9ª edição do Guidance

Victor Hugo Pontes atirou-se do 23º andar e caiu de pé

Victor Hugo Pontes atirou-se do 23º andar e caiu de pé

Victor Hugo Pontes atirou-se do vigésimo terceiro andar da sua carreira e caiu de pé. Pelo meio, voou.

Coreógrafo e encenador em partes iguais, entrou pelo universo sagrado de Pirandello adentro, fê-lo pela porta mais emaranhada - a de um texto de enredo florestal, "Seis Personagens à Procura de um Autor", em que atores e personagens disputam a realidade que será ficcionada ou a ficção que porventura alguém tornará real em cena, ou não... parece confuso e é mesmo, porque é teatro dentro de um ensaio de teatro que quer descobrir onde começa o ato teatral, não sendo a versão de Pontes teatro mas dança, pelo menos à primeira vista - traduzindo o texto todo em movimentos (como fizera em "A Gaivota", de Tchekov), sem palavras nem pistas outras que não as do corpo e das emoções.

Tem tudo para estatelar-se ao comprido porque arrisca questionar em cima do questionamento que o siciliano já fizera nos anos 1920, mas com ferramentas mais complicadas porque subtrai as palavras mas não salta as cenas, e o que consegue, numa altura em que já ninguém inventa nada, é criar um discurso novo, tecido de uma linguagem nova, para uma drama que já nem é o do autor do texto que ele quis despir nem o da família enlutada e sem nome que invade a cena numa espécie de spoiler mais ao contrário.

De repente, o texto que silenciou e mesmo - perdoe-se a heresia -, as fronteiras que Pirandello quis superar, passam a ser pouco relevantes, porque Victor Hugo Pontes cria efetivamente uma possibilidade inédita para a fusão entre a dança e o teatro e a narrativa, que na verdade não é bem fusão mas uma fundição que não une mas multiplica.

Basicamente, seis personagens invadem o palco de seis atores reclamando para si um autor que lhes reinvente a vida que não tiveram mas em que acreditam. Contando-a, houvesse autor ou encenador que aceitasse fazê-lo, ela tornar-se-ia real. "Quem tem a sorte de nascer personagem viva, pode rir até da morte, porque não morre jamais", diz o texto original. Os personagens, em angústia e fuga para a frente, gritam e os seus gritos ouvem-se, ouvem-se mas não emitem som. E tudo isto é real naquela encenação coreográfica.

Victor Hugo Pontes não tira só as palavras ao texto, tira as palavras a quem viu esta quinta-feira a sua 23ª criação, "Drama", em estreia absoluta na 9ª edição do Guidance, Festival Internacional de Dança Contemporânea, em Guimarães. A peça, o piano de Joana Gama e o cenário de Fernando Ribeiro, que ali bem podia o outro personagem, passa entre os dias 15 e 17 de março por Lisboa e no dia 8 de Maio pelo Teatro Rivoli, no Porto.