Literatura

Penafiel, uma cidade feita de palavras

Penafiel, uma cidade feita de palavras

Manuel Alegre é o autor em destaque na 12.ª edição do Escritaria, que decorre entre esta segunda-feira e domingo. Ao JN, o poeta diz-se "comovido" com a homenagem.

Quando, há 54 anos, publicou "A praça da canção", Manuel Alegre não imaginaria que os seus poemas circulariam clandestinamente de mão em mão, como alimento secreto de quem não exigia menos do que a liberdade e o fim das injustiças por parte de um regime especializado no opróbrio.

Hoje, é toda uma cidade - e não apenas as praças - que vai celebrar a sua vida e obra. Entre hoje e o próximo domingo, Penafiel traja as palavras do Prémio Camões, na 12ª edição do festival literário Escritaria.

"Comovido" com a homenagem, Alegre diz-se também "curioso" com o que vai encontrar. Embora nunca tenha participado no evento, os ecos que lhe chegaram foram os melhores. Ou não se tratasse "do único festival exclusivamente dedicado a um autor".

Se hoje já não está em causa o risco de apreensão dos livros, como sucedeu consigo e muitos outros autores, nem por isso a poesia deixou de ser "um lugar de resistência". O risco, alerta, continua à espreita. "Há uma subliteratura que está a afetar a verdadeira. As televisões têm uma grande responsabilidade nisso. Gosto muito de futebol jogado, mas é um exagero a importância que lhe dão. Hoje, os Vitorinos Nemésios são comentadores da bola", assevera.

No último par de anos, as homenagens ao autor de "O canto e as armas" multiplicaram-se um pouco por todo o território nacional. Além de galardões vários, municípios como Tomar, Matosinhos e Foz Côa prestaram-lhe tributos que vê, antes de mais, como "um reconforto". "São iniciativas deste género que divulgam a literatura e os nossos autores. Quem não garante que daqui não possam sair novos leitores daqui a alguns anos?", indaga o escritor, de 83 anos.

Uma cidade alegre

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Em Penafiel, ultimam-se os pormenores para acolher o poeta. Nas últimas (largas) semanas, alunos de diferentes graus de ensino do concelho mergulharam nos poemas e nos livros de Manuel Alegre, interpretando-os sob uma variedade de formas. Através de representações teatrais, arte pública ou poemas.

"O Escritaria cada vez mais é de todos, e não apenas dos mais eruditos. São os próprios lojistas que agora vêm ter connosco para colocar os livros dos autores nas montras", exemplifica Susana Oliveira, vereadora da Cultura da autarquia.

Uma das novidades desta edição é a itinerância da Biliomóvel, biblioteca em movimento que vai desenvolver várias atividades culturais com os habitantes dos bairros sociais do concelho. É esse o caso de "Uma casa feita de mãos", um projeto do Bairro dos Livros que parte de alguns versos do poeta ("não são de pedra estas casas/mas de mãos"). Os construtores desta instalação artística vão ser os habitantes do bairro Fonte da Cruz, cujas mãos vão servir para se fazer "uma casa tridimensional e iluminada".

Além de "inclusiva", o Escritaria é também uma "festa das artes" que, embora vise "aproximar a comunidade dos livros", como salienta a vereadora, quer "reinventar-se edição após edição". "O desafio é cada vez mais difícil. Queremos manter a nossa matriz de afetos, mas também inovar e criar em permanência para que haja sempre novos motivos de ir a Penafiel todos os anos", reforça.

Segunda-feira e terça-feira - Além da deslocação de autores como Rui Zink a escolas do concelho, está previsto um encontro entre poetas da região.

Quarta-feira, dia 23 - No dia da chegada de Manuel Alegre, é revelada ao público a arte pública feita em sua honra.

Quinta-feira, dia 24 - O dia é marcado pela deslocação do homenageado a escolas do concelho.

Sexta-feira, dia 25 - O principal atrativo é uma entrevista do jornalista Fernando Alves a Manuel Alegre.

Sábado, dia 26 - Sessão de apresentação do volume que reúne os sonetos do autor.

Domingo, dia 27 - Especialistas na obra de Alegre protagonizam uma sessão no museu.

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