Balanço

O melhor de 2020 nas artes plásticas

O melhor de 2020 nas artes plásticas

O artista Avelino Sá, a pintora Ana Vidigal e o galerista Nuno Centeno revelam as exposições que mais os inspiraram em 2020.

Das instituições de referência às galeria independentes geridas por artistas, de obras monumentais a recolhas históricas, de mostras no Porto e em Lisboa a apresentações essenciais salpicadas pelo país restante, três nomes incontornáveis das artes nacionais revelam os respetivos caminhos expositivos ao longo de 2020.

Fuck art, let's eat

Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante

Organizada pela Galeria Fernando Santos, a mostra reuniu obras de cerca de 30 artistas desafiados a produzirem trabalhos sob a temática da ligação entre arte e gastronomia, independentemente da sua visão acerca do tema, ou da técnica/ material utilizado. Partindo do denominador comum entre estas duas áreas - a criatividade - os artistas foram desafiados a dar a sua visão da gastronomia através da arte. Entre obras com referências diretas às naturezas mortas setecentistas e outras visões menos comuns, foi possível ver nesta mostra como diferentes artistas perceberam a temática e como a abordam.

A mostra contou com a presença de nomes maiores do panorama artístico nacional, naquela que será mais uma iniciativa acerca desta frutífera relação entre as duas áreas de criação.

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Deslaçar um tormento

Louise Bourgeois

Museu de Serralves, Porto

Uma das artistas mais importantes do século XX e do início do século XXI, que nos mostra esculturas, livros, desenhos, têxteis e instalações arquitetónicas, onde a confrontação dos opostos se torna evidente - masculino/feminino, passivo/ativo, arquitectura/corpo, amor/ódio. O seu trabalho exprime emoções universais. O impacto das nossas interações com os outros reflete-se nas suas obras, obrigando o observador a confrontar-se com as suas emoções.

Traumas de infância, a figura do pai e da mãe e a oposição entre os sexos são temas presentes nesta mostra a não perder, que uma das mais originas e influentes artistas do Mundo, numa rara oportunidade, nos dá a pensar. Círculos, espirais, serpentes, árvores e flores, fios que enrolam e desenrolam as recordações da sua infância, são registados como notas de música no seu imaginário.

Descontinuando

Nikias Skapinakis

Galeria Fernando Santos, Porto

Pinturas a preto e branco e a cores ou a pintura como pensamento. Uma das imperdíveis exposições de 2020.

O virtuosismo técnico aliado à delicadeza dos motivos convive com igual intensidade no figurativo e no abstrato da obra de Nikias, um nome incontornável da arte dos séculos XX e XXI.

"Descontinuando", a última exposição em vida do artista, não nos deixou indiferentes. Óleos e desenhos a preto e branco intervalam o cromatismo que identifica o seu trabalho que teve início nos anos 50.

Nesta exposição Nikias limpa tudo o que é acessório, que distrai a contemplação do essencial e retira-lhe tudo o que é artificio, a cor, dando-nos a ver pinturas sóbrias que guardam apenas a presença dos gestos essenciais. "No final, é o tempo que gere a contemporaneidade."

Lanhaslândia

Fernando Lanhas

Galeria Quadrado Azul, Porto

Fernando Lanhas, conhecido como o percursor do abstracionismo em Portugal, cuja cartografia nos conduz pela arquitetura, cosmologia, astronomia, arqueologia, museologia, poesia e arte.

Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez (MvHP), esta magnifica exposição mostra-nos entre muitas outras coisas o fazer artístico e a constante curiosidade estética e cientifica patentes em desenhos inéditos, pinturas raramente vistas, seixos pintados, sonhos fotocopiados, anedotas publicadas n'"O Primeiro de Janeiro" entre 1946 e 1950, etc.

"O Lanhas que toca, mede, mapeia e divulga. O Lanhas que levita na ação poética, no escrutínio plástico, na densidade quase minimal da palavra precisa, da pintura elementar, rigorosa e modernamente universal." (MvHP)

Na sua busca incessante pelas origens coloca-nos perante a sua própria interrogação: "O que é isto tudo?"

A roving gaze - Um olhar inquieto

Cabrita

Museu de Serralves, Porto

Uma única obra de grande escala e forte pendor autobiográfico. Uma instalação composta por 100 estruturas metálicas que suportam objetos, documentos, desenhos, fotografias de obras de sua autoria desde 1999 e dispostos labirinticamente no espaço.

Trata-se de uma obra única que convoca uma multiplicidade de momentos e coisas, uma revisitação intensa, labiríntica e caótica de um conjunto de referências que o artista foi guardando ao longo do tempo, "um convite ao visitante para um caminho sem destino".

