
Auto retrato de Aurélia de Souza
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Centenário do desaparecimento da artista Aurélia de Souza junta sete entidades numa comemoração que se estenderá a partir de 9 de abril e se prolonga até junho de 2023.
A história de vida de Aurélia de Souza é por si só assombrosa. Filha de "torna-viagens", emigrados primeiro no Brasil e depois no Chile, em busca de fortuna nos caminhos de ferro, viajam de Valparaíso (Chile) para o Porto com os filhos, tendo Aurélia três anos, e passam a residir na Quinta da China, no Porto. Depois de ingressar numa das primeiras turmas mistas da Academia Portuense de Belas Artes, acaba por estudar em Paris, ela e a irmã Sofia, uma pintora menos conhecida. Daqui viaja por Berlim, Bruxelas e Madrid e torna-se um dos nomes mais destacados da arte nacional. Tudo nos anos de 1900, sendo ela estrangeira, não casada e sem filhos, toda uma revolução à época. A artista é atualmente uma das mais pretendidas (e falsificadas) em Portugal.
A mostra "Metamorfoses: Iminência vegetal, mineral e animal no espaço doméstico romântico" é o primeiro momento da celebração de um dos maiores vultos da cultura portuguesa. Decorrerá na extensão do Romantismo do Museu da Cidade, no Porto, com inauguração a 9 de abril. O legado de Aurélia de Souza será também evocado, segundo o extenso programa apresentado esta sexta-feira, no Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR), nas Câmaras do Porto e de Matosinhos, e nas Universidades do Porto (UP), Católica Portuguesa (UCP) e Nova de Lisboa.
António Ponte, diretor do MNSR, destacou o "esforço conjunto que se materializa através de uma imagem que une as iniciativas". Passa por "conversas, ciclos, exposições, congressos internacionais e o lançamento do Catálogo Raisonné". Este catálogo tem coordenação científica de Raquel Henriques da Silva e Elena Komissarova, do Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Ana Paula Machado, da Direção Geral do Património Cultural (DGPC); e Maria Aguiar, do núcleo do Porto da UCP. Será lançado em março de 2023. Outro destaque será o Congresso Internacional "Mulheres artistas em 1900", em abril de 2023.
Na apresentação, a subdiretora da DGPC, Rita Jerónimo, realçou o "importante acervo" da pintora representado no museu e frisou o "objetivo estratégico de reforçar a visibilidade do património" e de "incrementar a participação e chegar a novos públicos" com a evocação do centenário da morte de Aurélia de Souza.
As mostras prosseguem com "Aurélia de Souza. Do que vejo", promovida pela autarquia de Matosinhos, no Museu da Quinta de Santiago, de 26 de maio a 4 de setembro, com curadoria de Cláudia Almeida e Filipa Lowndes Vicente. No Porto, a Casa Comum recebe de 12 de julho a 22 de outubro "Aurélia de Souza. Ilustrações inéditas". O reitor da UP, António de Sousa Pereira, realçou estas obras produzidas "enquanto estudante" daquela instituição e referiu que a "importância artística da pintora justifica a parceria interinstitucional", que resulta num "programa de celebrações vasto, diversificado e honroso". Também no MNSR decorrerá a mostra "Vida e segredo", a partir de 24 de novembro.
Além das exposições, as celebrações terão um programa performativo, "De corpo presente", que "convoca um conjunto de criadores contemporâneos da dança, teatro e poesia", detalhou o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. O primeiro evento decorre na Feira do Livro do Porto, a 26 de agosto.
Rui Moreira disse que Aurélia de Souza foi "alguém bailando entre a casa e o mundo, entre os papéis de género, entre o sagrado e o pagão, popular e tantas vezes herético, uma mulher cosmopolita que desafiou as convenções de uma época". Luísa Salgueiro, autarca de Matosinhos, também pôs a tónica na "afirmação do papel das mulheres na sociedade" e lembrou, entre risos, que pintava tão bem que "até parecia um homem", de acordo com os seus contemporâneos. Uma ideia também defendida por Isabel Braga da Cruz, diretora do núcleo do Porto da UCP, que sublinhou o papel da instituição na conservação e restauro de 12 obras da pintora que estarão agora em exposição.

