial, as palavras vêm acompanhadas de gestos, expressões corporais, tons de voz, todo um conjunto de elementos de que a comunicação em linha prescinde falseando a mensagem.
De qualquer modo, deixe-me dizer-lhe que não tenho sequer computador pessoal. Adquiri um smartphone há 3 anos, a tal me vi obrigado por razões profissionais. Um dia serei livre.
Como escreveu num microconto, escrever livros de poesia é banal, ler livros de poesia é excepcional. É por isso que a poesia tem mais poetas do que leitores?
Neste momento suponho que os editores estejam em vias de chegar ao topo da tabela.
Não é de admirar a escassez de leitores de poesia, género que raramente se impôs pela sua extrema popularidade. Paradoxalmente, é um género com muitos praticantes.
Se bem me recordo, o primeiro livro de poesia que li era de um analfabeto. Quadras populares. O autor, porque era analfabeto, nunca tinha lido um livro, mas fazia quadras de memória e alguém as registou. É pois com naturalidade que constato serem mais os autores do que os leitores, ainda há muito analfabetismo neste meio.
A ideia de que é fácil escrever poesia torna-a bastante apetecível. Isto, aliado à vaidade de quem escreve e à avidez de quem publica, simplificando a edição em troca de pagamento, leva a que nos deparemos com uma profusão de livros para os quais dificilmente se encontrará leitores. Se os poetas se lessem a si mesmos já não era mau, podiam aperceber-se das inanidades que publicam desembolsando fortunas. Há sempre alguma esperança, ainda que o fascínio e o deslumbramento em causa própria sejam difíceis de superar.
Depois temos a net, partilhas diárias de poemas num enternecedor tom de auto-ajuda, moças em roupa interior a exibirem capas de livros no Instagram e fotografias de dísticos, quadras, não mais do que oitavas. Poemas longos não entram nesta contabilidade, geram fastio nos escaparates da Internet. Só não compreendo os autores que metem o símbolo de direitos autorais no final dos versos partilhados no Facebook. Temerão pelos seus versos?
É uma torrente maravilhosa de se ver e de se observar. Confesso, sem ponta de ironia, que aprecio imenso esta movida, muito mais democrática e livre do que a submissão do gosto à doutrinação académica e aos imperativos da crítica literária. Prefiro quase sempre o mau gosto das pessoas desprendidas e genuínas ao bom gosto de gente servil, presunçosa, calculista e assoberbada.
Quem é, afinal, Quitéria, figura tão presente em muitos dos seus textos e histórias?
Quitéria é personagem. Surgiu em 2006, na última parte do livro "Estórias Domésticas & Outros Problemas". Vem-me acompanhando desde então. As personagens são identidades próprias, nada há a dizer sobre elas para lá do que dizem sobre si mesmas. Esta não é de conversas.
Tem desenvolvido um trabalho muito intenso para o Teatro da Rainha, nas Caldas da Rainha. Há uma dinâmica cultural fora de Lisboa e do Porto que a grande maioria desconhece?
Mais do que uma pergunta, esta é a pergunta. Dava para escrever um ensaio.
O Teatro da Rainha foi fundado em 1985, são 37 anos de atividade. Eu só comecei a trabalhar proximamente com a companhia em 2018, na sequência de um convite para programar um ciclo de conversas dedicado à poesia. Terminamos agora o quinto ano de Diga 33 - Poesia no Teatro, por onde passaram entretanto cerca de 60 autores, editores, críticos, ensaístas, gente com atividade ligada à poesia. O trabalho que desempenho presentemente passa também pela comunicação, produção de textos, elaboração de programas de sala, conteúdos que espero possam acrescentar valor ao riquíssimo património artístico que ali vem sendo desenvolvido.
À questão final responderei com um desafio. Quantos textos críticos foram recentemente publicados na imprensa nacional sobre as produções do Teatro da Rainha? Dou-lhe um exemplo, a adaptação do "Discurso Sobre o Filho-da-Puta" de Alberto Pimenta, com encenação de Fernando Mora Ramos e composição musical de Miguel Azguime, que o poeta português teve oportunidade de ver e elogiar comovidamente. O espectáculo esteve no Festival de Almada em 2021, estimulando textos em italiano (Tommaso Chimenti) e galego (Afonso Becerra). Em português é que não há jornalismo que se sinta estimulado, preferem escrever sobre vinhos inacessíveis ao poder de compra do português comum. Como poderá assim alguém saber do que se passa fora de Lisboa e do Porto?
Digo-lhe mais. O Teatro da Rainha tem uma coleção de livros de teatro, publicados em parceria com a Companhia das Ilhas, que vai numa dúzia de títulos. São peças de autores clássicos e contemporâneos, a mais recente acabou de sair: "A Dança da Morte", de August Strindberg. Quem escreve sobre isto? Quem dedica um pouco de atenção a estas coisas? Até parece que andamos inundados em livros de teatro neste país.
Voltando ao tema do meio, a mediocridade também se topa nestes meandros. Com um país da dimensão do nosso devia constituir escândalo nacional a dificuldade que as companhias encontram em fazer circular o produto da sua criação. Uma peça feita com dinheiros públicos em Caldas da Rainha tem de ser vista em Lisboa, Porto, Faro, Coimbra, assim como as peças realizadas nessas cidades não deviam ser exclusivos de quem aí vive. A tal dinâmica cultural a que se refere na sua questão tem de ser nacional, não faz sentido de outra forma num território que se atravessa em meia dúzia de horas.
Parece também aqui haver um muro invisível, desses que só empatam e nada concebem de verdadeiramente enriquecedor. O Alberto Pimenta já falava disso no "Discurso", há muitos filhos-da-puta especializados em não deixar fazer.
