
"O objetivo de muitos escritores portugueses não é o de contar uma história, é, sim, o de impressionar os pares"
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Trocou Matosinhos e a Arqueologia por Paris e pela literatura, mas afirma manter-se próximo das raízes. Nuno Gomes Garcia, 44 anos, acaba de ver publicado em França o romance "La Domestication" ("O Homem Domesticado" no original) que retrata um mundo dominado pelas mulheres.
Dez anos e três livros depois da estreia, com "O Soldado Sabino", Nuno Gomes Garcia afirma conceber cada vez mais a escrita como uma forma de organização mental perante as inquietações do futuro.
Consultor editorial em França, o autor de "Zalatune" reserva palavras duras para o meio literário português, que acusa de estar divorciado da realidade e mais empenhado em impressionar os seus pares do que em contar uma boa história.
Há poucas semanas foi editado em França o seu romance "O Homem Domesticado" e em novembro vai representar Portugal num dos mais importantes festivais franceses (Littératures Européennes Cognac). Encara 2022 como um ano capital na divulgação da sua obra?
Sim, é verdade o "La Domestication" já está em todas as boas livrarias francesas e no outono vou passar um mês na cidade de Cognac, onde, sem os filhos à perna, poderei avançar no meu novo romance e, ao mesmo tempo, participar em vários encontros com os leitores da região da Charentes, que poderão assim descobrir o "La Domestication" e o belo trabalho de transformação linguística, quase revolucionário, que a Clara Domingues, a minha tradutora, levou a cabo.
Para a divulgação do meu trabalho em França, o ano de 2022 é sem dúvida capital, principalmente se compararmos com o timing desastroso que foi o do lançamento do meu mais recente romance em Portugal, o "Zalatune", que coincidiu com o confinamento de janeiro de 2021.
Em "O Homem domesticado" apresenta um mundo dominado pelas mulheres, no qual os homens são meros objetos. Exageros ficcionais à parte, caminhamos em certo sentido para esse cenário?
Não, de maneira nenhuma. As estruturas sociais que promovem a discriminação e a opressão das mulheres são muito resistentes e o seu desmantelamento será um processo longo. Este cenário, o universo, que eu criei neste romance, utilizando para isso a técnica do espelho deformante, visa parodiar as sociedades patriarcais que ainda dominam o mundo. A maioria das pessoas, mulheres incluídas, tem tão enraizada na sua mente estas estruturas que oprimem a mulher desde a invenção da agricultura que as consideram normais. Como se a opressão e a discriminação de metade da humanidade fossem normais.
O universo de "La Domestication" é simultaneamente uma provocação e um exercício de empatia. Uma provocação porque utiliza o tremendismo como vetor de critica social, e um exercício de empatia porque apela ao leitor, nomeadamente ao leitor masculino, que sinta na pele o sofrimento daqueles machos que vivem na Nova República francesa, um sofrimento muito semelhante àquele que as mulheres sofrem na vida real. Eu ficarei feliz se o leitor de "La Domestication" tiver as seguintes reflexões: "e se fossemos nós, os homens, o género oprimido?" e "isto é a realidade exatamente inversa que tem lugar em muitas das nossas sociedades".
Até que ponto as sociedades profundamente patriarcais em que vivemos desde tempos imemoriais justificam que agora se caia no risco de passar para uma situação oposta?
Isso nunca acontecerá, pois não é esse o objetivo do feminismo nem o objetivo de feministas como eu. Se formos aos dicionários encontraremos a seguinte definição de feminismo: "doutrina que advoga a defesa dos direitos das mulheres, com base no princípio da igualdade de direitos e de oportunidades entre os sexos". Ora o feminismo não visa discriminar os homens em beneficio da mulher, visa, sim, a total igualdade de direitos e a absoluta equidade no acesso às oportunidades. O feminismo não é um machismo invertido, ao contrário do que dizem alguns grupos que diabolizam o feminismo apenas para preservar o status quo e o seu poder milenar, o feminismo é um combate por um mundo mais humanista, uma luta pela abolição da mais antiga e longa opressão da história da nossa espécie, que é a opressão das mulheres. Eu sou feminista e escrevi o "La Domestication" porque não quero que a geração da minha filha passe pela mesma opressão que sofreu a geração da minha mãe. Eu desejo simplesmente que ela seja igual, em direitos, garantias e liberdades, ao seu irmão.
