Companhia dos Livros

Olhar para o interior é vislumbrar o infinito

Olhar para o interior é vislumbrar o infinito

"Rezar de olhos abertos" assinala regresso do cardeal e poeta José Tolentino Mendonça aos livros. "Um caderno de práticas de oração" que extravasa em muito o campo religioso.

É em nome da superação de todos os atavismos ou condicionalismos associados ao ato de rezar que Tolentino Mendonça escreveu o seu mais recente livro. Afinal, ao contrário do que nos asseguram quase todos os dicionários com a sua impessoalidade habitual, rezar não tem que ser apenas "um pedido dirigido a uma divindade ou santo".

Em vez das preces e súplicas que nos habituámos a associar à reza, o poeta e cardeal aponta-nos uma via mais ampla e enriquecedora, assente tanto no diálogo como na partilha.

Para tal, é preciso resgatá-la para o quotidiano e elevá-la a um lugar no qual a contemplação não exclui a ação.

"A oração faz-nos passar de falantes a experimentadores; de geógrafos a viajantes; de sedentários a parágrafos", escreve o autor de "O viajante sem sono", convicto de que "tudo está destinado a ser superado e esquecido, exceto os teus passos na nossa direção".


Por detrás da brevidade de cada um dos textos reunidos no livro esconde-se uma profundidade que suscita a reflexão. Seja sob a importância do recomeço, a necessidade da entrega ou o dom da compaixão.

Em todas estas minúsculas peças de oratória, espoletadas por um livro, uma canção ou um acontecimento solto do quotidiano, há sempre uma interpelação do divino enquanto entidade concreta, muito distante da abstração omnipotente com que tantas e tantas vezes o vemos ou encaramos.

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Neste "caderno de práticas da oração", Tolentino reconhece que, na era da técnica, o ato de rezar pressupõe uma desaceleração de que nem sempre estamos dispostos a abdicar. Primeiro, porque implica que desviemos o olhar, distraído por múltiplas atenções, e o foquemos num único ponto. Mas também porque essa reza, litúrgica ou não, implica um recolhimento ou introspeção que comporta riscos vários. A começar pelo que está associado ao ato de olharmos para o interior de nós próprios e não apreciarmos o que ali se encontra exposto.

A vida, com os seus constantes "altos e baixos", vai assomando com regularidade por entre estas orações. É nelas que encontramos os desejos de comunhão com o que nos rodeia, da natureza à família, como os momentos de dúvida, fadiga e desânimo. Nessas alturas, a oração revela-se como "a nossa necessidade de consolação", o instante que se espraia até ao infinito.

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