O Jogo ao Vivo

Melhores do ano

2018, o ano em que as artes deram uma lição maior ao Mundo

2018, o ano em que as artes deram uma lição maior ao Mundo

As escolhas JN e o balanço do ano nas artes e cultura

Não foi um ano fácil para o Mundo, este 2018 de que agora nos despedimos. Aos já crónicos problemas do terrorismo e da insegurança, somaram-se outros não menos inquietantes, a começar pela subida ao poder de líderes com tiques autocráticos ou belicistas e a acabar na crescente intolerância que parece varrer as nossas sociedades, facilmente demonstrável no surto de indignações que pulula diariamente nas redes sociais.

Ora, neste planeta repleto de muros, dos visíveis aos invisíveis, o que nos propuseram as artes (mais exatamente aquela que consideramos ter sido a mais profícua em 2018)? Não as respostas fáceis ou salvíficas, que encontramos no discurso dos líderes populistas tão em voga, mas, pelo contrário, uma série de cruzamentos improváveis que bem podem constituir uma lição para um Mundo que encontrou no fechamento um modo de responder aos problemas.

Tanto no cinema como nos livros, sem esquecermos a dança, música ou teatros, as propostas mais estimulantes foram as que fizeram da mescla a sua essência. Sem perderem identidade, incorporaram outras influências, gerando combinações sedutoras.

Sérgio Almeida

O ano foi delas e não há volta a dar

Antes delas, Frank Ocean: o ineludível príncipe r&b deu-nos o single "Moon river", de Mancini, cantado por Hepburn em 1961, fez disso um bálsamo crepuscular e fez dele próprio coisa inextinguível. Ainda antes delas, Chromatics: Johnny Jewel promete e adia há quatro anos (!) o sucessor do prodigioso "Kill for love" e ainda não foi este o ano da sublimação. E agora elas: na pirâmide de 2018, cume total feminino. Por ordem mais ou menos decrescente: Rosalía ("El mal querer", o novo r&b catalão é flamenco maximizado), Mitski ("Be the cowboy" é um furacão-bonsai indie-rock), US Girls ("In a poem unlimited" é a fúria política pop a dançar), Robyn ("Honey" é uma ode clubbing), Tierra Whack ("Whack world" tem 15 canções rap, dura 15 minutos e transvaza inovação), Georgia Anne Muldrow ("Overload" é afro-futurismo), Cardi B ("Invasion of privacy" é um farol de rap). O rock de que carecemos: Deafheaven ("Ordinary corrupt human love" dissolve black metal em dream pop), Iceage ("Beyondless" fará inveja a Nick Cave), Low ("Double negative" é um remoinho slowcore). A planar, imperiais: Yves Tumor ("Safe in the hands of love"), Earlsweatshirt ("Some rap songs") e A.A.L. ("2012-17").

José Miguel Gaspar

Nick Cave e a tragédia sublime

Há viagens de uma vida, mas nem sempre acontecem em destinos exóticos ou longínquos. Às vezes, basta descer a rua. Foi o caso do concerto de Nick Cave no último Primavera Sound - a memória há de ferver para sempre com o que se passou no Parque da Cidade, no Porto. E só fica esta dúvida: teria sido tão mítico sem a tempestade com que testemunhámos aquela sublimação da tragédia? Sem o desconforto que se foi evaporando à medida que compreendíamos que aquele artista foi capaz de transformar o mais terrível dos factos - a morte de um filho - numa celebração épica de beleza? Temos o resto da vida para pensar nisso.

Outra viagem de uma vida ocorreu há 13 anos, em Paredes de Coura, com o primeiro espetáculo dos Arcade Fire em Portugal. Regressaram este ano, e seria difícil repetirem a magia desse final de tarde - porque todos os dados se alteraram. Ainda assim, ofereceram sem dificuldade o melhor concerto do ano em Coura. Viagem de uma vida é também o contacto com figuras lendárias, mesmo quando não dizem olá nem adeus. Bob Dylan trouxe a Lisboa o cancioneiro clássico americano e deixou-nos olhar para ele - uma boa razão para terminar o ano em paz.

Ricardo Jorge Fonseca

A irreverência juvenil dos veteranos

A ditadura da novidade - e, por inerência, da juventude - que assola as artes contemporâneas faz com que o foco coletivo incida demasiadas vezes nos emergentes, remetendo por vezes os criadores já instalados para um patamar de obscuridade pouco compreensível. Nem de propósito, no ano que agora finda algumas das mais estimulantes propostas literárias nacionais vieram dos chamados consagrados, autores com uma obra já tão firmada que poderiam perfeitamente entregar-se a uma hábil gestão de carreira e expectativas.