Por que razão há ainda tão poucos escritores portugueses traduzidos e publicados em mercados como a França?
E porque razão existem tão poucos autores franceses contemporâneos publicados em Portugal? Isso tem que ver, na minha opinião, pelo domínio maciço da língua inglesa no meio editorial internacional, o que leva a que as literaturas anglo-saxónicas, principalmente a estadunidense, esmague todas as outras.
A quase insignificância da literatura portuguesa em França tem que ver, por um lado, com certos atavismos da literatura e dos escritores contemporâneos portugueses, mais preocupados com a forma e menos com o fundo. Creio existir um desajustamento da elite literária portuguesa, à qual às vezes parece faltar mundo. Ela ainda não compreendeu o que exigem os leitores internacionais do nosso tempo. Os escandinavos, por exemplo, que são uma literatura considerada periférica, tal como a portuguesa, descobriram um belo nicho e tornaram-se nos melhores. Outra inépcia do meio editorial português do qual as editoras francesas se queixam: o tempo longo que as editoras portuguesas levam para responder aos pedidos de compra dos direitos internacionais de obras publicadas em Portugal. Essa morosidade, que nós, portugueses, sabemos fazer parte da nossa idiossincrasia nacional, não é compreendida pelos franceses e é confundida com falta de interesse. Repare que, em França, apenas as editoras pequenas ou de média dimensão, que são as grandes responsáveis pela enorme vivacidade do meio editorial francês, optam por correr o risco de publicar autores estrangeiros pouco conhecidos. Essa morosidade portuguesa na resposta talvez tenha que ver com esse facto. Creio que se for a Gallimard a pedir os direitos internacionais a uma grande editora portuguesa a resposta será célere.
Por outro lado, o meio editorial francês, que também possui os seus desajustamentos, exige das literaturas que ele considera periféricas romances profundamente exóticos. Ora, sendo Portugal um país europeu com uma cultura bastante próxima da francesa, esse exotismo nem sempre é possível. Com o Brasil já é diferente. Lembro-me de nestes últimos meses ter escrito sobre livros brasileiros que falam da Amazónia e da violência urbana das grandes cidades. Isso, para o meio editorial francês, já é suficientemente exótico e merece publicação.
Mas, no cômputo geral, quando comparadas com outras literaturas ditas periféricas, as literaturas lusófonas não estão assim tão mal classificadas. Existe um público leitor fiel.
Que ecos lhe têm chegado da publicação, ainda que recente, em França?
O livro foi lançado há apenas uma semana, mas para já tem sido tudo muito positivo. A distribuição tem sido muito boa e as livrarias, algumas delas bastante reputadas, têm acolhido o livro com muito entusiasmo, e ele começa a chegar aos leitores. Como a minha editora francesa, a iXe, juntamente com muitas outras, aplicou um boicote à Amazon e aposta bastante nas livrarias independentes, que, graças a uma aplicação quase sem falhas da lei do preço fixo, ao contrário do desastre que é em Portugal, mantêm uma rede muito densa que serve todo o território, o livro chega a todo o lado. Chegou também à Bélgica, à Suíça e, em breve, estará à venda no Québec.
Como viu a adaptação do título do romance para o mercado francês?
A utilização revolucionária do "feminino genérico", como se diz por aqui, obrigou à adaptação do título de maneira a que a forma e o fundo sejam coerentes.
A edição francesa apresenta uma opção estilística radical: a feminização completa da radical. O que confere ao texto essa adaptação?
Na língua francesa, utiliza-se o pronome pessoal masculino "il" como neutro. "Il pleut" ("está a chover") ou "il faut" ("é preciso") consiste na utilização do neutro que foi masculinizado porque as línguas são o reflexo das sociedade que retratam. E as nossas sociedades e línguas latinas refletem o patriarcado dominante. Ora como o universo deste livro trata um processo de feminização da sociedade, o neutro masculino foi também abolido e ao invés dos exemplos anteriores, em "La Domestication" usa-se o neutro feminino, "elle pleut" ou "elle faut".
