Dia de Portugal

Nove horas numa maratona a falar "Os Lusíadas" do princípio ao fim

Nove horas numa maratona a falar "Os Lusíadas" do princípio ao fim

Foi precisa uma preparação física apertada, entre natação, marcha, yoga e pilates. E 12 anos de uma paixão assumida pela epopeia portuguesa para aguentar nove horas a falar Os Lusíadas.

Esta quarta-feira, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o ator António Fonseca leva ao palco do Teatro Nacional D. Maria II uma Maratona de Leitura da obra de Luís de Camões. Integral e sem parar. Pode ser vista online, no Youtube e Facebook do D. Maria II, de forma gratuita, ao longo de todo o dia. Arranca às 10 horas e só acaba perto das 19.

Na verdade, não é bem uma leitura e o ator António Fonseca põe logo tudo no lugar: "É uma falação. É falar Os Lusíadas". Começou a decorar a primeira estrofe em junho de 2008. "Algumas sou capaz de dizer de cor, outras não. Mas sei de cor com o coração. Não é algo que estou a ler". Decidiu meter-se nesta aventura há 12 anos, porque é "ator e um ator conta histórias". "Temos esta história enorme, só que as palavras de Camões escritas são difíceis de entender. É dificílimo de ler. Mas é muito fácil de ouvir. Quando se ouve, quando as coisas são faladas, há outra coisa que não há quando se lê. Que é a toada. Muitas vezes, não precisamos de entender a letra para curtir a música, para ela nos emocionar ou entristecer".

Por isso é que António Fonseca diz que não vai ler. Vai contar uma história. Que se faz de 10 cantos. Nos últimos anos, já correu o país em espetáculo com Os Lusíadas. Em palcos ou escolas. Sessões de hora e meia e de duas horas. Já chegou a fazer algo semelhante com o que vai fazer amanhã: "Comecei às 9 horas e acabei à meia-noite. Mas nunca cheguei ao canto décimo". Nunca falou a obra integral. "Os Lusíadas não é algo para ser estudado nas escolas, é para ser entoado, para ser dito. A leitura e análise é uma chatice. E Os Lusíadas não têm que ser chatos".

"É fisicamente violento"

Já não pegava no texto há cinco anos. Teve que fazer um "refresh" na memória. "Esta hipótese surgiu há dois meses. Propus e comecei a preparar". Foi o que bastou para voltar a "pôr o texto no coração e na cabeça". Ao mesmo tempo, veio a preparação física.

"Por conselhos de uma médica especialista em desporto de alta competição. Fiz natação, marcha, yoga, pilates. Porque no palco, é fisicamente violento, em termos de gasto de energia. E à medida que ia massacrando e decorando Os Lusíadas apercebi-me disso". António vai ao mundo do futebol buscar exemplos para traduzir: "O Mourinho, por exemplo, preocupava-se muito com o tempo de concentração dos jogadores e se um jogador só aguentava 20 minutos concentrado, ele só o punha a jogar 20 minutos. Valorizava tanto a atitude física como a capacidade mental".

Sem parar

A regra, amanhã, é não parar. Mesmo que se engane. As cordas vocais, essas, são resistentes. "Nos momentos de batalha, tento gritar mais para as pessoas pensarem que estão na guerra. Como alguém que está a contar uma coisa muito entusiasmada. Mas de resto não grito muito". Vai estar em frente a uma câmara, com uma mesa e uma cadeira. E talvez esta seja mesmo a melhor forma de comemorar o dia 10 de junho. Embora o ator não seja muito dado a efemérides. "Percebo que têm que existir socialmente. São marcas. Faz parte. Mas acho que é importante dizer Os Lusíadas sempre. E que eles façam parte da nossa vida".

É como a viagem de Vasco da Gama, que só vive no nosso imaginário porque Camões a escreveu e reinventou. "Se não o tivesse feito, esta viagem teria ficado na história como um sucesso, mas acima de tudo uma desgraça, em que dezenas morreram". Já dizia Jorge de Sena que Camões foi herói e António Fonseca faz um paralelismo com a realidade atual dos artistas: "Camões inventa uma realidade que nos faz grandes. E os artistas servem precisamente para criar outra realidade, para nos abanar. Camões viu-se aflito para editar Os Lusíadas. E só depois de morrer é que virou herói. Não aprendemos nada? O poder político não aprendeu nada?", conclui.

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