As crises na Educação são um poderoso instrumento de pressão sobre qualquer Governo. Não está a ser diferente com este - embora a pressão para o caos dentro do Executivo seja ainda maior do que a exercida fora dele. Nuno Crato cedeu em parte aos sindicatos e estes perceberam também que não podiam manter sine die as avaliações adiadas. E assim terminou a greve de junho (com exame de Português do 12.o ano pelo meio).
Em paralelo, Nuno Crato tem resultados da sua estratégia para analisar: mais de metade dos alunos do 4.o ano (antiga primária) chumbou no exame nacional de Português e pouco mais de 50% teve positiva a Matemática. Das duas uma: ou os exames não devem ser levados a sério ou o Ministério da Educação e as escolas não andam a cumprir o seu papel. Mas 'chumbar' alunos com esta idade não é solução.
[perguntas]
[1] Que conclusões tirar do acordo entre o ministro da Educação e os sindicatos?
[2]No 4.º ano, quase metade dos alunos chumbou nos exames de Matemática e mais de metade nos de Português. Os alunos deviam ser impedidos de passar de ano ou a responsabilidade é das escolas?
[respostas]
Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves
[1] O clima instalado era inaceitável, não estando a ser protegido o superior interesse do aluno. Uma vez encontrada a paz temporária, ficou por esclarecer na opinião pública qual o impacto nos custos públicos da cedência do Governo.
[2] Não compreendo por que não é possível transmitir aos jovens o amor pela Matemática e pela Língua Portuguesa. Como as causas não podem ser imputadas aos jovens nem ao menor empenho dos professores, as razões só podem estar nos métodos pedagógicos.
Joaquim Azevedo, presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica
[1] Negociar em cima do fio da navalha resultaria sempre num recuo. A educação não ganhou, a política pública de educação regrediu.
[2] Em educação, temos de trabalhar para os processos, nunca para os resultados. A qualidade depende disso. Quando uma criança tem dificuldades de aprendizagem tem de se atacar logo o problema, desde o 1.o ano, não no 4.o ano.
Albino Almeida, conselheiro nacional de educação
[1] O MEC acabou por fazer o que podia ter feito logo no início do processo - ter bom senso e pensar efetivamente nos alunos, mais do que na troika....!
[2] Pelas regras que o MEC definiu nenhum aluno reprovaria como consequência única dos exames! Para o futuro, o MEC vai ter de trabalhar mais, pois se este número de alunos viesse a reprovar estaríamos perante a falência do sistema educativo, por ineficiência total!
Rui Reis, investigador e professor catedrático da Universidade do Minho
[1] Não sei se se pode dizer que houve acordo já que nem todos os sindicatos o assinaram. Parece-me que houve algum avanço, mas as questões principais como a mobilidade especial e o horário de trabalho (não o letivo) mantêm-se. Não percebo por que não se deram estes passos de convergência antes, evitando a greve e todos os problemas com as avaliações. A impressão que tenho é de que com este Governo tudo dá confusão e problemas para os cidadãos e as suas famílias. Não me parece que o conflito esteja definitivamente encerrado.
[2] Quando os números são deste tipo, há que questionar se os exames estavam adequados ao que realmente se ensinou aos alunos. Exames sem consequências, ainda para mais nestas idades, dão certamente origem a falta de empenho dos alunos, mas também dos professores.
Rui Teixeira, presidente do Instituto Politécnico de Viana
[1] No fim houve razoabilidade em ambas as partes e não "rendição" do ministro/Governo, como se disse. Se a razoabilidade tivesse sido o ponto de partida e ambos fossem mais "modernos" no estar, tudo teria sido mais fácil e menor o espetáculo.
[2] A avaliação, nesta fase, sobretudo, não pode ser suportada, só, num exame. Já ninguém o faz dando-lhe esse valor, acrescida a teatrada que rodeou estes, em concreto, face à idade das crianças. Mesmo assim merece análise, obviamente.
Luís Rebelo, Repr. dos estudantes do Ens. Sup. Universitário no Cons. Nac. Educação
[1] Principalmente que se ambas as partes tivessem estado disponíveis para falar, discutir e negociar frontal e lealmente, todo esta confusão tinha sido evitada e ganhávamos todos.
[2] Se não cumpriram com as metas estabelecidas, devem chumbar, o que não implica que não se responsabilize mais (e dê mais autonomia) às escolas.
Marques dos Santos, reitor da Universidade do Porto
[1] Que os cidadãos deste país estão em plano secundário, tanto para os sindicatos como para o ministério. Se era possível uma solução, por que se causou tanto sofrimento?
[2] É urgente perceber por que razão é tão elevado o insucesso. Exames desadequados dos programas? Incapacidade/impreparação dos professores para ensinar os programas? Desleixo e desinteresse das famílias? Depois agir em conformidade! Mera retenção de alunos conduzirá, mais cedo ou mais tarde, à marginalidade.