Não foi - e ainda bem - o caso de um punhado de irreverentes veteranos que nos deleitaram com obras de um fôlego insuspeito. Com "Memórias secretas" - soberba revisitação de Corto Maltese, Madame Castafiore e Príncipe Valente - Mário Cláudio acrescentou um novo capítulo a uma fulgurante obra que só nos últimos anos produziu livros tão significativos como "Tiago Veiga, uma biografia" ou "Astrolábio". Já Pepetela fez do seu romance "Sua excelência, de corpo presente" uma anatomia do poder tão verosímil que nos remete para paisagens bem definidas.

Também Lídia Jorge revelou com o seu "Estuário" uma impressionante lucidez na análise que fez à sociedade de hoje.

Sérgio Almeida

Imitações da vida em todas as suas facetas

Houve muito bom cinema nas salas portuguesas em 2018, mas os portugueses continuam a ser o povo europeu que menos vai ao cinema: uma vez e meia em média por ano! Trágico. Sobretudo quando podiam ter visto a originalidade e crueza da abordagem da II Guerra Mundial de "O capitão", a beleza sublime de um amor que nasce tendo como pano de fundo a Guerra Fria em "Cold War", o requinte da alta-costura aplicada ao cinema de "Linha Fantasma", a tragédia de uma sociedade russa de "Loveless - Sem amor", a eterna busca da fé num cinema de ascese em "No coração da escuridão", a mais bela das homenagens à infância de "Roma", a perversão humana tratada ao bisturi de "O sacrifício de um cervo sagrado", a descoberta do outro lado do sucesso económico japonês de "Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões", ou o cruzamento do horror com o melhor dos clássicos nórdicos de "Thelma". 2018 foi também o ano em que houve quase sempre filmes portugueses em sala. Quantidade nem sempre significou qualidade, mas registe-se a dinâmica e a diversidade. "A Árvore", de André Gil Mata, "Cabaret Maxime", de Bruno de Almeida, e "Colo", de Teresa Villaverde, podiam fazer parte do Top 10.

João Antunes

"Otelo" e as memórias do TEP

No segundo assalto à obra de Shakespeare, depois de "Macbeth", Nuno Carinhas logrou o espetáculo mais significativo que passou pelo TNSJ em 2018, "Otelo". Cenografia, encenação e direção de atores a captarem as linhas mais subtis de um texto dominado pela figura a que Harold Bloom chamou o "demónio do Ocidente" - Iago, que contou com a interpretação também demoníaca de Dinarte Branco.

"Teoria das três idades", encenado por Sara Barros Leitão para o TEP, foi outro espetáculo do ano. Ao vasculhar no arquivo da companhia, a encenadora conseguiu habilmente, e através de memórias prosaicas, contar uma história de resiliência. O regresso de Nuno Cardoso à dramaturgia contemporânea com "Bella Figura", de Yasmina Reza, foi das melhores surpresas do último trimestre. Um dos exercícios teatrais mais estimulantes foi o desafio "White Rabbit/ Red Rabbit", da Mala Voadora, que convidou 12 artistas a enfrentarem em simultâneo o público e um texto que não conheciam. Destaque-se ainda "Ivone, Princesa de Borgonha", de António Pires, que recuperou o magnífico texto de Witold Gombrowicz, e "Teoria 5S", da Visões Úteis, que devolveu ao palco Jorge Paupério e Óscar Branco.

Ricardo Jorge Fonseca e Catarina Ferreira

Etnografia foi motor para alguns dos melhores espetáculos do ano

O Festival DDD (Dias da Dança) e o Guidance continuam a ser importantes motores da programação de dança em Portugal e é aí que podem encontrar-se os mais impactantes espetáculos de dança do ano. No DDD: "Pinacendá", de Farruquito, no Coliseu do Porto, e "Impro Sharana", de Shantala Shivalingappa, com Ferran Savall, no Teatro Nacional S. João, foram dois dos espetáculos do ano. Afastados dos cânones da dança contemporânea, têm uma riqueza étnica em que a sinergia entre a música ao vivo e o fator improvisação determinam uma componente vibrante. Ainda no DDD, "Um(unimal)", de Cristina Planas Leitão, foi dos mais impressionantes. ´

O Guidance trouxe dois portentos da dança contemporânea com linguagens distintas, mas com fortíssima componente cénica e interpretações irrepreensíveis: Wayne Mac Gregor, com "Autobiography" e "Vader", de Peeping Tom. À parte dos festivais, "Margem", de Victor Hugo Pontes foi dos espetáculos mais tocantes do ano. Outro das distinções é "Romances inciertos", de François Chaignaud e Nino Laisné, no Palácio da Bolsa. A melhor reposição do ano foi "Fica no Singelo" de Clara Andermatt.

Catarina Ferreira