O Jogo ao Vivo

Concerto

Bob Dylan, diretamente para o álbum de memórias

Bob Dylan, diretamente para o álbum de memórias

Competente e inventivo, sem deixar de lado o mistério de sempre. Assim foi Bob Dylan no concerto desta segunda-feira à noite no Coliseu do Porto. Para mais tarde recordar (mesmo sem imagens).

Uma plateia de todas as idades aclamou ontem à noite Bob Dylan, no único concerto previsto para Portugal da atual digressão europeia do lendário músico. No regresso ao Coliseu do Porto, o palco onde há quase 26 anos se estreou a tocar no nosso país, Dylan protagonizou um concerto superlativo.

A vários níveis. Pela forma corajosa como recusou alicerçar o concerto em torno dos seus principais êxitos - e quão fácil teria sido fazê-lo, dado o seu recheadíssimo reportório -, mas sobretudo pela reinvenção permanente de que deu mostras, ao transformar de forma profunda temas que o imaginário particular conhece há gerações a fio. O exercício desconstrutivo foi particularmente bem sucedido no icónico "Like a rolling stone", que adquiriu nesta nova roupagem um lado mais "groove" e viciante, em que sobressaiu um enleante baixo que arrancou palmas gerais. Nem todos regressos aos clássicos foram tão bem sucedidos, é certo. "Blowin in the wind", tocado já no encore, soou muito distante da frescura inicial, débil até, quando comparada com o fulgor de "Thunder on the mountain", "Pay in blood" ou "Gotta serve somebody", só para falar nos temas mais convincentes do espetáculo.

Como que a premiar o público por ter cumprido praticamente à risca a proibição de captar imagens, o que nem sempre tem acontecido na atual digressão, Dylan mostrou-se um pouco mais solto do que o habitual. Não o suficiente para quebrar o seu crónico mutismo em palco, mas pelo menos para ensaiar uns hesitantes passos de dança com o seu peculiar andar já na reta final do espetáculo e até para despedir-se da plateia, ao cabo de duas horas, com um pouco comum beijo na sua direção.

Com um alinhamento em tudo semelhante às mais recentes apresentações da "Never ending tour" em Espanha, o concerto até se iniciou em combustão lenta. A voz mais grave e menos roufenha do improvável Nobel da Literatura fundiu-se na perfeição ao virtuosismo do quarteto de músicos que o acompanharam em palco.

O ponto de viragem aconteceu a meio com "Scarlett town", rara incursão pelas suas canções mais recentes que deu o mote para uma segunda hora de concerto em que o rock'n'roll, ainda que em diálogo intenso com os blues e a folk, ecoou com vigor pelo anfiteatro portuense para deleite de uma plateia rendida à competência sem mácula de Bob Dylan.

No final, não havia entre os presentes a euforia transbordante típica dos concertos para consumo imediato. Notava-se sim o ar de satisfação genuína de quem sabe ter testemunhado um momento, não tão frequente como isso, em que um mito para lá dos tempos mostra perante o público, o seu público, que continua a dominar como poucos a arte da criação musical.

O que dizer, portanto, em forma de balanço, das imagens deixadas por um concerto invulgarmente privado delas? Acima de tudo, que, aos 77 anos, o músico que ajudou a revolucionar a música popular das últimas seis décadas (!) se recusa a soçobrar perante a passagem do tempo. Ser-lhe-ia fácil limitar-se a gerir o inacreditável legal. Ao invés, optou corajosamente por remexer no seu baú de raridades - igualmente valioso - ou, de forma mais ousada, transformar de modo total os seus temas mais emblemáticos.

Ao vermos o modo sóbrio como se apresentou, somos tentados a reconhecer que há formas mais fáceis de conquistar as plateias. Como? Dando-lhes exatamente aquilo que elas querem. Seja através dos elogios untuosos ou dos alinhamentos de fácil digestão. E depois há quem siga uma via alternativa: menos imediata mas muito mais recompensadora.

Esse foi o maior trunfo do concerto de ontem à noite de Bob Dylan no Coliseu do Porto. A capacidade de conquistar o público sem ter sido preciso recorrer aos fogos fátuos ou malabarismos vazios. Em vez da exuberância, mostrou a competência, no lugar do óbvio mostrou-nos o improvável. Que mais podemos pedir?