Cultura

valter hugo mãe comoveu plateia com texto escrito no iPhone

valter hugo mãe comoveu plateia com texto escrito no iPhone

Há uns dias, o escritor valter hugo mãe (em minúsculas por opção do próprio) emocionou uma plateia de 2000 pessoas, na Flip (Festa Literária Internacional de Parity), no Brasil, com um relato acerca dos primeiros brasileiros que conheceu. Escreveu o texto no iPhone. Saiu-lhe de uma vez só. Veja o vídeo.

A estatueta de Saramago está numa espécie de altar em casa de valter hugo mãe. O escritor de "A máquina de fazer espanhóis" afaga-lhe a careca de vez em quando. Comprou-a para ter o "Oscar", pois o prémio José Saramago 2007 que ganhou prescinde de estatueta. O autor de "O filho de mil homens" (nas bancas em Setembro), e vocalista da banda Governo, que faz parte do cartaz do Festival de Paredes de Coura, sempre foi um rapaz totó. Deixou de o ser no Porto.

Como revê o momento em que a plateia se comoveu diante das suas palavras? Lembro-me com uma certa fantasia. Com graça e estupefacção.

Sentiu-se uma estrela de cinema em Cannes? Não sei se estrela de cinema, se um extraterrestre. Foi uma atenção desmesurada, uma epifania.

O povo brasileiro tem tendência a receber de forma calorosa... Tive o privilégio de receber uma manifestação eventualmente só ali possível. Na Europa nunca aconteceria. Poderá amar-se assim, mas não se consegue fisicamente manifestar-se isso.

Os portugueses são contidos.Tem inveja dessa característica brasileira? Sou um bocado tímido. Mas sou pouco incontido quando vejo alguém de quem gosto. Nessa altura nem é uma questão de controlar a timidez, é uma questão de não me controlar. Preciso que as pessoas entendam a importância que têm para mim. Tendemos a racionalizar o que não é de todo racional. Os sentimentos têm de ter um grau de espontaneidade que interessa não perder. Sou muito espontâneo.

Tem um forte lado infantil? Um lado infantil e perigoso. Se vejo um escritor de que gosto muito dificilmente fico calado, a não ser que ele esteja tão rodeado de gente protectora que sinta que não sou bem vindo. Se achar que pode perder 10 segundos comigo, agarro-o e peço-o em casamento.

Afinal, tem uma costela brasileira? Não fico só no lugar de quem é pedido em casamento, também peço.

Já pediu? Já pedi, mas ninguém aceitou.

Em jeito de piada? Já fiz pedidos de casamento à Adriana Calcanhoto e ao António Lobo Antunes, quando ele apresentou o meu livro. Disse-lhe que era capaz de viver com ele.

E ele? Nem me respondeu. Ficou quieto. Não sei se corado. Na verdade era um elogio, uma forma que eu encontrei para ele ter a percepção da importância do seu trabalho. A ideia de pedir alguém em casamento tem a ver com essa manifestação incondicional de afecto.

Li algures que tinha uma estatueta de Saramago... Não sou só eu, a minha família toda tem...

Há quem tenha um Santo António e quem tenha o Saramago... Também tenho um Santo António, mas não sou crente. Adoro artesanato figurado. O Saramago foi por causa do prémio. O prémio não tem estatueta e o que aconteceu é que numa loja no Porto encontrei estatuetas, uma série limitada. Foram caras, mas achei que devia ter o Oscar em casa. Ele está numa espécie de altar e todos o acarinham. E como é carequinha como eu, passamos-lhe a mão e fazemos-lhe festinhas para ver se dá sorte. Estou convencido de que dá.

O texto que emocionou a plateia no Brasil, onde foi escrito, foi inspirado lá, levou-o de cá? Surgiu lá, depois da sessão de abertura, dia 6. Nesse dia, ouvi o António Cândido a falar (professor de 80 e tal anos, muito prestigiado) e ele fez uma prestação que adorei, e tinha os seus papéis. Estavam 900 pessoas sentadas e mais 1100 assistiam noutra tenda, via vídeo. Eu, enfim, não tinha entrado em pânico, mas pensei que precisava de me sentir seguro. Escrevi-o no iPhone.

