
José Ruy
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José Ruy morreu esta quarta-feira, contava 92 anos e quase 80 de publicação, e era o último autor vivo da chamada Idade de Ouro da banda desenhada portuguesa, correspondente sensivelmente às décadas de 1940 a 1960.
Natural da Amadora, onde nasceu a 9 de maio de 1930, José Ruy Matias Pinto estudou na Escola António Arroyo, onde tirou o curso de Desenhador Litográfico e publicou a sua primeira banda desenhada, sobre o Presépio, com apenas 14 anos, na revista "O Papagaio", em 1944. Nesta publicação, iria multiplicar as suas colaborações, entre capas e "histórias aos quadrinhos", como ele gostava de lhes chamar.
A sua formação levou-o depois para "O Mosquito", onde começou por fazer legendas e separação de cores, antes de se estrear como autor nesta revista, em 1952, com "O Reino proibido". Era um tempo em que os autores faziam poses uns para os outros ou iam até ao Jardim Zoológico para desenhar animais ao vivo e melhorarem a técnica que aplicavam depois nas suas criações, como o autor várias vezes recordou.
Aqueles foram os primeiros passos de um percurso ímpar, que passou por todos os grandes títulos infanto-juvenis - "Cavaleiro Andante", "Camarada", "Spirou", "Tintin", "Mundo de Aventuras"... - e pela edição de dezenas de álbuns, maioritariamente com temáticas históricas, biografias de personalidades nacionais ou internacionais ou adaptações literárias.
Da sua vasta bibliografia destacam-se as adaptações de "A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto" e de "Os Lusíadas", "A História da Cruz Vermelha", "Levem-me nesse sonho acordado", uma história do concelho da Amadora, sucessivamente atualizada e aumentada ao longo dos anos, ou "As Aventuras de Porto Bomvento", uma personagem fictícia nascida no Porto que acompanha toda a saga das Descobertas portuguesas.
Estes títulos espelham bem as temáticas que ele entendia que melhor serviam os leitores portugueses a quem se dirigia, dada a dificuldade de concorrer com as bandas desenhadas ficcionais que chegavam do estrangeiro mais baratas. Por isso, também, e dada a sua formação, desenvolveu um sistema de cores que tornava mais económica a impressão dos seus álbuns.
Se isto pode explicar, em parte, a sua extensa bibliografia, a quantidade tem também a ver com o facto de, como disse numa entrevista, "Não fico à espera de convites; faço". Ou seja, multiplicava os projetos que ia apresentando aqui e ali, até conseguir a sua publicação. Não surpreende por isso que, quando um livro era impresso, já estivesse a desenhar outro, e a pensar nos seguintes.
O seu último trabalho publicado foi "O Heroísmo de uma Vitória" (Âncora Editora, 2020), sobre os confrontos entre liberais e absolutistas na Ilha Terceira, nos Açores. Atualmente trabalhava na adaptação de "Lendas japonesas", de Wenceslau de Moraes, de que já tinha pronto o primeiro volume que a morte impediu que visse impresso.
Para além de autor, José Ruy foi também um homem extremamente afável, generoso e disponível, que multiplicou sessões em escolas e noutros locais, sempre disposto a ajudar e a partilhar os seus conhecimentos e as muitas histórias e anedotas de uma vida dedicada aos quadrinhos, durante a qual cruzou todos os grandes nomes portugueses relacionados com esta arte.
