1930-2022

Morreu Elza Soares, "a voz do milénio"

Morreu Elza Soares, "a voz do milénio"

Elza Soares morreu esta quinta-feira, aos 91 anos, no Rio de Janeiro. O Porto viu-a em 2017, num concerto apoteótico no Primavera Sound.

Os sites brasileiros já notaram a coincidência: a cantora morreu no mesmo dia de Garrincha, craque do Botafogo com quem foi casada durante 17 anos. Só que o jogador morreu 40 anos antes, em 1983.

A compositora e cantora que a Rádio BBC de Londres elegeu, em 1999, como a "voz do milénio", gravou e cantou até ao fim, como desejara. No dia 3 de fevereiro tinha concerto marcado na Casa Natura, em São Paulo.

"É com muita triste e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos, em sua casa, no Rio de Janeiro, de causas naturais", anunciou a assessoria de imprensa da artista nas redes sociais.

"Teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com a sua voz, a sua força, a sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e nos nossos corações e em milhares e fãs no mundo inteiro. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até ao fim."

História de superação

Elza Gomes da Conceição nasceu a 23 de junho de 1930, no Rio de Janeiro, no Brasil. A sua vida é uma história de superação que se transformou numa fonte de inspiração para todas as mulheres negras artistas do Brasil.

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Oriunda de uma família pobre - a mãe era lavadeira, o pai operário - teve dez irmãos e cresceu na favela de Moça Bonita. Casou aos 12 anos, forçada pelo pai, com o homem que abusara dela. E foi mãe aos 13. Ficou viúva de Antonio Soares, conhecido como Alaúde, aos 21 anos.

Foi mãe de oito filhos, perdeu dois ainda bebés para a fome. E entregou outro para adoção, por falta de condições para os sustentar. Uma das filhas, Dilma, foi raptada com apenas um ano e só apareceu 30 aos mais tarde. Um dos filhos, Garrinchinha, morreu aos nove anos num acidente de automóvel. Foi em 1989 e ela quis morrer logo a seguir.

Em 2015, o ano em que lançou o álbim "A Mulher do Fim do Mundo", morreu filho Gilson, com 59 anos. "A única coisa do passado que ainda me machuca é a perda dos meus quatro filhos. O resto tiro de letra. Mas filho é uma ferida aberta que não cicatriza. Estará sempre presente!", disse Elza Soares, que viveu a vida toda com uma depressão e com comprimidos e drogas para a combater.

O sonho de cantar

Apesar de todas as tragédias e todas as dificuldades, Elza Soares, que era empregada de limpeza, manteve sempre intacto o sonho de cantar. Em 1953 arriscou. Foi ao programa de rádio "Calouros em Desfile", apresentado por Ary Barroso, e a sua roupa conseguiu surpreendê-lo. "De que planeta você veio, minha filha?", questionou, com ironia. "Do planeta fome", respondeu Elza. O episódio foi recordado esta quinta-feira pela revista "Veja", que também lembrou a rendição do apresentador quando a ouviu cantar "Lama" de Paulo Marques e Aylce Chaves.

"Se eu quiser fumar eu fumo/ Se eu quiser beber eu bebo/ Não me interessa mais ninguém/ Se o meu passado foi lama/ Hoje quem me difama/ Viveu na lama também", diz a canção.

A passagem pelo Primavera Sound

No final da década de 50 do século passado, antes ainda de completar 20 anos, já toda a gente conhecia a voz particular de Elza Soares e as letras das suas canções, quase sempre contra o racismo e quase sempre a favor das mulheres.

Em 1963 começa a namorar com Garrincha, então uma das maiores estrelas do futebol do Brasil. Casam três anos mais tarde e mantêm a relação durante 17 anos. Garrincha morreu a 20 de janeiro de 1983 e a imprensa brasileira não deixou de reparar na coincidência.

Elza Soares gravou 36 álbuns e seis coletâneas e percorreu o mundo inteiro em sucessivas digressões. Em 2017, passou por Portugal. Foi no NOS Primavera Sound, ao fim da tarde. Ela sentada num trono no centro do palco e na relva milhares de pessoas a saberem todas as letras de cor e a cantarem com ela. Como a letra de ""Maria da Vila Matilde", aobre violência doméstica, em que ela diz: "Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim/ Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim".

No fim do concerto, a 10 de junho, Dia de Camões, ela ainda cantou os parabéns a Portugal. Mas o momento mais arrepiante foi quando lembrou o caso Gisberta, a transexual brasileira assassinada em 2006 no Porto por um grupo de adolescentes.

A voz brasileira do milénio

Entre as muitas colaborações ao longo da sua vida, destacam-se Caetano Veloso, Chico Buarque e Carlinhos Brown. Em 1999, o ano em que foi operada à coluna depois de ter caído no palco, foi eleita pela Rádio BBC de Londres como sendo a voz brasileira do milénio. E a revista Rolling Stone Brasil incluiu-a na lista das 100 maiores vozes da música brasileira de todos os tempos.

Em 2008, a cineasta e jornalista Elizabete Martins Campos começou a pesquisar a vida dela e esse trabalho resultou no filme "My Name is Now". A longa metragem percorreu dezenas de festivais, conquistou vários prémios e está agora disponível na Netflix.

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