"Do it"

Instruções globais para uma arte local

Instruções globais para uma arte local

Um vídeo que regista a colagem de Rosa Mota a uma parede, contrariando assim o seu ímpeto de movimento; um conjunto de objetos vermelhos alusivos às profissões de vários funcionários da Faculdade de Belas Artes do Porto (FBAUP); ou a artista Rute Rosas, filmada nua e suspensa de cabeça para baixo enquanto varre confetti, são algumas das obras que integram a mostra "Do it", patente no Pavilhão de Exposições da FBAUP, até sábado, das 14.30 horas às 18.30 horas.

O conceito de "Do it", exposição que circula internacionalmente há mais de duas décadas, nasceu em 1993, quando Hans Ulrich Obrist, curador suíço e atual diretor artístico da Serpentine Gallery, em Londres, tido como uma das figuras mais influentes do mundo da arte, se associou aos artistas Christian Boltanski e Bertrand Lavier para pensar um formato de exposição mais flexível e aberto, capaz de se expandir no tempo e no espaço, e que se desenvolvesse fora do circuito institucional.

A ideia traduziu-se no convite a 12 artistas para que enviassem instruções para a criação de um objeto artístico. Desde então, as instruções foram seguidas por criadores da Austrália, China, Alemanha, México ou Uruguai, dando origem a exposições com o selo "Do it" em cada um desses países. Realiza-se agora em Portugal, pela primeira vez, numa altura em que se contabilizam já 250 instruções de diferentes artistas. Na mostra da FBAUP foram seleccionadas 23, de nomes como Liam Gillick, Richard Hamilton, Michelangelo Pistoletto, Bruce Nauman ou Louise Bourgeois.

Com curadoria de Inês Moreira, investigadora e docente da FBAUP, a materialização portuense de "Do it" introduziu o conceito de "gravidade" nas obras produzidas a partir das instruções. Gravidade num sentido físico, como observado nas imagens já referidas da artista suspensa, ou na imobilização de Rosa Mota, mas também num sentido metafórico, aludindo à "gravitas" ou seriedade da academia, o que resultou em alguns gestos de ironia e também no convite aos funcionários da faculdade para que participassem na conceção dos objetos. A inclusão da comunidade alargada da FBAUP é aliás um dos princípios da exposição, que além de estudantes e funcionários mobilizou também 88 alunos, da 3.ª e 4.ª classe, da escola do Bonfim, que dão rosto à obra produzida a partir das instruções de Christian Boltanski.

De esquemas algo intrincados a peças saídas da simplicidade de instruções como "Reúne 90 quilos de rebuçados locais e coloca-os num canto", da autoria de Félix Gonzalez-Torres, o conceito de "Do it" serve também como "crítica à institucionalização do objeto artístico", nas palavras de Inês Moreira.

"Mais do que obras de arte, estamos perante a experiência de produção de um objeto, que não entra nas galerias nem nos museus, não é vendido e não perdura." Para celebrar a ideia de efemeridade será realizada com uma festa de destruição dos objetos no final da mostra.

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