Com curadoria de Marta Almeida, é talvez a exposição mais insólita e extraordinária de 2020. Um verdadeiro labirinto de informação. Cada objeto está carregado de poesia e conta uma parte da história da vida de Cabrita Reis. "Nenhuma obra de arte nasce de algo que não seja a experiência de vida do artista".

Válido para todas as minhas escolhas: eu sou uma pintora e não crítica de arte. Dito isto:

A exposição do Gabriel (Abrantes), Melancolia programada (no MAAT, em LIsboa), pela inteligência da interligação entre o cinema e a pintura. A maravilhosa capacidade de fundir em termos imagéticos e formais Paul Cézanne e a "Rua Sésamo". A utilização de técnicas digitais que resultam na execução clássica da pintura.

A exposição da Gabriela (Albergaria) na Culturgest, em Lisboa, A natureza detesta linhas retas. A coerência de um percurso. O prazer de ver num só espaço obras que só conhecia individualmente ou por reprodução. Alguém com uma fortíssima consciência do presente palpável, buscando soluções para um futuro incerto, que a arte tenta modificar.

A exposição do Hugo (Brazão), Out of sight out of mind, (na Balcony, em Lisboa), pelo deleite visual da forma. A plasticidade dos materiais utilizados, a leveza dos panos numa forte capacidade mental de fundir a mensagem com a imagem. Uma luz ao fundo do túnel em tempos tão conturbados.

A exposição do Pedro (Casqueiro), "Pinturas Rupestres" na Galeria Miguel Nabinho, em Lisboa. O saber da pintura. Porque é sempre um prazer observar (e aprender) com aquele que considero o melhor pintor português da geração de 80, que vai mostrando que a pintura é um continuar de aprendizagem, construída com labor e perseverança, fiel a um principio, neste caso talvez ao prazer de executar.

A exposicão do Nuno (Nunes-Ferreira) A palavra, no Convento de São Francisco em Coimbra, que não consegui ver ao vivo, mas acompanhei todo o processo criativo. O rigor histórico, o rigor estético, a solidão do trabalho individual sobre a comunicação coletiva (as palavras). A contextualização da língua portuguesa no imagético estético da arte contemporânea, a simplicidade de conjuntos de letras que explodem e ocupam totalmente um gigantesco espaço físico.

1. O sol não se move, capitulo 35
R.H. Quaytman
Museu de Serralves, Porto
16 de outubro 2020 - 21 de fevereiro 2021
Uma das melhores exposições que vi sobre a prática da pintura e a forma como nós nos relacionamos com a imagem. O espaço onde a imagem surge, a arquitetura e o campo aberto de possibilidades para a pintura de hoje, esta exposição é muito coerente e sensorialmente estimulante. Visita obrigatória!

2. Que horas são que horas: uma galeria de histórias
Uma exposição sobre a paisagem histórica das galerias de arte no Porto
Galeria Municipal do Porto
Curadoria: José Maia, Paula Parente Pinto, Paulo Mendes
17 de dezembro 2020 - 14 de fevereiro 2021
Esta é uma interessante e importante exposição que analisa os últimos anos das galerias de arte na cidade do Porto. Serve como ponto de partida a futuras exposições ou estudos sobre o tema. As galerias de arte desempenham um importante papel na construção de memoria cultural da cidade.


3. Terra quente
Artistas: Sara Rodrigues com Rodrigo B. Camacho
Sismógrafo, Porto
17 de outubro 2020 - 14 de novembro 2020
Sobre o espaço: plataforma independente gerida por artistas e curadores
Uma inteligente exposição de dois artistas jovens que através de uma plasticidade visual, física, sonora e conceptual têm vindo a explorar mecanismos de interceção entre humanos e os seus ecossistemas - micro e macro - questionando as várias formas de poder e controlo que materializam o mundo atual.

4. A imagem, ai a imagem
Tiago Afonso
Uma Certa Falta de Coerência, Porto
10 de julho, 2020 - 2 de agosto, 2020
Sobre o espaço: plataforma independente gerida por dois artistas
Num dos mais carismáticos espaços independentes da cidade, o artista/cineasta Tiago Afonso apresenta obras de cariz autobiográfico e experimental. Uma exposição marcante que nos fala sobre as suas próprias obras e cria uma ponte entre o seu processo de criação e, aquilo que é feito no cinema.


5. a room, two rooms
Ana Manso e Max Ruf
Kunsthalle Freeport, Porto
16 de outubro, 2020 - 30 de novembro, 2020
Sobre o espaço: plataforma independente gerida por um artista
Em volta da Kunsthalle Freeport tocam bandas de vários géneros musicais. A exposição faz-nos parar e apresenta-nos uma proposta sobre pintura, a forma de construir a imagem, a simplicidade do olhar e que através da seleção das obras refelete sobre a intensidade e potencialidades do espaço.

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