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Jon Fosse e a estranheza que se entranha

Jon Fosse e a estranheza que se entranha

"Trilogia", o aclamado romance do norueguês Jon Fosse, assenta, antes de mais, num exercício de linguagem insólito mas sedutor, que exige do leitor um esforço amplamente recompensado ao cabo de algumas páginas.

De forma lenta mas inexorável, a lógica da gratificação imediata tem-se vindo a alastrar por todas as áreas. Até na literatura. O princípio é simples: se um determinado livro não nos proporcionar retorno instantâneo, devemo-lo abandonar quanto antes, trocando-o por outro capaz de assegurar essa imediatez.

Mais do que perniciosa - quantos autores hoje considerados clássicos não teriam deixado de chegar até nós se o mesmo princípio fosse válido no tempo em que viveram? -, essa linha de pensamento colide com o ofício da paciência em que também assenta a leitura.

Sem que isso faça necessariamente do leitor um obediente discípulo de Masoch, é consensual que os livros mais recompensadores e duradouros são, muitas vezes, aqueles cuja leitura resultou de um esforço para aceder ao mundo particular criado por determinados escritores.

Em "Trilogia", o mais recente livro de Jon Fosse publicado em Portugal, assistimos a processo idêntico. A supressão de quase todos os sinais de pontuação e a repetição exaustiva de expressões oferecem uma resistência inicial ao leitor, tentado a considerar o texto próximo do ininteligível.

Ultrapassada a estranheza suscitada pelas primeiras páginas, a leitura adquire contornos quase compulsivos. Pela linguagem simples e poética que o autor norueguês utiliza, na qual os silêncios povoam os espaços em branco, mas sobretudo pela reverberação que a história provoca em quem a lê.

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As reminiscências bíblicas são evidentes: um jovem casal chegado a uma nova cidade tenta em vão encontrar um espaço onde possa ficar. A urgência tem uma razão de ser: Alida está prestes a dar à luz, mas a situação periclitante do casal não suscita a menor empatia por parte dos habitantes.

Na segunda novela, há um salto temporal (o filho do casal já nasceu), mas o passado teima em não ficar para trás. Já com uma nova identidade, Olav é acusado de um crime e vê os seus planos familiares desabarem com estrépito.

Um avanço no tempo ainda mais significativo é o que proporciona o derradeiro capítulo, em que encontramos Ales, segunda filha de Alida, já com uma idade avançada. Mas, acima de tudo, deparamo-nos com os ecos de um passado que continuou a ressoar até ao presente, graças à evocação permanente de lugares, memórias e pessoas, numa celebração da vida sem fim aparente.

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