Sines

Sonhos com banda sonora no Festival Músicas do Mundo

Sonhos com banda sonora no Festival Músicas do Mundo

É provável que sejam musicais os sonhos de quem circula por Sines nos dias do Festival Músicas do Mundo (FMM), tal a quantidade de sons induzidos ao longo de 24 horas.

Na madrugada de sexta-feira, por exemplo, foi possível adormecer com a "cumbia nueva" dos colombianos Frente Cumbiero, que às seis da manhã ainda instigavam o público a dançar a sua "cumbia" renovada com "samples" e sintetizadores. Para trás ficava a Fanfaraï Big Band, orquestra de doze músicos provenientes de uma geografia que se estende da Bretanha ao Magrebe e que têm em comum a paixão pelo "raï", género musical criado na Argélia que mistura instrumentos tradicionais com eletrónica e que, apesar de reconhecido pelo governo como música nacional, é alvo de perseguição frequente por parte de grupos radicais islâmicos.

Mais atrás, ficava o som dos Kokoroko, outros representantes ilustres da nova cena jazz londrina (na véspera, atuara Nubya Garcia). Liderados por três mulheres, que se ocupam do trombone, trompete e sax alto, os britânicos movem-se com destreza, e bons resultados para a anca, entre o afrobeat e o jazz de fusão. E, para não ir mais atrás ainda, o cérebro emprenhou também toda a coleção de "hits" dos Gipsy Kings, que se apresentaram no Castelo de Sines com um único representante da formação original - Diego Baliardo.

A noite seguinte será igual, porque em Sines não é preciso esperar pela abertura dos palcos para se ouvir música. Pelas ruas irrompem grupos improvisados com violas, djambés, saxofones e soundsystem. Estes coletivos juntam por vezes largas dezenas de pessoas ao seu redor, e há mesmo quem resuma a sua experiência no festival a estes concertos espontâneos e aos espetáculos gratuitos na Avenida Vasco da Gama.

Dobra-se depois uma esquina, e há apenas alguém a tocar uma flauta, solitariamente, ou então ouve-se um rádio a debitar trance, música brasileira ou algum dos artistas de "world music" presentes na cidade. À tarde ouvem-se ainda grupos folclóricos portugueses a cantar "as janeiras" ou músicos como o brasileiro Rincon Sapiência a conduzirem oficinas para as crianças de Sines. Em todo o lado há um ritmo, uma melodia, e o inconsciente vai acumulando matéria para as horas de descanso. Apanha nova dose a partir das 18 horas, momento em que reabre o portão do castelo.

Nesta noite de sexta-feira, as possibilidades de banda sonora para o sonho são inúmeras: as mornas da cabo-verdiana Lucibela; as canções suaves e exóticas de Susheela Raman, britânica com origens indianas que no seu último álbum explora música javanesa; o som do Nordeste brasileiro de Chico César e o estribilho "pretinho, neguinho/preto, negão"; a combinação de jazz, funk e dub dos norte-americanos Antibalas, que nos acompanha na redação deste texto; ou o número do sírio Omar Souleyman, um dos mais proeminentes músicos presentes na 21.ª edição do FMM, que se notabiliza pela sua figura de sheik dos petrodólares envolvido pelos ritmos levantinos "dabke" e "baladi".

A adormecer, seremos ainda embalados pelas viagens de Shantel & Bucovina Club Orkestar, alemães que se apropriam de sons do Mediterrâneo e do Médio Oriente. Vai ser um sonho musical certamente.

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