Vit Klusak, realizador checo: "A situação no nosso país é bastante grave, mas não é só aqui"

"À solta na Internet"
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O documentário checo "À solta na Internet" denuncia de forma brutal o assédio sexual a menores.
Começou por ser um pequeno vídeo para um dos principais fornecedores de internet na República Checa. Os realizadores Vit Klusak e Barbora Chalupova conceberam depois um filme escolhendo três jovens de 18 anos mas que pudessem passar por 12, construindo três quartos de jovens raparigas num estúdio e criando perfis falsos de internet. O resultado desta experiência sobre assédio sexual de menores está na versão que já podemos ver no cinema de "À solta na Internet", e que coexiste com outra mais soft, dedicada ao público escolar. Um dos realizadores, Vit Klusak, falou ao JN sobre o projeto.
Quão grave é a realidade do abuso sexual de crianças na República Checa?
No espaço de cinco horas após a criação do perfil para o primeiro vídeo, 83 homens com idades compreendidas entre os 23 e os 63 anos contactaram as raparigas, a esmagadora maioria com propostas explícitas de masturbação mútua através de chat vídeo. Muitos enviaram fotografias dos seus pénis eretos, enquanto alguns enviaram links para todo o tipo de pornografia, incluindo animal. Como se pode perceber, a situação no nosso país é bastante grave. Mas infelizmente não é apenas aqui. É por isso que estamos contentes por o nosso filme estar a ser distribuído em muitos países, incluindo Portugal.
O projeto foi acompanhado pelas autoridades?
Falámos com sexólogos, psicólogos, advogados e com o departamento da polícia de crimes cibernéticos. Alguns deles estiveram connosco no estúdio e aparecem no filme. Os psicólogos ajudaram-nos a ajustar o comportamento das raparigas de modo a agirem como crianças de 12 anos.
Quais foram os critérios para a escolha das três atrizes?
Há apenas uma atriz, as outras duas nunca tinham estado à frente de uma câmara. Não posso esconder a minha alegria pelo facto de espectadores e jornalistas nos terem dito que as três são completamente naturais. Foi suficiente ir a um bar e tentar encomendar-lhes um copo de vinho para perceber que passavam por jovens de 12 ou 13 anos.
Embora tenham mais de 18 anos, os pais foram ouvidos ao longo de todo o processo?
Dissemos para elas falarem com os pais. Encontrámo-nos com os pais de duas delas. A outra não lhes quis contar porque o pai é polícia e tinha medo que a proibisse de participar no filme. Respeitámos a sua escolha. Mas uma vez terminado o projeto contou à família. Ficaram um pouco assustados, mas quando viram o filme ficaram muito orgulhosos.
Elas receberam apoio psicológico durante os dez dias em que receberam mensagens de predadores sexuais?
Durante as filmagens tivemos connosco um sexólogo e um psicólogo. Depois de terminarmos, foi dada às raparigas a oportunidade de fazerem psicoterapia, caso quisessem falar sobre a experiência. Duas utilizaram-na de facto. Falamos com elas regularmente e dizem-nos que mesmo que não tenha sido uma experiência fácil, se ajudar pelo menos uma criança, valeu a pena.
O filme tem várias versões. Pode explicar como se relacionam umas com as outras?
Quando terminámos a edição do filme, sabíamos que não era possível exibi-lo a crianças de menos de 15 anos. Decidimos fazer uma versão mais curta, sem cenas explícitas, que também tem um comentário das raparigas e mostra às crianças regras e orientações sobre o que fazer e o que não fazer na Internet. Temos ainda uma versão mais chocante onde se pode ver o conteúdo da forma como as jovens o veem, sem as imagens estarem desfocadas.
Durante as visitas aos predadores, que vemos no filme, houve alguma situação mais perigosa?
Estávamos cientes de que esses encontros eram complicados e tínhamos um segurança connosco, que felizmente nunca teve necessidade de intervir. Não diria que as situações fossem perigosas. Eram apenas muito perturbadoras, sabendo que os predadores pensavam estar a ter um encontro com uma rapariga de 12 anos e até onde estavam dispostos a ir.
Houve abertura de casos judiciais depois de mostrarem o filme?
Foram abertos 52 casos. A polícia descobriu que a maioria dos predadores estava a conversar ou a encontrar-se com outras crianças de 12 anos. Dois homens deviam ir para a prisão, mas devido a outros casos. Um deles tinha pornografia infantil no computador, outro estava em liberdade condicional.
Como é que o filme foi recebido no seu país?
Estreou no final de fevereiro de 2020 e nas duas semanas seguintes foi visto por mais de 330 mil espectadores. Depois da reabertura das salas teve mais 225 mil espectadores. Quando foi emitido na televisão pública, foi visto por mais de um milhão e 400 mil pessoas. É de longe o documentário mais bem-sucedido alguma vez realizado na República Checa. As pessoas chamam-lhe docublockbuster.
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