Investigação

Jornalistas ajudaram ao sucesso do confinamento no estado de emergência

Jornalistas ajudaram ao sucesso do confinamento no estado de emergência

Nove em dez profissionais orientaram trabalhos para prevenção da pandemia e apontam falhas às fontes oficiais.

Mais de 90% dos jornalistas assumem que orientaram o seu trabalho, durante o estado de emergência (de 19 de março a 2 de maio), para comportamentos de prevenção e tratamento da covid-19. E esse facto contribuiu para que, a par da decisão do Governo em decretar rapidamente o confinamento, as pessoas percebessem a importância de ficar em casa e resultasse no sucesso que muitos apontam à medida.

A conclusão faz parte do primeiro inquérito sobre o impacto da covid-19 no jornalismo português, realizado pelo Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho (UMinho), e pelo Centro de Investigação em Tecnologia (CINTESIS) da Universidade do Porto, cujos resultados preliminares são hoje divulgados.

"Houve aqui um trabalho exemplar dos jornalistas, num tempo em que os próprios estavam confinados e as redações, de uma forma geral, sentiam que iam ter gravíssimos problemas financeiros", explicou ao JN Felisbela Lopes, da UMinho. A investigadora destacou que, mesmo assim, os jornalistas "procuraram ser coadjuvantes das autoridades sanitárias. E, por extensão, do poder político".

Os inquéritos foram respondidos por 200 profissionais, entre jornalistas, editores/coordenadores e diretores de órgãos de Comunicação Social nacionais de informação generalista.Os jornalistas reportaram dificuldade em aceder a informação relevante por parte das autoridades sanitárias, o que leva os investigadores a apelarem a uma "profunda alteração na comunicação da saúde".

Falta resposta eficaz

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"Aquilo que nós constatamos é que os jornalistas ficaram sozinhos", prosseguiu Felisbela Lopes, alertando para a necessidade de uma resposta mais eficaz, pois poderá ocorrer uma segunda vaga ou até surgir uma nova pandemia. Além disso, acrescentou, jornalistas reconheceram que as fake news aumentaram, sendo preciso "haver no terreno fontes oficiais que procurassem neutralizar todas essas dificuldades". A terceira avaliação do grupo de investigadores (que integra ainda Rita Araújo e Alberto Sá, da UMinho, e Olga Magalhães, do CINTESIS) tem a ver com a procura de novas fontes de informação. Os jornalistas optaram pela informação que as fontes tinham e a capacidade "para comunicar o essencial", mesmo sendo desconhecidas.

"Os jornalistas abordaram ângulos muito diversificados", verificando-se "um conjunto de interlocutores que apareceu fora do campo da saúde", como nas áreas do trabalho, educação e ação social. "Curiosamente, algumas das fontes mais conhecidas desapareceram neste período da pandemia."

Informação simples

Textos noticiosos, infografias e caixas explicativas foram as formas utilizadas pelos jornalistas para informar sobre a prevenção da covid-19 e chegar a franjas mais largas da população. Segundo Rita Araújo, "os média tradicionais são ainda a melhor forma de chegar aos públicos menos instruídos que, de outra forma, teriam poucas oportunidades de contactar com informação sobre saúde".

Fake news

Para combater a informação falsa, os jornalistas usaram essencialmente duas estratégias: o cruzamento da informação com fontes documentais e o pedido de explicações a uma fonte oficial ou especializada. O que pode justificar, revela Olga Magalhães, "o elevado número de especialistas e académicos que surgiram no espaço público, contribuindo para a qualidade do debate".

Fontes especializadas

Para 87% dos profissionais, a escolha das fontes especializadas baseou-se sobretudo na informação que estas possuíam. "Os jornalistas preocuparam-se com a verdade, relevância e importância". E estes valores-notícia, para os quais "certas fontes não serviam", diz Felisbela Lopes, emergiram "com muita força para o topo da hierarquia da noticiabilidade".

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