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Manuel da Silva Ramos: "Os portugueses não gostam do confronto de ideias"

Manuel da Silva Ramos: "Os portugueses não gostam do confronto de ideias"

Manuel da Silva Ramos, uma das vozes mais livres da literatura portuguesa contemporânea, retorna à publicação com "Perplexidades de um homem vestido de bacalhau". Um livro que o autor define como "um pequeno cortejo de pessoas estranhas".

Escrito há mais de duas décadas. no rescaldo do seu retorno ao país, e agora finalmente editado pela 50 Kg,, "Perplexidades de um homem vestido de bacalhau" devolve-nos a imagem de um país onde os seus habitantes recorrem a todos os artifícios para não se confrontarem consigo próprios.

Decorrido todo este tempo, Manuel da Silva Ramos diz que a galeria de personagens que o livro retrata está mais alargada, mas também "mais violenta". Crítico da "fascização" mais evidente da sociedade portuguesa, lança ainda ataques ao meio literário, dizendo que "há muita gente a armar-se ao pingarelho".

Tal como o título deixa antever, este é um livro cheio de perplexidades. Acha que a realidade multiforme com que nos deparamos nestas páginas é, afinal, muito mais insólita do que vermos um homem vestido de bacalhau?
A realidade portuguesa com que o leitor se depara neste livro é a realidade vista por um homem que esteve ausente do país durante 27 anos. A perplexidade do poeta é igual à estranheza dos habitantes que comem bacalhau desmedidamente mas que são indiferentes à passagem do "monstro". Na verdade, deviam gostar desse " monstro" que se veste com uma coisa que eles amam. Mas não é o caso...É por isso que são mais insólitos.

Na sua jornada, o homem vai encontrando personagens não menos bizarras do que ele, mesmo que não estejam trajadas de forma tão invulgar. Podemos ler esta obra como uma espécie de cortejo em movimento?
Este livro é um pequeno cortejo de pessoas estranhas que eu encontrei no bairro da Graça, em Lisboa, quando lá morei dez anos depois de ter regressado de França...

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Ironias à parte, este homem vestido de bacalhau tem mais espinha do que a maioria das pessoas que encontra?
O homem vestido de bacalhau tem nele a espinha dorsal da poesia. O que é fundamental para sobreviver.

O texto foi escrito em 2000. Como se proporcionou agora a publicação, mais de 20 anos depois?

Vivi dez anos na Vila Sousa e gosto muito deste meu texto que é muito autobiográfico. Vivia no quarto andar, numa antiga cela de freira, num minúsculo estúdio que tinha uma sala de jantar que era o grande estuário do Tejo. E comia muito bacalhau porque era fácil de cozinhar. Era só pôr de molho e depois levá-lo ao lume. Mais recentemente, o Rui Azevedo Ribeiro pediu-me um texto e eu entreguei-lhe este que já estava há vários anos de molho...

Tem muitos exemplos similares de livros escritos há muito que, por um ou outro motivo, ainda não foram publicados?

Tenho. E até romances. Textos escritos cá e outros em França.

Esse longo período que mediou entre a escrita do livro e a sua publicação é habitual em si?

Não é habitual. Com um texto que considere importante, vou lutar para que seja publicado imediatamente. Mas há escritos que só podem ser póstumos. Tenho alguns...

A galeria de personagens que o livro apresenta, do velho andrajoso ao ministro sorumbático, continua solidamente instalada na sociedade portuguesa?
Em 2000, Portugal era assim. Hoje a galeria alargou-se mais e está até mais violenta. Talvez eu continue com " Quintas Perplexidades..." e acabe com " Últimas Perplexidades...". Nunca se sabe...

É fácil rotular o livro como absurdo, mas até que ponto estas definições mais ou menos apressadas são análises redutoras do seu conteúdo?

O grande inseto de " A Metamorfose" de Kafka também era absurdo mas o escritor não deixou de criticar a sociedade checa e até os próprios pais do pobre Samsa, que foram incapazes de cuidar dele. Neste meu livrinho, o riso espalha-se também por todo o lado.

