Ativismo artístico

O grito dos artistas que lutam por quem não tem voz

O grito dos artistas que lutam por quem não tem voz

Tales Frey e Paulo da Mata conheceram-se no Brasil em 2006, um mês antes de começarem a morar juntos e embarcarem no universo do ativismo artístico. Dois anos depois, estavam a viver em Portugal.

Aquilo que parecia ser apenas um encontro amoroso de dois artistas apaixonados, era também um "grito" de libertação. A "Aliança" entre Tales Frey e Paulo Aureliano da Mata, a 15 de Março de 2013, foi selada com um contrato matrimonial que marca um "ritual de passagem" para um período de transformação no Brasil, quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo começava a ser reconhecido em algumas regiões. Assim como qualquer performance menos convencional, a polémica não podia faltar. Para alguns significava uma aprovação, para outros uma ameaça. Para o casal, não seria menos do que uma "parceria de arte e vida".

Hoje, as inúmeras obras desta dupla não são novidade na agenda cultural portuguesa. Serve de exemplo a exposição "Adorno Político" que teve a sua inauguração a 15 de Novembro no espaço Maus Hábitos, no Porto. Até dia 20 deste mês, são reunidas as vozes de 15 artistas brasileiros, "sendo corpos não contemplados num sistema hegemónico que reproduz padrões heteronormativos, condutas colonialistas, misóginas, machistas, etc.".

Inauguração

"É a primeira vez que assumimos uma exposição individual, separados", assim revelam sobre o projeto que inauguram esta sexta-feira no CAAA, em Guimarães. São duas salas mas "o diálogo entre uma exposição e outra é justamente a questão política".

Se em "Cinco táticas de ativação", Tales oferece uma possibilidade de "viver em harmonia com as diferenças" a partir de um "encontro entre as pessoas da audiência que ativam o trabalho", Paulo escolhe para "Tão só o fim do mundo" a peça de Jean-Luc Lagarce e o conceito de "grito", como "algo que precisa de ser emitido".

"Na última cena do livro, o personagem tem essa vontade de gritar mas ao longo da história é impedido pela família. Tem a ver com esse grito abafado" - explica o artista, com entusiasmo - "O encontro que Tales propõe é mais afetivo. No meu caso, penso que devia soltar um grande e belo grito, um grito longo e feliz que ressoasse no vale inteiro, que me devia oferecer essa felicidade, berrar de uma vez para sempre".

Promovem a reflexão através da arte

São os guerreiros da era moderna e lutam pelo respeito à diversidade. Com seriedade no olhar, Tales hesita mas defende, "hoje em dia, com o avanço de um fascismo evidente, a nossa arma principal é a arte e é promover a reflexão por meio dela. Essas são as reflexões que nós achamos urgentes. Não dá para fazer mais obras bonitinhas para colocar na parede da sala".

Paulo assente esta ideia e acrescenta, "espero que quem venha à exposição seja "contaminado". Pode ser uma pessoa mas já fico feliz. Ao menos, que a pessoa repense alguns assuntos que não estão no quotidiano dela. Porque, pelo menos no meu, no Porto, não vejo transexuais ou travestis, e em locais de trabalho não são acolhidos. Desejo, de verdade, que essas pessoas venham, vejam as obras e reflitam sobre a condição de que são pessoas também".

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