1941-2020

Vasco Pulido Valente: pai da geringonça e narrador do instante

Vasco Pulido Valente: pai da geringonça e narrador do instante

Quase sempre a melhor definição de um homem pertence a uma mulher. "O principal atrativo de Vasco Pulido Valente (VPV) residia no facto de não ser batizado. Era inteligente, engraçado e sardónico. Era o mais lúcido e o mais culto. Usava um português tão escorreito que parecia pretensioso. E gostava de ter ao lado mulheres bonitas."

Este retrato do historiador, ensaísta, colunista, comentador político e absoluto mestre da Língua Portuguesa, que morreu esta sexta-feira aos 78 anos, em Lisboa, foi pintado pela investigadora Maria Filomena Mónica, fazendo um exercício de memória sobre o tempo em que se conheceram, no curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1962, ambos na casa dos 20 anos. Ambos então a ensaiarem, nas palavras da historiadora, uma união de "verdadeiros espíritos", como no soneto de Shakespeare, mas ambos "incapazes" de, ao contrário do que sucede no poema, dominarem as "tempestades".

Aos 50 anos, VPV pintava uma tela mais prosaica de si próprio. "O meu corpo não quer ser mais novo. Eu, às vezes, quero que ele seja. Mas sou eu, não é ele, coitado. Ele nasceu em 1941 e não tem vergonha nenhuma. Até aqui, aliás, não se portou mal."

Um pouco mais à frente, nesse livro intitulado "Retratos e Auto-Retratos" (Assírio & Alvim, 1992), o colunista que assinou, até há poucas semanas, até ser internado, um Diário para o diário "Público", escreveria: "Recuso-me a tratá-lo [ao corpo] como se ele fosse um velho; com mimos e cuidados de velho. Ele que se aguente. Ou que não se aguente."

Aguentou até ontem. E ontem, da esquerda à direita, do jornalismo à academia, ninguém hesitou em escrever "a história coerente" que VPV dizia não ser capaz de escrever se, por absurdo, quisesse um dia escrever a sua biografia.

Narrador do instante

"Portugal perdeu um dos seus maiores cronistas da atualidade. Todos sentiremos falta da acutilância, da argúcia, até da sua irónica rispidez", afirmou o primeiro-ministro António Costa, tocando num detalhe fundamental: o investigador que se debruçou minuciosamente sobre a História dos séculos XIX e XX era também, rigorosamente, o narrador do instante.

Foi assim no semanário "O Independente" de Paulo Portas, na revista "K" de Miguel Esteves Cardoso, no "Expresso" de Balsemão, seu eterno ódio de estimação, foi assim no Diário de Notícias, e no Observador, e na TSF, e na TVI. E foi assim, muito antes, em "O Tempo e o Modo", revista fundada e financiada por António Alçada Baptista.

Não se perde, por isso, a obra mas perde-se todos os dias a oportunidade de o ver dissertar sobre os dias. Com violência, com graça, com adjetivos demolidores, acertando muitas vezes e falhando outras tantas. Como só os "homens livres" conseguem acertar e falhar.

"Livre das convenções do politicamente correto, livre da necessidade geral de agradar a quem o ouvia, livre das amarras de quem espera reconhecimento, desafiou com liberdade a classe política e agitou com humor as conceções dominantes", escreveu, em comunicado, a direção do CDS-PP.

"A minha admiração por Vasco Pulido Valente era mais do que fascínio intelectual. Era um verdadeiro culto. Culto à inteligência, culto ao humor e ironia, culto à língua portuguesa", escreveu o eurodeputado do PSD Paulo Rangel na sua conta na rede social Twitter.

"Foi o melhor historiador do século XIX português, e o mais luminoso de todos os que estudaram e escreveram sobre a I República", sublinhou Paulo Portas, que diz dever-lhe "muitas conversas de muitas horas sobre história, política, literatura ou viagens" e sobretudo "uma amizade sem interrupção durante mais de 30 anos".

Apesar de ter sido secretário de Estado da Cultura de Francisco Sá Carneiro, no tempo da Aliança Democrática, em 1978, e deputado relâmpago nas listas do PSD de Fernando Nogueira, a sua incursão na política, ainda na faculdade, fez-se pela porta da esquerda radical.

Na década de 60, participou nas lutas académicas contra o salazarismo, integrado no Movimento de Ação Revolucionária (MAR), de que Jorge Sampaio foi um dos fundadores. E de todas as figuras políticas que tiveram algum protagonismo em Portugal, será justo dizer que terá sido Mário Soares, que conheceu aos quatro anos, aquela que mais admirou. Dirigiu a sua campanha para as eleições presidências de 1985, e até ao último dia do antigo presidente da República nunca deixou de o enaltecer. "É a grande figura da História Portuguesa Moderna", disse.

Elogio a Portugal

Maria Filomena Mónica descreveu a história da sua vida (e, de certa forma, da vida dos outros) entre 1943 e 1976, no livro "Bilhete de Identidade" (Alêtheia Editores, 2005). Quando disse a VPV que iria fazê-lo, ele não achou mal. Até ler a coisa. Não gostou nada de se ver ali retratado e lá se foi uma amizade de 35 anos.

Ela contou isto em várias entrevistas. Ele, também. Foi-se a amizade, mas não o universo comum. Partilharam Oxford (ele doutorou-se em História, com uma tese orientada por Raymond Carr, intitulada "O Poder e o Povo: a Revolução de 1910"), o fascínio por Eça de Queirós e, muito mais tarde, um gabinete de investigação na Universidade Nova de Lisboa.

Entre os livros publicados, destacam-se "Os Militares e a Política: 1820-1856", "A República Velha: 1910-1917", "Marcelo Caetano: As Desventuras da Razão", "De mal a pior" e "O fundo da gaveta", estes dois últimos, os mais recentes, publicados pela D. Quixote.

Em 2014, numa das suas crónicas no Público, VPV batizou para sempre o primeiro governo português empossado sem ganhar eleições - "A Geringonça". Mas quem pensou que isso era o reflexo do seu histórico pessimismo, enganou-se.

Quatro anos depois, numa entrevista ao mesmo jornal, o homem que dizia ser "produto de coincidências improváveis, de circunstâncias efémeras, de emoções sem substância", declarou o seu amor ao país. "Os portugueses têm uma segurança que ninguém tem. Inabalável. Não temos que provar nada a ninguém. Somos ótimos."

O corpo de Vasco Pulido Valente vai estar em câmara ardente a partir deste sábado, no centro funerário de Cascais, em Alcabideche. A cremação está marcada para segunda-feira, às 14 horas.

Vasco Pulido Valente visto por ele próprio: "Comecei e desisti. Desisti e recomecei. Desejei e não desejei. Dei meia volta ou a volta inteira."

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