Há frases muito marcantes no livro, mas talvez nenhuma tão impressiva como a que assegura que "a vida em Portugal são foguetes que estalam ao longe e não se sabe por que motivo". Como assegurava o bafiento hino da Mocidade Portuguesa, "lá vamos cantando e rindo"?

Sempre estranhei o alheamento dos meus compatriotas diante das coisas essenciais.

Pela sua dimensão reduzida ou até pela recorrência de algumas das características, acredita que este livro pode ser uma porta de entrada para a sua obra?

É mais uma entrada para a minha obra poética que começou com " O Tanatoperador", continuou com " Poesia Não Potável", continua com estas " Perplexidades..." e com o meu próximo livro de poesia que conto publicar ainda este ano. Toda esta poesia tem uma só problemática: a identidade, a minha.

O livro tem a chancela das Edições 50 Kg, uma editora artesanal do Porto. Como vê a manutenção destes microprojetos num mercado dominado pelos grandes grupos?

As pequenas editoras continuam a ser fundamentais para a renovação e divulgação da poesia portuguesa. Quanto às Edições 50kg do Rui Azevedo Ribeiro, pelo seu projeto editorial, são de uma grande originalidade e ao mesmo tempo de uma bela pujança criativa.

Livro após livro, mantém intacta a vontade de retratar a sociedade portuguesa. É uma missão eternamente por concluir?

É ao mesmo tempo a nobre missão do escritor independente e a missão salutar do cidadão livre que ao sair para a rua só pode usar a crítica social para defender a liberdade.

Somos pobres, mas sociologicamente ricos?

É isso. Mas nunca seremos remediados, nem teremos remédios ao desbarato em casa.

Tem publicado de forma particularmente intensa nos últimos anos. O ato criativo flui-lhe cada vez mais sem esforço de maior?

Há cinquenta e tal anos que publico. E há sessenta e tal que escrevo. É natural que tudo saia com facilidade já que sou um escritor da imaginação...

Em tempos distópicos como os que o mundo vive atualmente, a literatura tem um papel diferente?

Não. A literatura continua a ter o seu papel essencial que é o de dar prazer ao leitor e de promover o pensamento crítico. E, claro, o de proporcionar uma liberdade intelectual que não se adquire por outros meios. Não se pode viver num país em que a literatura não seja subversiva, não alimente o sarcasmo e não desenvolva um riso esclarecedor.

Ao contrário do que acontece em França, por exemplo, não vemos em Portugal grandes contestações populares às medidas de propagação da pandemia ou da escalada do custo de vida. Como interpreta reações tão diferentes a problemas que se fazem sentir de modo ainda mais premente por cá?

Os portugueses não gostam de associações participativas, nem de confrontos de ideias. Não têm o hábito de questionamento. Tenho amigos franceses de extrema-esquerda com setenta anos que continuam avessos à vacina contra o covid 19 e outros que se manifestaram ao lado dos Coletes Amarelos. Em França, há uma tradição de crítica constante e de ação imediata. Eu, quando vivia lá, por vezes associava-me até a manifestações de alunos de liceu... Em suma, e quase parafraseando este meu livro, os portugueses nem as canas dos foguetes apanham!

Como analisa os números aterradores da leitura em Portugal? Segundo estudos recentes, mais de 60% dos portugueses não leram um único livro no ano passado...

É mais que aterrador, é desumano. Não se pode ser uma pessoa livre se não se ler muito. É por tudo isto que os escritores verdadeiros portugueses vivem numa espécie de reserva índia ou em bunkers... Mas o governo socialista não faz nada para alterar este processo de aniquilamento dos espíritos. Veja-se neste novo orçamento o dinheiro que vai para a Cultura. É ridículo!

Liberdade e "sexo melhorzinho" à parte, como afirmou numa entrevista recente, Portugal mudou menos do que seria expectável nas últimas décadas?

O que mudou muito nos últimos tempos foram duas coisas que me impressionaram: a fascização da sociedade portuguesa através de um movimento político de extrema-direita sem vergonha e orgulhoso disso ; e por outro lado uma tendência crescente na literatura portuguesa : há muita gente por aí a armar ao pingarelho...

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