Deixe-me aludir ao contexto histórico. No caso da língua francesa houve uma verdadeira mudança no século XVI. Fórmulas femininas ou neutras ("ça pleut", por exemplo) foram erradicadas. Muitos nomes comuns, profissões como médico, por exemplo, passaram do feminino para o masculino porque eram consideradas demasiado nobres para serem femininas. Hoje, em francês diz-se "elle est médecin" ("ela é médico"). Outro exemplo é "águia", que era um nome feminino que passou a ser masculino porque esta ave é um animal nobre. Isto está escrito preto no branco pelos académicos franceses após o século XVII. E tudo isto desembocou numa elitização da língua. Antes da criação da Academia Francesa, a norma linguística foi estabelecida com base na utilização maioritária, era o povo que construía a língua. Posteriormente, baseou-se na utilização da língua por um círculo muito restrito e obviamente masculino.
Para concluir, posso dizer que esta abordagem linguística num romance literário de grande circulação como "La Domestication" é rara, talvez pioneira, e tem um ar revolucionário que a mim me enche as medidas. Este trabalho difícil, porque o neutro masculino está enraizado no nosso ADN, foi feito pela minha tradutora, a Clara Domingues. E ficou extraordinário.
Contrariamente ao que acontece com a sua área profissional de origem, a Arqueologia, a sua literatura é toda ela feita de presente e futuro. Como interpreta essa aparente clivagem entre duas áreas que afetivamente lhe são tão próximas?
Como temas, eu comecei com o passado, os meus dois primeiros romances tratam a Grande Guerra e o século XV português.
Em relação ao estilo, não creio que exista uma clivagem, bem pelo contrário. A maneira como me organizo mentalmente quando escrevo ficção remete-me para uma abordagem intelectual intrínseca à arqueologia. Numa escavação arqueológica, a flecha do tempo desce do presente para o passado. Nas nossas vidas, essa flecha sobe do presente para o futuro. Eu passei anos e anos a escavar, por isso sinto-me confortável em todas essas dimensões temporais, tanto no tempo descendente como no tempo ascendente. A investigação arqueológica funciona como um puzzle e, sendo essa a minha formação universitária e profissional, receio ter passado esse "estilo cientifico" para os romances que escrevo.
A sua participação no festival Littératures Européennes Cognac vai assentar em grande parte no contacto com leitores ao longo de um mês. Quão distantes estamos ainda hoje em Portugal dessa democratização plena da literatura e da leitura?
As diferenças são abissais. Acabei, por exemplo, de ser convidado para ir falar com os leitores de uma biblioteca municipal francesa. No primeiro contacto, por email, perguntam-me logo quanto dinheiro cobro, pagamentos que estão definidos por lei. Um evento numa biblioteca, por exemplo, oscila entre os 250 e os 300 euros. Esta realidade é o fruto da luta dos autores franceses e das associações que os representam.
Em Portugal, nós vemos os escritores portugueses chateados e zangados por não serem convidados para irem trabalhar de borla para eventos de contacto com o público leitor, mas não dirigem essa fúria para quem tem o dever de regularizar essa situação, ou seja o Estado.
Qual foi o autor português que, reclamando apenas que lhe paguem a deslocação, nunca ouviu: "mas este evento é bom para se autopromoverem". É essa a desculpa esfarrapada de um meio totalmente desregulamentado em que o autor é obrigado a andar a mendigar. Ora isso é um contrassenso. Ninguém contrata um músico para ir cantar de borla. As apresentações de livros em Portugal, as presenças nas Feiras do Livro funcionam, na verdade, como meras feiras de vaidade, pois, em Portugal, escrever um livro, e isso é outro atavismo, é uma questão de prestígio, daí o sucesso fulgurante das chamadas 'vanity presses'. Já em França ir falar com o público é um trabalho que deve ser pago. Eu publico há 10 anos e das poucas vezes que fui pago foi para ir falar com portugueses a viverem no estrangeiro.
