Banda Desenhada

Morreu Benoît Sokal, criador do inspetor Canardo

Morreu Benoît Sokal, criador do inspetor Canardo

Argumentista e desenhador, Benoît Sokal morreu esta sexta-feira, após doença prolongada. Deixa como herança mais de três dezenas de álbuns de BD e vários videojogos. O autor foi um dos primeiros a fazer a ponte entre estes últimos e a banda desenhada francófona.

Natural de Bruxelas, onde nasceu a 28 de Junho de 1954, provinha de uma família de médicos. A paixão pela banda desenhada veio da leitura das revistas "Spirou", "Tintin" e "Mickey" que a mãe lhe comprava para fazer face às horas de espera nos consultórios.

Depois de uma curta experiência sem sucesso num curso de Veterinária, para tentar seguir a tradição familiar, inscreveu-se no Instituto Saint-Luc, onde teve como professor Claude Renard, e como colegas, nomes que viram a ser sonantes no panorama da banda desenhada francófona: François Schuiten, Philippe Berthet, Frédéric Bézian, Alain Goffin ou Philippe Foerster, com quem publicou os seus primeiros trabalhos na revista "Neuvième rêve", em 1978.

Com a banda desenhada franco-belga em plena revolução, devido ao aparecimento de revistas como a "Charlie Mensuel", "Métal Hurlant" e "Fluide Glacial", seria logo no segundo número da "(A Suivre)" que, nesse mesmo ano, estrearia aquela que seria a sua criação mais famosa e duradoura: o inspector Canardo, que alguém descreveu como uma inusitada combinação do Pato Donald e Columbo.

Série policial, de humor tristonho e tom pessimista e desencantado, "Une Ênquete de l"Inspecteur Canardo" distinguia-se pelas personagens antropomórficas que a protagonizavam. Canardo, naturalmente, era um pato, fumador, alcoólico e que tinha perdido todas as ilusões; Rasputine, o seu rival (em homenagem ao adversário de Corto Maltese) um gato selvagem; Klapov, um repórter em busca do grande furo, um cão, tal como Klara, uma das suas grandes paixões.

Com um total de 25 livros publicados, a série foi traduzida em 10 línguas, entre os quais o português, embora a Meribérica tenha publicado apenas um título, "A Amargónia", em álbum e na revista "Selecções BD".

Apesar do sucesso de Canardo, Sokal tinha outras ambições. Por isso, a partir de 1987, utilizando um traço semi-realista e um preto e branco rico de contrastes, foi interclando os inquéritos do pato com obras como "Sanguinne" (1987, com argumento de Alain Populaire), "Silence, on tue!" (1990, com François Rivière) e, principalmente, "Le vieil homme qui n"écrivait plus" (1996).

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Este último é um relato trágico, cuja acção se divide entre o final da Segunda Guerra Mundial e a actualidade, 50 anos depois, quando uma equipa decide passar a filme um romance autobiográfico de sucesso situado em 1944. O regresso do autor, ao local dos acontecimentos que narrou, vai despertar velhos ódios e fantasmas e revelar verdades até então escondidas.

A partir de 1998, Benoît Sokal começou a trabalhar numa versão informática de "A Amargónia", que seria o primeiro de vários videojogos bem sucedidos, que criou ou produziu para a sociedade White Birds, entre os quais "Syberia", "L"Ille Noyée", "Martine" ou "Last King of Afrika".

Esta actividade afastou-o um pouco da banda desenhada, tendo entregue o desenho de Canardo ao seu assistente Pascal Regnaud, embora mantendo a escrita do argumento e a planificação.

Os seus últimos trabalhos publicados foram "Kraa" (2010-2014) e "Aquarica" (2017, com François Schuiten), este último um álbum que prenunciava um filme de animação, cuja curta-metragem de apresentação foi mostrada em Cannes, em 2019. A aguardar data de lançamento, depois de ter sido adiado devido à pandemia, está um jogo com título profético: "Syberia IV: Le monde d"avant".

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