E porquê as irmãs (crianças que chegaram à sua terra)? Podia ter falado de brasileiros que conheço. Aliás, quando li, pensei que podia ter falado do meu amigo Alberto Magno. Mas comecei por ali, pelos primeiros brasileiros que conheci. Acabei por escrever o texto no telemóvel, no bloco de notas, ainda o tenho aqui (e mostra-o).

Melhorou-o depois, editou-o? Não, ficou assim, nem o corrigi. (E mostra uma gralha que ainda lá está).

Vamos ter também um filme sobre a sua presença no Flip. O meu editor português tem andado a filmar tudo. Não só o que eu digo, mas também o que as pessoas me dizem. Propõem-me coisas estranhíssimas.

Além dos pedidos de casamento? Não são só coisas estapafúrdias, há outras mais impactantes. Nas "Correntes de escrita", houve uma senhora em cadeira de rodas que me veio perguntar se tinha coragem de a meter no carro. Depois, percebi que ela precisa de ser retirada de determinada maneira, pois o seu corpo tem uma deformação grande e eu precisava de a segurar com força. E ela dizia: "Tem de me dar o abraço mais seguro de toda a sua vida". Se tiver medo, vai deixar-me cair e magoar-me.

E fê-lo? Sim, não me deu aflição nenhuma abraçá-la. Vim a saber depois que ela é professora de dança, de biodança. E agora vou assistir a uma aula. Mas desde pessoas que me vêm dizer que têm cancro e que leram a "Máquina de fazer espanhóis".

Apetece-lhe transformá-las em personagens do seus livros? Apetece-me entrevistá-las, ser amigo delas, poder acompanhá-las. Um ucraniano veio falar comigo por causa do "Apocalipse dos trabalhadores", veio dizer-me que tinha adorado o livro e que eu tinha respeitado a desgraça que aconteceu aos ucranianos.

"Nenhum ser humano difere tanto de nós que não o possamos entender"

Como captou aquele universo? Eu acho sinceramente que nós temos as respostas para todas as preocupações das pessoas. Somos seres humanos. E nenhum ser humano difere de nós tanto que não o possamos entender. Intensificando as questões nós encontramos as respostas cá dentro. E através disso colocamo-nos no lugar dos outros. Acredito que esta espécie de inteligência emocional nos permite chegar ao lugar do outro. Eu parti para aquele livro, a partir de um episódio passado num café, em que alguém disse: " Detesto esses gajos, detesto ucranianos e detesto brasileiros". Foi tudo tão liminar e aquilo agrediu-me. E lembro-me de na altura pensar: "deves chegar ao fim do dia muito cansada por odiar tantos milhões de pessoas". E achei que aquela questão me interessava, ainda por cima somos um país de fazer estrangeiros lá fora. Depois, tive uma conversa com um rapaz de 14 e uma conversa menor com um rapaz de 18. E foram os ucranianos que conheci melhor. Só depois de ter publicado o livro é que os ucranianos se aproximaram. Um, em Lisboa ofereceu-me um colar da sorte. E eu fiz-lhe uma pergunta que era muito importante para mim: "Se o meu livro respeitava o povo dele?" e ele disse-me que sim. Ele emocionou-se e eu também.

Por falar em livros, o próximo chama-se "O filho de mil homens". É assim? Sim, é.

Está escrito? Está acabado e vai sair em Setembro. Vai entrar em impressão nos próximos dias. Estamos a terminar a capa.

É uma obra com muitas personagens, com poucas, mais focado? Tem muitas personagens. Acabo sempre por criar uma boa vizinhança.

É autobiográfico? Não é. Mas parte de uma premissa que coincide comigo. Não tive filhos e quero ter filhos. E vou fazer 40 anos e o Crisóstomo, a personagem principal, vai fazer 40 anos. E o Crisóstomo anda muito angustiado. Eu não posso dizer que ando assim tão angustiado. No Brasil, devem ter achado isso. Mas é uma coisa que começo a perceber agora. A falta dos filhos atinge-me.

