Arte do dia

"Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro"

"Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro"

Há novo livro de Ana Teresa Pereira, nova canção de Billie Eilish, cartas de amor de Shirley Jackson e 82 sugestões de livros para o verão.

Mesmo quem nunca se atirou à leitura de Anna Karénina de Tolstoi sabe que a primeira frase dessa obra emblemática é esta: "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira." A frase é tão boa e batida e discutida que, depois dela, é impossível nunca mais ficar-se atento ao arranque de cada livro.

Um dos arranques mais bonitos da literatura portuguesa pertence a Ana Teresa Pereira no premiado "Se nos encontrarmos de novo", publicado em 2004. Escreve ela: "Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala."

Há uns largos anos, era ainda José Sócrates primeiro-ministro, houve quem ficasse escandalizado pelo facto de o então chefe de governo não ter reconhecido José Luís Peixoto, já mais do que conhecido naquela altura. "Como é que você disse que se chama? Jorge?", perguntou-lhe Sócrates na celebração dos 100 dias daquele executivo. O desconhecimento pode ser caminho fértil para o humor, mas não reconhecer o rosto de um escritor tem muito que se lhe diga - e pode dizer bem mais do escritor do que do leitor.

Vem isto ainda a propósito de Ana Teresa Pereira, uma das escritoras mais singulares do panorama literário português. Levante o dedo quem for capaz de a reconhecer se se cruzar com ela. E, no entanto, é isso, também, que ajuda a que essa mulher madeirense seja um misterioso fenómeno solar. Uma escritora com uma obra superlativamente bela de que só, muito de vez em quando, se ouve falar.

A sua obra é a história, quem sabe se autobiográfica, da alma. E é uma história de amor pela arte: Mondrian, Rothko, Bonnard, Rembradt, Rublev, Van Gogh, Monet, Degas, Ticiano, Turner, os impressionistas todos da pintura; Iris Murdoch em primeiríssimo lugar, mas também Henry James, Emily Bronte, Ibsen, Rupert Brooke, Rilke, Charles Dickens na literatura. Livros e quadros. Sempre. Bach, Mozart, Haydn, Pizzetti na música; Vincente Minnelli, Tarkovsky, Sokurov, Ingrid Bergman, Katherine Hepburn, Robert Mitchum no cinema. A lista é exaustiva, precisa, sugestiva, minuciosa.

Esta sexta-feira ficámos a saber que, ainda este mês, chegará um novo livro dela ao mercado, "Como se o mundo existisse" (Relógio d'Água), reunião de contos e ensaios. E que Ana Teresa Pereira "adorava ganhar um 'Edgar', um 'Agatha' ou outro prémio policial".

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Shirley Jackson (1916-1965), autora no notável "Sempre vivemos no Castelo", não somou propriamente prémios no género policial, mas é uma das mais influentes escritoras norte-americanas no que diz respeito a esse horror e mistério que Ana Teresa Pereira também reclama para si. Publicou o primeiro conto ainda na Universidade - "Janice" é uma conversa com uma jovem que se gaba de ter tentado suicidar-se naquele dia -, onde conheceu e se apaixonou pelo colega Stanley Edgar Hyman. E com quem começou a corresponder-se no verão de 1938.

A Paris Review divulgou, esta semana, uma dessas cartas de amor. Muitas outras estão reunidas no livro "Cartas de amor de Shirley Jackson", que acaba de sair na Random House. Como este excerto:

"Tenho medo que venhas a esquecer-me muito em breve. Se isso acontecer, por favor, não continues a escrever-me para tentares convencer-me de que não estás a esquecer-me. Mas, por favor, não te esqueças de mim, nem pares de amar-me, nem aprendas a amar mais alguém. Se eu começar a dizer o que realmente sinto, perceberás como estou assustada, e sinto que quanto mais preciso de ti menos tu irás precisar de mim."

Menos desesperada, Billie Eilish, deixa canção nova para o fim de semana, a quinta do seu próximo álbum, "Happier Than Ever", que deverá sair ainda este mês.

E o diário espanhol "El País" eleaborou uma lista com 82 sugestões de livros para o verão. Não há autores portugueses na lista, mas muitos destes livros estão traduzidos em português. É o caso do belíssimo "Klara & Sol", de Kazuo Ishiguro, de que já aqui falámos, ou o incontornável livro de crónicas de Thomas Piketty ou o livro de contos de Alice Munro.

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