Cultura

Plano Nacional das Artes será alargado às universidades

Plano Nacional das Artes será alargado às universidades

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, assumiu, esta sexta-feira, o compromisso de alargar o Plano Nacional das Artes (PNA) ao ensino superior. A cultura deve estar presente em todas as fases da educação dos alunos, defendeu. Mas a maior lição chegou mesmo de França e do Brasil.

De França nenhum aluno sai sem saber quem é François Truffaut, sem desenvover o gosto pela ópera e sem saber cozinhar um prato típico de cuisine française. No Brasil, quanto mais frequentar atividades culturais, mais créditos terá um estudante no currículo. E em Portugal? Que motivação têm os alunos para enriquecerem a sua bagagem? Que estímulo lhes é dado no ensino superior para se relacionarem com a cultura? Estas e outras questões foram debatidas esta sexta-feira na Universidade do Porto.

O Plano Nacional das Artes (PNA), começou por notar a ministra da cultura portuguesa, Graça Fonseca, "está a transformar o ensino da componente cultural e artística nas escolas. Dando o natural seguimento a este projeto, e como prova do trabalho de excelência que tem sido desenvolvido, o nosso compromisso é alargar o PNA ao ensino superior, garantindo que a cultura é uma presença permanente e ativa em todas as fases da educação e da formação dos nossos alunos", anunciou a resposnável durante a sua intervenção no "Encontro Nacional Universidade e Cultura #1", num webinar internacional organizado pelo Plano Nacional das Artes e pela Universidade do Porto.

A ministra destacou "a cultura como um fator de desenvolvimento humano, social e educativo, salientando que o objetivo último das políticas culturais é "aproximar territórios, condições sociais e níveis de fruição cultural". Nesse território, o PNA desempenha um papel fulcral, tornando a arte mais acessível aos cidadãos, numa lógica de inclusão.

Graça Fonseca assegurou que "é fundamental promover uma maior aproximação da Universidade à cultura e às artes, através da implantação de planos de ação cultural alicerçados em estratégias de programação cultural".

"Este compromisso do PNA com a Universidade tem como fito a valorização da cultura no percurso académico dos estudantes, incrementando a mundividência cultural dos mesmos e distinguindo, de uma forma positiva, os seus atributos e competências, promovendo também a sua empregabilidade", observou.

Para a ministra da Cultura, o PNA tem tido um papel de liderança, assumindo, desde o seu lançamento, uma colaboração ativa com diversas instituições de ensino superior, um pouco por todo o país e nas mais diversas áreas.

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SEguram-se os exemplos: foi contratualizado um estudo prévio com o Observatório Português das Atividades Culturais do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, para definição dos critérios e do modelo de aferição do impacto cultural das organizações.

Foi também assinado um protocolo entre o PNA e a Universidade do Minho, para estruturação de um modelo base que permita alavancar, os Planos Estratégicos Municipais de Cultura e Educação.

Graça Fonseca salientou ainda a cooperação com a Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha para operacionalização, nos agrupamentos escolares da área de influência do Instituto Politécnico de Leiria, da "Medida Artista Residente", a qual promove a deslocação e contacto regular do artista com a escola, de modo a introduzir processos e práticas artísticas no currículo.

Reitor quer recuperar comissão especializada de Cultura

António de Sousa Pereira, reitor da Universidade do Porto, e presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) salientou que a cultura permite desenvolvimentos de competências cognitivas essenciais" e que, portanto, "não pode estar à margem dos estudos universitários".

António de Sousa Pereira anunciou, na webinar, que irá "propor a reconstituição da comissão especializada de cultura do CRUP de forma a promover maior coordenação e complementaridade das diferentes universidades públicas".

Há um conjunto de programas de cultura e dinamização cultural e por isso o desafio que acaba de ser feito pelo reitor é importante para valorizar esses programas, no âmbito da realidade do PNA.

