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Morreu Lailai, a artista que aprendeu com David Bowie

Morreu Lailai, a artista que aprendeu com David Bowie

A atriz Adelaide João faleceu na Casa do Artista, em Lisboa, onde residia há 11 anos, infetada com covid- 19

Gostava de se intitular a "artista portuguesa" e na verdade o público português viveu mais de 70 anos com ela, nos ecrãs e no palco. Numa estranha familiaridade, crescemos e envelhecemos com ela. Com a sua morte perde-se parte do património nacional, numa semana negra para a representação portuguesa, em que faleceram António Cordeiro, Licínio França e, anteontem, uma das suas companheiras, Cecília Guimarães, 93 anos, com pneumonia, que também residia na Casa do Artista.

Dez infetados na casa

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Sobre o surto de covid-19 na residência, fonte da instituição disse à Lusa que há dez infetados entre os 70 residentes. Além de Adelaide João, foi vítima deste vírus a cantora lírica Maria Andrea Gaspar, nascida em 1929, um falecimento anunciado ontem pela Apoiarte - Casa do Artista, na sua página oficial do Facebook.

A atriz Adelaide João (junção do nome da mãe e do pai), de 99 anos, residia na Casa do Artista desde 2009. De verdadeiro nome Maria da Glória Pereira Silva, nasceu em Lisboa a 27 de julho de 1921 e começou como atriz amadora no grupo de teatro da Philips, onde trabalhava, e foi descoberta pelo encenador Artur Ramos. Profissionalizou-se no Conservatório Nacional e depois em Paris, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. No regresso a Portugal fez fotonovelas, o que não lhe agradava, como disse em entrevista à "Notícias Magazine" em 2010. Mas tinha uma atitude pragmática que tanto lhe permitia fazer Brecht no teatro como entrar nos "Batanetes".

E quase se acreditava que ela tinha uma mercearia ao lado de nossa casa, de tanto a ver em novelas como "Vila Faia", "Amor malandro" ou "Floribella". No cinema tinha um registo totalmente distinto, como contou Ivo Canelas: dizia aos atores de outras gerações que tinha aprendido a representar com David Bowie; nele tinha percebido o poder do performer.

Animal de teatro

A sua vida pessoal foi passada na Estefânia, em Lisboa, onde continuava a ir ao cabeleireiro e à farmácia de autocarro. Apesar de ter entrado em centenas de filmes, telenovelas e peças confessou: "Houve uma altura em que tive de deixar a minha casa, não tinha dinheiro. Era a renda, o condomínio, a luz, o gás. Tive de me render". Uma rendição preenchida com os amigos que a levavam a ver teatro, porque não tinha família.

Descrita como "animal de teatro", teve um percurso admirável na companhia O Bando. Inesquecível, a sua prestação na peça "Ensaio sobre a cegueira", encenada por João Brites. Também deixou marcas profundas no cinema, como disse o crítico Jorge Leitão Ramos do seu trabalho: "Discreto mas firme, sempre escorreito, sempre positivo". Uma atriz secundária que ajudava sempre os outros a ganhar a cena. No imaginário popular continuará a ser dona de mercearia.

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