Literatura

Richard Zenith: Biografia de Pessoa quer trazer aos leitores "experiência de convivência" com o poeta

Richard Zenith: Biografia de Pessoa quer trazer aos leitores "experiência de convivência" com o poeta

"Pessoa. Uma biografia", é editado na versão portuguesa a 19 de maio, dias depois de o livro ser revelado como finalista do prémio Pulitzer.

Tendo tido poucos amigos íntimos na sua vida, poucos que o conheciam verdadeiramente, Fernando Pessoa encontrou em Richard Zenith "um amigo póstumo", escrevia em 2021 o especialista em biografias Benjamin Moser em "The New York Times". Certo é que Zenith, escritor americano naturalizado português, seguiu e estudou Pessoa durante tanto tempo e tão a fundo que conseguiu revelar e chegar às diferentes camadas e detalhes da vida e obra pessoana como ninguém, criando e compilando ao longo de 13 anos o resumo possível da história de um gigante: a maior biografia sobre um dos maiores poetas portugueses, que chega este mês na versão traduzida.

"Pessoa. Uma biografia" é editado em português a 19 de maio pela Quetzal, cerca de um ano depois da publicação em inglês no Reino Unido e nos EUA, onde já foi chamada de "uma das maiores biografias do século". Com a presença Richard Zenith, o livro foi apresentado à imprensa em Lisboa esta quinta-feira, pouco depois de ser revelado que tinha sido um dos finalistas do prémio Pulitzer deste ano. A apresentação pública acontece também a 19 de maio, na Gulbenkian.

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Um Pessoa social, mas também um solitário. Pessoa o fingidor, Pessoa o homem eternamente ligado e marcado pela sua infância. Pessoa com segredos, por vezes incompreendido. Pessoa no seu lado fascinado pela espiritualidade ou no seu lado mais íntimo. Os diferentes mundos, vidas e facetas do poeta estão todos na massiva obra de Richard Zenith: 1184 páginas, mais extratexto de imagens, dedicadas ao autor.

Zenith segue, estuda e traduz há décadas a obra de Pessoa: desde os anos 1980, pouco depois da chegada do escritor a Portugal. "Já conhecia a poesia de Pessoa, tinha algumas edições que comprei no Brasil onde vivi três anos, mas foi aqui que conheci o 'Livro do desassossego'", explicou sobre o início da sua ligação com o poeta português. O laço nunca mais se quebrou: ao longo de 40 anos, a carreira de Zenith tem-se cruzado sempre com a de Pessoa, mas esta aventura numa incursão biográfica do poeta nasceu de um desafio do seu agente, há mais de dez anos. "Eu ingenuamente achava que devido a todo o trabalho que já tinha feito ia levar dois, três anos", explica, dizendo que estava contratualizado um livro de 160 mil palavras. Acabou por ter 360 mil e demorar 13 anos, ainda que intercalado com outros trabalhos e traduções.

"Nunca tinha escrito uma biografia, pelo que foi uma aprendizagem. Reunir todos os factos necessários e uma sequência que fizesse sentido foi, só por si, uma tarefa muito grande. Depois [foi preciso] escrever um texto com garra, as várias facetas da vida, relacioná-las de modo a revelar quem era Fernando Pessoa", adianta o escritor. "É a história de uma vida", frisa, falando ainda de um processo com "inúmeras páginas deitadas fora, uma versão final que foi cortada" e outros acertos até chegar ao resultado já aclamado pela crítica internacional e agora traduzido em português.

No final, Zenith diz que Pessoa é mais revelado do que nunca nesta biografia, mas admite que parte dele ficará sempre um mistério. "Fui convivendo com Pessoa, já antes, agora ainda mais. E pensava muito em como ele se sentia mas, na verdade, no início do processo da escrita cheguei a ter dificuldade a 'entrar' em Fernando Pessoa."

E adianta: "Sinto que fiquei a conhecer bastante mais Pessoa. Alguém perguntou-me como era a minha relação com ele. Respondi que era um pouco como um psicanalista, mas não no sentido de eu psicanalisá-lo. Nunca fiz psicanálise mas tenho amigos que sim e sei que vão lá e o psicanalista ouve, ouve, ouve. E senti-me nesse papel com Pessoa. Estar lá, mergulhado nos seus apontamentos, na sua obra, e ouvir, ouvir. Foi esse tipo de relação, para tentar entrar".

Recorrendo como fonte principal à própria obra de Pessoa, mas também a inúmeras cartas, apontamentos e arquivos, o que Zenith tentou foi "pôr os elementos todos, para que os leitores consigam sentir Pessoa. E que também tenham uma experiência de convivência com ele".

A versão portuguesa de "Pessoa. Uma biografia" tem tradução de Salvato Teles de Menezes e Vasco Teles de Menezes. No mesmo dia, a Assírio & Alvim publica "Diários e escritos autobiográficos" de Fernando Pessoa, uma edição com cartas inéditas, apontamentos pessoais, rascunhos, excertos de obras literárias e poemas. Um livro com edição e prefácio de Fernando Cabral Martins e do próprio Richard Zenith. O escritor diz que funciona como complemento à biografia, contendo textos e cartas nela referidos.

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