
Miguel Pereira/Global Imagens
"Os problemas que a extrema direita coloca, resolviam-se com duas bengaladas no Chiado".
Albano Jerónimo e Cláudia Lucas Chéu lançam o mote para uma reflexão sobre o presente e o futuro dos regimes demoliberais, com a peça "O Meu Amigo H.". Em contagem decrescente para a estreia, na próxima sexta-feira, dia 19, no grande auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães, os dois encenadores e o ator Virgílio Castelo conversaram com o JN sobre a importância deste "sinal de fumo antes do alarme despertar" relativamente aos novos totalitarismos.
A peça parte do texto homónimo de Yukiu Mishima (1925-1970) e embora tenha algumas diferenças, de acordo com Cláudia Lucas Chéu, "mantém algumas das ideias basilares, os pilares seguros com os quais erguermos o espetáculo. Esses pináculos fortes que sustêm o inferno na terra são representados por quatro homens: o capitalista, o militar, o sindicalista e o H., o Homem, o líder, que nasce do conflito e da ambição pelo poder." Para Mishima, H. era "um génio político", Cláudia Lucas Chéu prefere chamar-lhe "monstro".
Não é o texto mais óbvio para se lançar um alerta sobre uma nova alvorada dos totalitarismos, até porque, no original, Mishima faz uma glorificação da figura de Hitler. A capa da primeira edição, em 1968, no Japão, tinha o retrato do ditador alemão, encabeçada por uma suástica. "O texto tem todos os ingredientes para nós o querermos. Não é fácil de trabalhar em cena. A palavra revela-nos uma estética de guerra permanente, de uma revolução sem fim, uma masculinidade toxica, a brutalidade da beleza. Mas há também espaço para a baixa política, dos bastidores, dos jogos internos de sobrevivência", afirma Albano Jerónimo. "Mishima não é consensual e isso é ótimo. Quando o Ricardo Braun me apresentou o texto percebi que tinha uma arquitetura brutal para falar sobre o nosso tempo", acrescenta.
Yukiu Mishima, politicamente, foi próximo dos ideais nacionalistas que alimentaram os regimes de extrema direita que conduziram o mundo à II Guerra Mundial. Em termos literários, Mishima oscilou entre a glorificação da cultura japonesa e assimilação dos modelos ocidentais. A sua escrita dramatúrgica é disso prova, dividindo-se entre a reescrita de peças de teatro noh e obras que seguem o cânone ocidental.
Na adaptação que a companhia Teatro Nacional 21 apresenta, as referências históricas foram limpas. A iconografia e os figurinos fazem um equilíbrio entre as influências ocidentais e as japonesas. "Isto dos movimentos extremados de extrema direita ou esquerda pode acontecer em qualquer parte do mundo", lembra Albano Jerónimo. Em palco estarão quatro atores - Pedro Lacerda, Rodrigo Tomás, Ruben Gomes e Virgílio Castelo - personificando o capitalista, o militar, o sindicalista e o H.
Atenção aos capitalistas
Virgílio Castelo faz o capitalista e avisa que se trata de "um texto muito poético". Contudo, o ator confessa que abordou de uma forma política: "O capital é fundamental nas revoluções, sobretudo de extrema direita." Segundo Virgílio Castelo, "os problemas que a extrema direita coloca, resolviam-se com duas bengaladas no Chiado. Devemos preocupar-nos é com o capital
que está por trás destes movimentos, porque a agitação que se tem visto é bluf. O capital está sempre por trás dos movimentos em que pode ficar a ganhar. O capital fica sempre a ganhar."
"António Costa é um gajo sério"
Para Virgílio Castelo, "a haver teatro" na construção das personagens de extrema direita que têm emergido, "teria sido muito mau". "São maus atores, andaram todos em más escolas", atira, "porque um bom ator tem a responsabilidade de transmitir emoções verdadeiras, o que estas personagens da extrema direita fazem é passar emoções fabricadas." O ator afirma que, atualmente, "há muito poucos políticos que nós sintamos que estão a ser sinceros quando falam". Admitindo que está contra a corrente, Virgílio Castelo afirma que "António Costa é um gajo sério. Ele representa, hoje, esse político sério e isso só se vai ver quando passar a espuma dos dias."
Para o ator, o nosso primeiro-ministro - "um político sem uma agenda de maldade por trás" - é a antítese de H. que depois de ser eleito líder do país acaba por matar o militar e o sindicalista para satisfazer o capital.
Para Albano Jerónimo é importante que a estreia seja em Guimarães, "pela preocupação que a nossa companhia tem tido em descentralizar, mas sobretudo porque não é aquele público de estreia de Lisboa que aparece só para ver o que está mal. É gente que vem com predisposição para apreciar."
Os bilhetes para o espetáculo, 10 euros ou 7,5 euros com desconto, já estão à venda nos balcões do CCVF, Centro Internacional das Artes José de Guimarães, Casa da Memória e Loja Oficina e também nas lojas Fnac, Worten e El Corte Inglés e bilheteira online BOL