Manuel Heitor defende "formação humanista"

Manuel Heitor, ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior lembrou que " há, ainda hoje, muitos estudantes universitários que têm apenas contactos esporádicos com as demais intervenções nas artes, quer nas artes performativas, quer na pintura ou a escultura e este é um desafio intelectual e conceptual". O governante salientou a importância da " criatividade nas ciências, ou nas tecnologias ou nas ciências de saúde ganha muito de uma cultura mais abrangente" .

E constatou que "o ensino, nos últimos anos, tem estado associado a uma especialização do conhecimento que tendeu a verticalizar e a criar barreiras importantes entre as duas culturas. Adotar uma formação integra e humanista é particularmente urgente e importante", destacou.

O desafio é complexo e leva "as Universidades a pôr no seu currículo flexível que integre uma parte de participação cultural, nas várias dimensões", acrescentou o responsável. E deu um exemplo: "ontem estive na Federação Académica do Porto (FAP), que tem uma ação colaborativa com o Museu de Serralves, para ter obras de arte e simpósios e visitei obras na Faculdade de Economia e de Farmácia".

Manuel Heitor lançou o desafio de "mobilizar esses esforços, durante a Presidência portuguesa da União europeia, no primeiro semestre de 2021, para que no quadro que são as várias redes, onde estão as universidades europeias e as portuguesas incluídas, realizar-se uma ação mobilizadora para estimular a cultura e a dimensão no âmbito europeu", explicou. E adiantou que já passou a ideia à comissária da Ciência, Inovação, Juventude e Cultura, Mariya Gabriel.

Os exemplos que chegam de França e do Brasil

Emmanuel Ethis, Reitor da Academia de Rennes, em França, e Fernando Mencarelli, diretor de Ação Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, mostraram os exemplos das suas realidades. Emmanuel Ethis explicou que "um dos grandes atrativos de uma Universidade para cativar estudantes tem de ser o seu polo cultural, que se mede desde as ações até às bibliotecas".

E explicou que, em França, a empregabilidade está muito relacionada com a frequência cultural. Um candidato é altamente valorizado pela cultura, não só no emprego, mas também na progressão académica de graus, como por exemplo a conclusão do mestrado.

O responsável explicou também que a política cultural das universidades está muito bem definida. Outro aspecto igualmente valorizado é o facto de os alunos escolherem frequentar um semestre no estrangeiro. Essa preocupação é uma estrada de dois sentidos. Quando um estrangeiro vai para a Universidade, em Rennes tem acesso a uma espécie de "kit cultural". E garante: "É impensável pensar que alguém está cá e não vai à Ópera, não sabe cozinhar um prato da gastronomia francesa ou vai embora sem saber quem foi François Truffaut", explicou.

Paulo Pires do Vale, responsável pelo PNA português, enalteceu o plano brasileiro, que teve oportunidade de conhecer em 2019, quando foi ao Brasil apresentar o PNA português. "O plano tem uma rede de departamentos da cultura e faz pensamento estratégico de abrir o campo, nesta área, algo que podíamos fazer em Portugal", sugeriu.

Fernando Mencarelli explicou que no Brasil existe também o FORCULT -Fórum Nacional de Gestão Cultural das Instituições de Ensino Superior Brasileiras que reuniu, em setembro, 87 universidades brasileiras, na criação de uma política cultural para as universidades.

A ideia de corredor da cultura nacional que os brasileiros utilizam foi muito elogiada por Fátima Vieira, vice-reitora da Universidade do Porto, que disse querer importar a ideia. Outra ideia inovadora apresentada pelo Brasil foi a criação de um passaporte de fruição cultural: os alunos ganham créditos académicos por participarem em eventos.

Paulo Pires do Vale reagiu. "Abrimos muitos caminhos e as perspetivas que daqui saem, para o ensino superior e a cultura. É escutar o que já se faz e trabalhar a partir daí".

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