Eduardo Lourenço

Manuel Maria Carrilho: "Repensar ou impensar Portugal?"

Manuel Maria Carrilho: "Repensar ou impensar Portugal?"

Manuel Maria Carrilho escreve sobre a "leitura indiscutivelmente original da história de Portugal" feita por Eduardo Lourenço, de quem o filósofo e antigo ministro da Cultura "divergia com prazer".

Texto de Manuel Maria Carrilho

Discordámos sempre. E em quase tudo, da leitura da história de Portugal à interpretação de Pessoa, das bases da sua sui generis psico-análise ao papel do estruturalismo (e em particular da dupla Foucault/ Deleuze), do seu enfoque numa certa bipolaridade matricial do "homem português" aos palpites (e foram tantos!...) sobre o período que se abriu em 1974.

Lourenço criava, na verdade indiferente a quase tudo, o seu próprio labirinto, que viria a fazer a sua "fortuna e a inspirar-lhe o seu texto maior, "O Labirinto da Saudade", em 1978, que é o que no momento da sua partida eu quero lembrar.

Discordávamos, mas era uma conversa que valia sempre a pena, porque Lourenço combinava talentosamente uma tão rara como sólida formação filosófica - bem demonstrada nos seus dois livros, de 1949 e de 1967, sobre o espírito da heterodoxia - com uma atenção aos acontecimentos do seu tempo, ou melhor, aos sinais que esses eventos, na sua variedade tantas vezes caótica, a seu ver anunciavam.

Lourenço identificou-se desde cedo com um imperativo, o de pensar Portugal, repensando-o. O ponto de partida estava já inscrito no primeiro dos seus livros, de 1949, onde se podia ler, no corajoso diagnóstico sobre Portugal que infelizmente resistiu às várias décadas que se lhe seguiram, que «o mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular.

Passando à margem dos três decisivos acontecimentos espirituais da idade moderna - a cisão religiosa das reformas, a criação da físico-matemática e a filosofia cartesiana -, a nossa cultura dos séculos XV e XVI perdeu o que tinha de vivo e prometedor, para conservar apenas o comentarismo ruminante e estéril, do qual aliás jamais se libertará completamente, mesmo nas suas horas mais felizes.»

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Assim era e, em boa medida, assim continua a ser. O que Lourenço em rigor não lamentava, ele via antes este facto como uma confirmação da sua peculiar visão de um Portugal nostálgico e atávico, visão a que procuraria dar uma forma estruturada na sua obra central, "O Labirinto da Saudade", livro que marcou o mundo cultural e político português de então, aparecendo como um desafio para, finalmente, se "Repensar Portugal".

Era esse o objetivo fundamental de "O Labirinto da Saudade", que assumia como subtítulo a reveladora frase Psicanálise mítica do Destino Português. O essencial da obra estava nos seus primeiros capítulos, apesar da importância do conjunto, e muito particularmente do seu devastador texto sobre António Sérgio como "mito cultural", uma das raras matérias em que sempre convergimos com prazer.

Mas "Repensar Portugal" não era uma exigência propriamente nova na história portuguesa. O que lhe deu então um novo élan foi a ruptura de Abril de 1974. E Eduardo Lourenço soube afirmar-se com uma apurada intuição nesta conjuntura, avançando com uma leitura indiscutivelmente original da história de Portugal, colocando - como diria Nietzsche - as questões mais profundas, mais severas e mais silenciadas.

E qual foi então a originalidade de Lourenço? Foi fazê-lo, não a partir de factos novos ou de uma re-interpretação de factos conhecidos, mas partir de textos literários, vendo neles as imagens de Portugal que foram sendo propostas através dos tempos, nomeadamente aquelas que alcançaram um estatuto de mito, e que, com metamorfoses várias, perduraram até hoje.

E fazendo-o também a partir de uma perspetiva que podemos chamar psico-histórica, na medida em que Eduardo Lourenço interroga as imagens com o objetivo de sondar os mais persistentes e mais constantes traços de um suposto «inconsciente» português.

Tratando-se mais de um inconsciente histórico-político do que psicológico, ou melhor, de um inconsciente político interpretado através de uma leitura psicológico-literária, não foi naturalmente na psicanálise que Lourenço se inspirou. A psicanálise não foi nunca para ele uma perspetiva, mas apenas uma referência.

O que é notável é que, embora com uma conceptualização pouco trabalhada, que no essencial cai dentro de um racionalismo relativamente banal, Lourenço tenha conseguido propor uma visão forte da história de Portugal, de uma espessura e exigência que ultrapassam o que o pensamento de esquerda tinha produzido, retirando ao mesmo tempo ao pensamento conservador um domínio indiscutido durante décadas sobre a temática da portugalidade.

Lamentando que os valores da "pátria", do "patriotismo", do "sentimento nacional", entre outros, tanto pelo seu teor afetivo como pela sua raiz dita irracional, não fossem tradicionalmente reivindicados pela Esquerda, Lourenço avançou com uma leitura da
nossa história de modo a tornar esses valores investíveis pela esquerda.

A «psicanálise mítica» aparece assim como uma espécie de desafio de trabalho histórico a fazer, procurando nas imagens que Portugal produziu de si mesmo na sua história as razões dos traços mais característicos da sua realidade actual. Imagens que, tendo uma forte componente passadista, só podem tecer estreitas relações com a saudade: o tempo que passou é que foi o tempo, nele havia grandeza, riqueza e saber.

Esta nostálgica relação com o tempo assim tornou-se indissociável das mais persistentes imagens de Portugal, tendo a saudade como que o seu constante pano de fundo.

O que Eduardo Lourenço propôs foi pois que se encarasse a nossa história de um modo inovador, que abrisse para perguntas inéditas: o que é uma imagem?, o que é que ela oculta?, o que é que ela revela ou suscita, etc. É nesse trabalho que consiste a
imagiologia, essa nova visão da história que combina o fundo psicológico de um povo com as imagens de recorte literário que ele suscitou, permitindo articular essas imagens «míticas» com os mecanismos e as estratégias de poder a que nunca foram alheias.

Em rigor "O Labirinto da Saudade", mais do que uma tese sobre Portugal e a sua história, é na verdade um discurso sobre Portugal: mais do que debatê-lo, ele deixa uma, mais uma imagem de Portugal - e o convite à sua desconstrução. Razão talvez pela qual nenhuma bandeira para "Repensar Portugal" se tenha erguido no seu lastro, multiplicando-se bloqueios que tomam hoje a forma de uma talvez ainda maior incapacidade de o país se pensar a si próprio, como uma inesperada consagração do que Lourenço não deixaria de colocar nos antípodas das suas ambições: a de um "Impensar Portugal" como a nova modalidade, a específica forma de nos confrontarmos hoje com o labirinto do nosso novo tempo.

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