Falemos do caso do mês de residência literária que vou passar em Cognac e que antecede o Festival de Littératures Européennes Cognac. Além da estadia e das despesas pagas, os organizadores pagam-me um "salário" a sério, longe de ser simbólico, para lá ficar a trabalhar. Um trabalho que inclui escrever e alguns encontros com o público. Quando digo que falta mundo à elite cultural portuguesa é também disto que falo, falta-lhe o espírito de combate, de reivindicação, que faz da França um país muito mais avançado nestas matérias de como viver da cultura com dignidade.
O seu romance mais recente, "Zalatune", de 2021, mostra-nos um futuro perturbador, em que os políticos são filmados 24 horas por dia e os cidadãos decidem o futuro do país em referendos online, na mesma lógica de um programa televisivo. Estamos menos distantes desse cenário do que poderia parecer?
A nível de temáticas, creio que o "Zalatune" é o meu romance mais realista. Existem três eixos essenciais nesse romance. Primeiro, os partidos e movimentos populistas que utilizam a internet, as redes sociais e os reality shows para manipular e alienar as massas. Segundo, as alterações climáticas representadas pela ilha que se afunda e que coloca o nosso planeta à beira do abismo. E, terceiro, a tendência atual para o surgimento de regimes racistas e ultranacionalistas que veem na Teoria da Grande Substituição - sempre na ordem do dia aqui em França - uma verdade indesmentível quando é, na realidade, uma conspiração mentirosa. A meu ver, estes são os três maiores perigos que as nossas sociedades enfrentam. "Zalatune" é o meu romance pós-apocalíptico que foi lançado num ano de pré-apocalipse.
Há uma série de ameaças, dos fundamentalismos às perdas de direitos, que atravessam os seus livros. Escreve para expulsar os seus medos?
Escrevo essencialmente para me organizar mentalmente perante os desafios futuros que me inquietam. Por isso, sim, os meus medos estão na base daquilo que escrevo.
Encontramos ecos de George Orwell, José Saramago ou Michel Houellebecq na problematização que os seus livros encerram. Estão entre os seus autores incontornáveis?
Li esses autores, claro, e se procurar bem consigo encontrar esses tais ecos, mas não diria que são para mim autores incontornáveis. Li Orwell e Saramago na adolescência e Houellebecq mais tarde. Porém, quando se lê tanto como eu faço, até por culpa da minha profissão, é muito difícil encontrar autores que funcionem para mim como fósseis diretores literários.
A literatura parece ter perdido espaço de debate nos últimos anos, com a transferência da discussão (mesmo que superficial ou polarizada) para as redes sociais. O que perdemos com essa transformação?
Sim, os intelectuais, de uma maneira geral, foram banidos dos espaços de debate em Portugal e, a um nível inferior, em França. E esses espaços de debate foram substituídos por espaços de opinião sem direito a contraditório e quase sempre protagonizados por carreiristas na política e todos seguindo a mesma linha ideológica. O que é, convenhamos, a negação da democracia e a apologia da lavagem cerebral. As populações percebem isso, claro, e depois viram-se contra os órgãos de comunicação social responsáveis por passarem todos a mesma narrativa hegemónica.
Mas eu não responsabilizo as redes sociais por isso. Elas têm o seu interesse até para combater as distâncias. As redes sociais, por exemplo, aproximam-me dos amigos e da vida que deixei em Portugal, e até podem, se bem utilizadas, potenciar o alcance da literatura. Eu tenho um programa de entrevistas na rádio e é verdade que as redes sociais me facilitam o trabalho.
Agora, essa transformação que refere, caso se faça um uso perverso das redes sociais, que certos movimentos políticos, através de mecanismos tecnológicos avançados, vão ensaiando, corremos o risco de perder as nossas democracias, que devem assentar na pluralidade de opiniões e na liberdade politica.
Em que sentido o espaço de debate e livre circulação de ideias assegurado pela literatura é insubstituível?
