Cinema

Quem roubou a felicidade ao "rapaz mais bonito do mundo"?

Quem roubou a felicidade ao "rapaz mais bonito do mundo"?

Cinquenta anos depois da estreia de "A Morte em Veneza", o documentário que estreou este mês no Festival de Sundance relata a história triste de Björn Andrésen, o rapaz que Visconti considerou "o mais bonito do mundo".

Luchino Visconti procurava insistentemente o seu Tadzio, o rapaz de um dos maiores livros de Thomas Mann, a representação da beleza absoluta, um jovem frio como uma estátua, mas cujos olhos cor de água seriam o caminho para a ruína intelectual do protagonista. Obcecado pela história de "A Morte em Veneza", o realizador italiano procurou-o em vários países, Hungria, Polónia, Finlândia. Encontrou em Estocolmo em 1970.

O rapaz foi o quinto ou o sexto candidato a entrar na sala. Era mais velho que o pretendido, tinha 15 anos, e também era mais alto. Mas Visconti viu-o e não hesitou, era aquele. "Não tive dúvidas", confessaria, um ano depois, na estreia do filme no festival de Cannes. Era tão perfeito que um minuto depois do início do casting pediu-lhe para se despir para a câmara.

O documentário "O menino mais bonito do mundo" começa precisamente com estas imagens. O filme estreou no festival de Sundance, que decorre até quinta-feira, 3 de fevereiro, apenas em versão online.

Björn Andrésen tem agora 66 anos, é um homem magro de cabelos longos e barba branca, ainda não e capaz de olhar diretamente para a câmara. Aliás, os diretores Kristina Lindström e Kristian Petri demoraram cinco anos a ganhar a confiança do ator sueco.

Das imagens do casting daquele jovem de 15 anos, o documentário salta para o seu apartamento atual, em Estocolmo, uma casa suja, velha e pequena. Enfrentando o síndrome de Diógenes (negligência consigo próprio, incluindo a higiene), Andrésen está prestes a ser despejado. É a namorada quem acaba por salvá-lo mais uma vez.

Os realizadores do documentário quiserem saber de que forma "A Morte em Veneza" lhe roubou a felicidade, destruindo-lhe a vida. "O circo", diz Björn, começou na estreia, em Cannes. "Eu estava com medo, os jornalistas pareciam morcegos à minha volta." Depois da exibição do filme, foi levado para uma festa gay. "Só me lembro das paredes de veludo vermelho, da tinta preta brilhante, das línguas vorazes ...". Naquela noite, lembra, bebeu até conseguir deixar de se sentir um pedaço de carne, um estranho objeto de desejo, não se lembra como voltou para o hotel.

PUB

O realizador do documentário admite que, no início, Björn não queria colaborar, nem que a história fosse contada. Não é uma história feliz. "Mas depois entendeu que não queríamos fazer um documentário convencional, viu aqui uma oportunidade de finalmente contar sua versão. Queríamos fazer o filme com ele, não sobre ele."

O documentário exibe imagens privadas e imagens de arquivo público, imagens das filmagens do filme e imagens da referida conferência de imprensa em Cannes, e ainda imagens da digressão pelo Japão, onde diz ter sido drogado durante semanas, para aguentar a maratona de fotografias, entrevistas e programas de televisão.

A narrativa que agora é contada acaba por ser quase um thriller, escreve Irene Crespo, no diário espanhol "El País". "Não é apenas um apelo contra a objetificação e desumanização de um jovem, ou um relato sobre as consequências sombrias de uma fama repentina. É uma procura pela verdade e pela identidade desse homem que viveu fechado sobre si mesmo durante vários anos." Afinal, continua, "aquele olhar frágil pelo qual Visconti se apaixonou era apenas o olhar de um menino que sofria com a morte da mãe e com a obsessão da avó, que insistia em fazer dele um ator famoso, quando a sua verdadeira paixão era outra: a música".

Björn Andrésen aceita regressar a todos os lugares que o magoaram; ao Japão, a Paris (onde foi tratado como "objeto sexual" durante um ano, esperando que Malcolm Leigh fizesse um filme que nunca aconteceu), aVeneza, onde conhece Tadzio cara a cara, naquela praia do Lido, frente ao mar Adriático, para se despedir dele.

Hoje Björn Andrésen está em paz com tudo o que viveu e voltou a trabalhar regularmente no cinema e na televisão: com o thriller de Ari Aster, "Midsommar" (2019), recuperou a atenção que nunca procurou.

"Apesar de estarmos separados, estamos destinados a ficar juntos", disse a voz de Robert Redford no vídeo de apresentação do Sundance na sexta-feira passada. O ator de 84 anos, que há dois anos não aparecia na abertura do festival que fundou em 1978, também não quis aparecer fisicamente desta vez. O festival de cinema independente decorre apenas online.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG