
Crónicas de Gonçalo M. Tavares foram originalmente publicadas em 15 jornais de todo o Mundo
Filipe Amorim/Global Imagens
Gonçalo M. Tavares relata os primeiros meses da pandemia num "Diário da peste" que sintetiza a complexidade das emoções e estados de espírito causada pela covid-19. Um livro tão perturbador quanto lúcido.
Há 299 anos, Daniel Defoe relatava o cenário apocalíptico provocado por uma peste que, em 1665, ceifou 200 mil vidas só na capital inglesa. Entrelaçando acontecimentos reais e ficção, o escritor inglês encetou uma abordagem da qual Gonçalo M. Tavares se distanciou em absoluto no seu mais recente livro, partilhando apenas semelhanças no título.
Se Defoe partia da realidade para efabular, ainda que com o propósito de retratar de forma fidedigna essa tumultuosa época, no caso de Tavares, pelo contrário, é o quotidiano em estado bruto que nos é dado a observar de um modo tão torrencial quanto absorvente.
Sentindo-se "bombardeado por bombardeiro nenhum", o autor de "O osso do meio" foi mais um dos biliões de seres que, há menos de um ano e meio, viram a sua tranquilidade abalada por um inimigo invisível.
A escrita foi a solução imediata que encontrou para não soçobrar ao impacto inicial. Mais do que uma simples resposta ao que se desenrolava sob os seus olhos, a escrita afigurou-se uma "necessidade", um modo de expurgar a tensão e a dúvida suscitadas por tamanho cataclismo.
Cada uma das 90 entradas do diário, correspondente a outros tantos dias, é, pois, uma imersão num planeta que vai assistindo, atónito, ao avanço galopante de uma epidemia que rapidamente se transforma em pandemia, ao tornar-se global.
Sem cair nos postulados ou em julgamentos de qualquer ordem, Gonçalo M. Tavares vai desfiando, sempre num ritmo contínuo, notícias soltas, fragmentos residuais mas reveladores "que captam a eletricidade, meio demoníaca" desses dias, semanas e meses.
A velocidade a que circulam as informações, num rodopio que não dá sinais de cansaço e chega até aos lugares mais recônditos, só é ultrapassada pela escalada assustadora de internados e mortos, seres humanos que serão sempre mais do que números de estatísticas frias e desprovidas de sentido.
Perante sociedades em ebulição, esboços de desordem que ameaçam alastrar-se sem fim, Tavares socorre-se da História, relembrando Walter Benjamin: "A salvação agarra-se à pequena fissura na catástrofe contínua".
É nessa ínfima reentrância que vai entrando a quantidade certa de luz que ilumina estes diários, sob a forma de casos de bravura ou humanidade, em contraponto com as sombras quase gerais.