A literatura e a arte de uma forma geral são os principais instrumentos de liberdade de que dispõe a humanidade. Por alguma razão, os anos 1930 nazis foram passados a promover autos-da-fé dedicados a queimar livros.
O que espoleta geralmente em si o desejo de escrever um livro?
Eu escrevo para organizar dentro de mim a maneira como vejo e analiso o mundo. As nossas sociedades tornaram-se tão complexas que, pelo menos para mim, só um momento de profunda introspeção como aquele que passamos quando escrevemos um romance, durante meses a fio, me permite compreender o que se passa. E só compreendendo o que passa se poderá ter uma opinião sobre aquilo que se passa. O problema das nossas democracias é que existem demasiadas pessoas a emitir opiniões sobre aquilo que não compreendem. Faltam historiadores e filósofos a debater as problemáticas mundiais nas televisões.
A vontade efetiva de contar uma história está fortemente enraizada nos seus livros. Uma característica nem sempre representada na literatura portuguesa contemporânea, por vezes mais atenta à forma do que ao conteúdo.
Sim, como já o disse numa resposta anterior, esse é um dos atavismos que vitima a literatura portuguesa e a torna dificilmente exportável. O objetivo de muitos escritores portugueses não é o de contar uma história, é, sim, o de impressionar os pares pela sua extraordinária capacidade de juntar palavras em rendilhados e rodriguinhos. Afinal, Portugal é um país de poetas. Ora, rendilhados e rodriguinhos rococós qualquer um os tece. Já contar uma boa história, pertinente e que conduza à reflexão, à análise, ao mesmo que tempo que entretém o leitor? Isso é que é difícil.
À distância de mais de 1500 quilómetros, como vê o meio literário e editorial português?
Vejo-o com os olhos de quem não vive em Portugal e conhece outros meios editoriais que não apenas o português. Por isso, poderei correr o risco de fazer uma análise demasiado severa em relação a Portugal. Mas a verdade é que às vezes me parece que o nosso país é demasiado pequeno para uma língua tão grande. Esta sensação acentuou-se desde que eu e a minha amiga e escritora Gabriela Ruivo Trindade fundamos um coletivo chamado "Mapas do Confinamento".
De "O Soldado Sabino" até "Zalatune", os seus livros apresentam profundas diferenças entre si. Como descreveria a trajetória que os seus livros têm percorrido?
Eu optei por não me manter prisioneiro nem do mesmo género literário, nem das mesmas personagens, nem da mesma cronologia ou temática. Existem autores que passam a vida a reescrever o mesmo livro de maneiras diferentes ou até a continuarem 'ad nauseam' a explorar os mesmos protagonistas em séries que se arrastam. No meu caso, como a vida é curta e eu gosto de aprender coisas novas, vou saltando de época em época, de género em género. O percurso dos meu livros representam os meus interesses na época em que os escrevi. Do romance histórico à ficção científica, passando pela distopia, e do século XV ao ano 2034, passando pela Primeira Guerra Mundial.
A exploração das distopias é o caminho que quer continuar a percorrer?
Eu nunca pensei vir a escrever distopias. Com "O dia em que o sol se apagou" escrevi uma espécie de distopia medieval e depois disso ainda não parei. Realmente, a distopia e a sua capacidade de premonição e de antecipação são instrumentos fenomenais. Mas, por agora, acho que vou voltar ao registo histórico.
O seu futuro - literário e não só - passa por França?
A minha vida continuará dividida entre três países e quatro línguas. Um desses países é a França, uma sociedade que, apesar das suas contradições, eu aprendi a gostar, muito, e que, apesar de tudo, ainda é capaz de se alicerçar naquilo que eu mais valorizo, a igualdade, a liberdade e a fraternidade. É nesta sociedade multicultural que eu quero ver os meus filhos a crescer.
Já o meu futuro literário passa pela língua portuguesa, da qual eu sou um feliz cativo. É a minha língua, a língua com a qual eu sinto e, como sou de Matosinhos, digo os palavrões que me aliviam. O meu objetivo é continuar, pelo menos, a publicar em Portugal e em França. Vamos lá ver se consigo.