É uma falta sentida recentemente? Surgiu há coisa de dois, três anos. Antes adorava as criancinhas nos colos dos papás, mas achava que não tinha condições de organização para cuidar de alguém, que me ia esquecer dele. Subitamente, parece-me que não é assim, que não me ia esquecer de lhe dar de comer.

Percebe que se fosse uma mulher a dizer isso, teria outra carga social? Pois, mas eu condenei-me a isto. Eu é que escolhi este nome de valter hugo mãe, eu sou Lemos e escolhi ser mãe. Um dia pensei: vou ser mãe, mas era uma coisa retórica. Depois vieram os meus sobrinhos. O mais velho tem 21 anos, já namora, qualquer dia aparece-me ele com um filho. E eu fico tio avô. Tenho sete sobrinhos, além de outros à minha volta, e agora percebo que gostar de um não me impede de gostar de outro.

Gosta de brincar com eles? Brinco, brinco. Tenho um que também é meu afilhado, o Dudu, o Eduardo, que fica em minha casa às segundas-feiras. É a criança mais bem comportada à face da terra.

Está a falar a sério? Sim. Tem quatro anos e consegue ter conversas sérias comigo. Temos conversas sobre os temas mais diversos. Pergunto-lhe de tudo, se ele sabe como as coisas são feitas. Eu ando escrever um livro sobre as coisas que ele me diz. A minha irmã deu-lhe um relógio e ele estava felicíssimo. Não sabe ver as horas. Disse-me que serve para ver quando as mães chegam. Eu gosto de lhe fazer perguntas complicadas para ver como ele se desenrasca.

Como por exemplo? Sobre o Sol: de que é que é feito o Sol? E ele diz: é feito de invisível. Se não olhares, o Sol existe, se olhares não consegues olhar e deixa de existir. Não se pode olhar, é invisível.

Em relação ao Crisóstomo, que temas fracturantes lhe serão associados? Já falou da velhice, dos imigrantes... Este livro será sobre ... a criação espontânea de uma família, podendo a família ser criada dentro de pessoas que passam a ter um sentimento de pertença que não é óbvio. A questão dos afectos, nas suas diversas perspectivas. O Crisóstomo que encontra a Isaura, a Isaura que está comprometida com outro homem que se comprometeu com ela por outro interesse. A Matilde que criou um filho com o qual tem um desgosto. É uma espécie de trânsito de pessoas que subitamente se descobrem sozinhas mas que ao longo do livro se familiarizam.

"Acuso-me muito na poesia. Achei que ninguém lia"

O Crisóstomo é o poeta? É uma personagem muito benigna. É a mais bonita do livro. As outras são todas dotadas de defeitos. É um pescador muito sonhador, muito utópico, nesse aspecto coincide um bocado comigo. É a única personagem que eu coloquei um bocadinho incapaz do defeito. Os meus livros têm todos que ver com gostar de alguém que erra. Ele gosta de alguém que erra. Ele é um pouco cândido. Talvez a personagem mais ingénua e também a mais capaz de chegar à felicidade.

E a poesia? Há quem diga que se consegue ver muito do valter na poesia... Eu acuso-me muito na poesia, falo muito, ponho muita coisa, não devia pôr tanta coisa, sim. Mas como eu sempre achei que a poesia ninguém lia...chega perto, não chega?

Chega, chega. Esse é o problema, não devia chegar. Devia pôr ali uns filtros. Eu publiquei muito antes dos romances e eu achava que a poesia não tinha leitores. Os livros vendiam mil exemplares.

No Facebook já encontrei versos seus... Sim, no Facebook passam, sim. É uma coisa que acontece cada vez mais a partir dos meus romances, ou seja, há muito mais gente a ler agora a poesia por causa dos meus romances. E dizem-me que devia escrever mais poesia, dizem que tenho jeito. A poesia é menos visível e há aquela sensação de que se pode escrever o que nos apetecer que ninguém se interessa. Até porque o leitor de poesia já leu tanta coisa tão escabrosa e confessional, que já nem se preocupa.

