Música

Tyler no céu com diamantes na primeira noite do Primavera Sound

Tyler no céu com diamantes na primeira noite do Primavera Sound

Rapper de Los Angeles protagonizou o espetáculo mais intenso da primeira noite do Nos Primavera Sound.

Apareceu em palco como um funcionário da EMEL de férias no Alentejo, de colete de sinalização amarelo e calções da mesma cor. Em fundo, um céu estrelado anunciava possibilidades infinitas. Tyler, the Creator, que atuou esta quinta-feira, no Nos Primavera Sound, tem uma legião de fãs que conhece de cor tudo o que canta. Mas os outros vão querer aprender depressa.

"I fucking hate you/But I love you", cantou o rapper nascido em Los Angeles, em 1991. E esses versos de "IFHY", do álbum "Wolf", são a perfeita síntese deste hip hop multidimensional. Porque Tyler tem doses idênticas de ternura e agressividade, complacência e indignação. Tanto puxa pelo tom cavernoso, como se dilui numa voz meiga que pede um beijo. Tanto se envolve numa fúria de graves, como parece emergir de um genérico de programa infantil. A sua música é feita de pausas, interrupções, mudanças de velocidade e registos. Viaja pelo som mais insidioso do hip hop e pela amabilidade da soul. Pisca o olho à disco e ao R&B. E reclama a energia do rock´n´roll.

O fundador dos Odd Future encheu o palco sozinho, desafiando e amando o seu público, que o viu enquadrado por desertos, prados da Toscânia e um céu estrelado com possibilidades infinitas.

Lorde a conjurar espíritos

"Agrada-me este clima louco, porque podemos conjurar espíritos", disse a neozelandesa Lorde, num dos concertos mais aguardados da primeira noite do Primavera Sound. A abrir o espetáculo, a palavra "Sober" projetada contra o fundo do palco, seis bailarinos em intensa coreografia e a jovem de Auckland num fato prateado a cantar "limellight, lose my mind". Modulações de voz a acompanhar a instabilidade do tempo e um caldo de pop sofisticada marcaram a atuação.

A eucaristia de Father John Misty

Outro dos picos da noite foi a cerimónia oferecida por Father John Misty, alter ego de Josh Tillman que encheu o Palco Seat com canções exuberantes e reflexivas, um paradoxo ao alcance de poucos. Apesar de acompanhado por um contingente de músicos, o "reverendo" esteve sempre em destaque, com a sua barba abundante e os óculos de lente vermelha. Abriu o espetáculo aludindo a "campos de concentração", com "Nancy from now on", do seu álbum de estreia, "Fear fun", percorrendo depois as faixas do último "God"s favorite customer".

Um clube gigante

Jamie XX fez algo de semelhante ao que Nicolas Jaar fizera o ano passado: transformou o Palco Nos num gigantesco clube de música eletrónica, debitando faixas de "UK garage" a partir da sua cabina de DJ. Uma opção que parece algo questionável para um espaço que pede algo mais orgânico e humanizado. Por exemplo, a maravilhosa "dream pop" da sua banda de origem, os The XX, que atuaram no mesmo local na edição de 2012.