Sente-se um bocadinho desnudado? Sim, mas não tenho nenhum problema com isso, não me sinto nenhuma aberração com isso. Por escrever, por exemplo, o super homem que escrevi, acerca de quando a minha mãe fez uma operação, de poder ter cancro, do medo que eu tive. E o quanto aquilo me magoou. Ou as vezes em que eu pensei que mais valia morrer do que viver sem amor, pois viver sem amor é uma treta.

Sempre teve essa facilidade de verbalização? Ou foi algo que foi adquirindo? Não, não, quando era miúdo era muito tímido e não contava nada a ninguém. Tinha vergonha de tudo. Se tivesse as meias brancas, tinha vergonha de ter as meias brancas, se tivesse as meias pretas, tinha vergonha de ter as meias pretas. Quando alguma pessoa olhava para mim duas vezes, alguma coisa se passava...

"Sempre tive fascínio por gente esquisita"

Quando é que se deu clique? Acho que foi depois de ter feito o curso no Porto, e de ter começado a frequentar a cidade. O Porto começou a ser uma verdadeira cidade para mim, eu ia de Vila do Conde para o Porto e passava os dias lá. Sempre tive fascínio por gente esquisita, que não parece gente. Adoro pessoas extravagantes. Pessoas que sejam genuínas ao ponto de exteriorizarem coisas estranhas. Fiquei sempre fascinado por isso. Em Vila do conde... bem, não é que em Vila do Conde não existam algumas pessoas esquisitas. É uma cidade pacata, com gente mais ou menos padronizada, com famílias tradicionais. No Porto encontrei uns punks, de cabelo vermelho e opções estranhas, a acreditarem em coisas bizarras. E eu pensei: Caramba, eu à beira desta gente sou quase um menino de coro, não assusto ninguém.

Um totó? Sim, autenticamente. Não faz sentido ter vergonha de usar meias pretas ao pé de alguém que tem uma crista de galo e uns furos nas orelhas e no nariz. Foi muito importante ter essa percepção.

Acerca da banda, Governo, o que se planeia? Vamos ao palco jazz de Paredes de Coura. No último dia do festival, vamos tocar. Já temos uma relação de amizade com Paredes de Coura e eles convidaram-nos. Para mim, vai ser um bocado assustador, mas já estou por tudo, a mim já me aconteceu de tudo na vida.

Depois de Paraty, não é Paredes de Coura que o vai amedrontar. Sim, já não me assusta. No fim de Agosto, estaremos a terminar o álbum que à partida será lançado em Janeiro. Ainda não sei o título. Terá 11, 12 temas.

É uma dimensão importante da sua vida? É. Com algum medo e muita lata. A música sempre foi muito importante para mim. Estou sempre muito atento às novas coisas. Sou muito viciado em muitas latitudes musicais: da erudita ao jazz, gosto muito de jazz, ao rock indie, metal. Não há nada que eu deixe de fora.

Ouve música quando escreve? Para começar, sim. Depois entro no livro e já não me lembro de quem sou. Para o arranque ponho uma coisa instrumental, não pode ter voz, senão eu canto em cima. Decoro ou invento. Normalmente, ouço sempre a mesma coisa, se calhar tenho de mudar... Ouço sempre duas peças de Bach...

Para acabar, que relação vai tendo com o Facebook? Tenho Facebook e Twitter e vou com frequência ver, vou consultando no telefone. Vou no comboio e vou vendo. E respondo na medida do possível, nem sempre consigo responder de imediato, demoro algum tempo, mas nunca deixo de responder. Sobretudo os brasileiros são engraçados. Eles nunca contam da resposta e eu como tenho respondido, tenho as reacções mais engraçadas.

Cresceram muito os seus amigos nas últimas semanas no Facebook? Recebi mais dois mil pedidos de amizade. No Twitter tenho mais gente a seguir-me do Brasil. Mas também decidi começar a perceber o Twitter antes de ir para Paraty. Eu achava aquilo muito chato, não percebia.